segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O LADRÃO DOS SONHOS ALHEIOS


Caravaggio, Michelangelo Merisi da - The Incredulity of Saint Thomas - 1601-02

O LADRÃO DOS SONHOS ALHEIOS

   Era meia noite e Maria Eleutéria estava no Box 7 da rodoviária, criando tumulto, gritando, gesticulando em desespero de causa, chamando a atenção de todos que por ali passavam. No princípio parecia se conformar com as cenas de histeria, emprestando aos transeuntes o papel de espectadores de um espetáculo circense, de uma pantomina urbana. Mas logo passou a avançar sobre os passageiros, puxando-os pelas roupas, fazendo com que interrompessem o percurso mecânico, desviassem das inamovíveis trajetórias. E seguia-os com apavorante proximidade. Numa escalada progressiva aumentou o tom da encenação e começou a se atracar com os transeuntes, derrubá-los no chão, esbofeteá-los enfurecidamente. Clamava por ouvidos, olhares, sentimentos. Exigia toda atenção do que gravitasse à sua volta.

   - Seqüestraram o presidente, seqüestraram nosso presidente – era a única coisa que se permitia dizer, repetindo exaustivamente a frase, martelando as mesmas palavras no ouvido dos que, sem conseguir obliterar a curiosidade, aproximavam para saber a razão de tamanho alvoroço.

   Logo o serviço de segurança privada da rodoviária, prevendo maiores problemas, chamou pelo rádio a patrulha. Não demorou e vagarosamente o carro da polícia manobrou para encostar ao lado de Maria Eleutéria.

   O sargento da polícia militar, seguido do cabo que conduzia a viatura, permaneceu por alguns minutos acompanhando a cena protagonizada pela pobre mulher, estudando-a meticulosamente, procurando com sua atenta observação esquadrinhar seu perfil psicológico, descobrir seu grau de periculosidade, para então optar pela operação menos traumática, mais adequada face a natureza da ocorrência.

   Não foi necessário muito tempo de acurada observação para que o experiente militar considerasse que não se tratava de um caso de segurança e sim de saúde e assistência social. E imediatamente passou um comando para a central de rádio, solicitando o envio, com a devida urgência, de uma ambulância devidamente aparelhada para a situação verificada.

   Se optasse por prender a mulher iria conduzi-la para onde?, para que lugar? Para a delegacia que desde a inauguração comprimia um número de detentos quinze vezes superior à capacidade instalada?, não!, não!, claro que não.

   Definitivamente, não. Percebeu que a mulher à sua frente era diferente. Não se confundia com uma mundana. Em nada se parecia com uma arruaceira, uma vadia, disso estava certo. Um simples olhar era o suficiente para certificar que tinha nos gestos e na postura uma auréola educada, nobre, aristocrática.

   As roupas que trajava, as bijuterias e o relógio, os cabelos longos e bem cuidados, a textura da pele moldada a creme de leite, tudo dava à mulher uma identificação de quem esteve, desde a infância, em estado de graça com a face melhor da existência.

   No dia a dia, o sargento lidava com o que de pior e o que de mais subalterno habitava o universo humano. A marginalidade, a criminalidade, toda a gama de delinqüência, os larápios, embusteiros, corruptos e assassinos, de modo que, cedo, aprendera a distinguir as coisas, separar o joio do trigo. E separava com uma tranquilidade que impressionava, a mesma com que discernia aromas e sabores de cada peça de carne que prazerosamente assava aos finais de semana, acompanhado invariavelmente do único e fiel amigo, o inseparável dálmata Trovão. – Não será assim... – pensou o sargento Alípio – umas doses de calmante e a mulher reencontrará o equilíbrio, retornando, Deus há de querer, à sua casa, ao abrigo do marido, dos filhos, netos, quem poderia saber?

   Na rodoviária, o chefe da segurança exigia do sargento Alípio providências urgentes e mais severas: que a levasse para bem distante, que a prendesse sem mais demora, que cumprisse seu papel de autoridade policial, que colocasse fim à balbúrdia e à anarquia, que.... Mas só o que conseguiu foi desencadear uma contenda, uma queda de braço, uma guerra travada nas entrelinhas dos duros e ásperos argumentos de que cada um se municiou para lancetar o outro. Alípio sentiu-se aliviado quando viu, ainda longe, o socorro aproximar.

   Quando a ambulância parou, estacionou ao lado do camburão da polícia. Desceu o enfermeiro chefe, um homem franzino, cabelo espichado, todo paramentado de branco. Caminhava ao encontro de Alípio sem tirar, por um só segundo, os olhos da mulher que continuava com seus desvarios, suas provocações, seus gritos ensandecidos. À medida que testemunhava o destempero da mulher, o enfermeiro chefe ia se convencendo do que não iria fazer. Bem rente a Alípio, informou rispidamente que não poderia levá-la nem à central de triagem e atendimento e nem a lugar algum. Não se considerava apto para intervir em casos daquela espécie.

   O único treinamento que recebera em vinte e cinco anos de carreira na saúde pública foi o que o habilitou a lidar com enfermidades básicas, primeiros socorros, curativos superficiais, procedimentos rudimentares e triviais, nada que tangenciasse o estado descontrolavelmente nervoso em que mergulhara a desconhecida.

   Alípio insistiu, perseverou com o enfermeiro chefe e o segurança da rodoviária, com ambos travando um diálogo sem sentido e direção. Um embate de surdos vingou no pequeno diapasão até que o enfermeiro, lançando ao lixo a paciência, destinou-os sem pruridos à puta que pariu, levando embora a ambulância.

   O segurança voltou à carga insistindo na adoção de algum tipo de providência, enquanto, à parte, Maria Eleutéria continuava seu exibicionismo demente.

   Neste instante, a mulher atracava-se com um senhor de meia idade tentando a todo custo convencê-lo que, finalmente, após inúmeras tentativas, haviam conseguido sequestrar o presidente.

   Percebendo que a situação escapava ao controle, o segurança ameaçou denunciar o sargento à corregedoria da polícia e Alípio se viu então numa encruzilhada fatal.

   Na família, o sargento testemunhara a luta da mãe contra a depressão profunda. Uma chaga em que momentos de intensa solidão são intermediados por outros, espasmos, surtos de euforia incontrolada. Sabia das armadilhas que a mente humana engendrava para aprisionar pessoas numa redoma indevassável de dor e solidão. Por isso podia, como poucos, entender a agonia e o suplício que a pobre mulher experimentava, uma crise brutal e feita aberta para ser presenciada por todos.

   Foi quando, num lampejo, decidiu recorrer ao seu estoque de procedimentos não convencionais. Obstinado, intentava socorrê-la.

   A multidão já confinara a mulher num beco escondido entre os boxes, caçoando, provocando, instigando. Os moleques, engraxates e biscateiros gracejavam, ousando traquinagens mais arrojadas como jogar bucha de laranja, copos de água, pequenos objetos tomados da lixeira. Puxavam-na pela barra da saia, uma longa e justa saia de seda escura que expunha o contorno sensual de seu corpo esguio.

  Alípio se aproximou da mulher e muitos da multidão, eufóricos, começaram a enxovalhar, gritando obscenidades: - Essa safada merece uma surra, policial. Cadeia pra cadela. Todo mundo sabe do que ela precisa. Cacete na piranha.

   Como se gravitando em outra constelação, o sargento ignorou a multidão.

   Aproximou-se um pouco mais da mulher emprestando ao andar uma cadência longe da costumeira: calma, leve, pausada, cadenciada, em tudo inspirando segurança. A multidão que a tudo assistia, confusa, nada entendia. De um pirralho vendedor de rosas que cruzou seu caminho, Alípio comprou um botão vermelho. Pagou e conferiu o troco com gestos sincopados, largos, vívidos. Chegou mais perto o quanto pode. Guardando certa distância para não melindrar mirou profundo nos olhos da mulher, como que a esquadrinhar seu âmago. Com a mão esquerda ofereceu o cravo vermelho, presenteando-a docilmente; ao tempo em que estendia a outra mão, oferecendo a proteção e o conforto só emprestado por cavalheiros de estórias relegadas ao imaginário.

   Instantaneamente, no lapso do tempo, Maria Eleutéria interrompeu a crise histérica para comungar do ritual proposto e, simplesmente no estender da mão, entregou ao desconhecido sua vida e seu caminho. E se deixou levar.

   À porta da viatura o rádio da patrulha alertava para a improcedência da notícia dando conta de que a pequena Eufrates, de apenas três anos de idade, havia sido encontrada morta. E reiterava a ordem para que a corporação não esmorecesse prosseguindo nas buscas. Maria aproximou-se de Alípio e sussurrou ao seu ouvido.

   – A pequena Eufrates está em Belo Horizonte... escondida num vestiário que está ha dois anos em reforma... no estádio do Mineirão; assustada ela está, muito assustada, muito... mas passa bem; a pequena estará em casa em cinco semanas. Não mais que isso, cinco semanas...

   Alípio não deu a mínima ao que considerou fantasia da imaginação comprometida de uma senhora fora de si, com evidentes sinais de distúrbios neurológicos. Como poderia a coitada tresloucada saber do seqüestro da filha do desembargador, assunto mantido no mais absoluto segredo? Dispensou cabo Olegário, o soldado que o acompanhava na viatura, ordenando que recolhesse a patrulha à garagem do batalhão. E com uma voz que interagia firmeza e suavidade, falou à mulher: - um táxi nos conduzirá daqui para um lugar mais tranqüilo, onde se possa conversar.

   Quando o sargento se dirigiu ao sanatório público para visitar Maria Eleutéria foi surpreendido pelos fatos. No centro do jardim lá estava ela, esfuziante, envolta pelos pacientes do hospital, seguramente não menos que quinze internos. Aproximou-se discretamente para não atrapalhar o que pensou ser uma reunião, quem sabe uma rotina do tratamento psiquiátrico. A surpresa aumentou quando percebeu a ausência de médicos, enfermeiros e auxiliares. Apenas Maria Eleutéria argumentava, conduzia o relato, embalava o discurso, encantando pacientes que nada perdiam, concentrada atenção, até mesmo à respiração obrigavam outra cadência.

   Preocupado, Alípio recorreu à enfermeira chefe que, de considerável distância, tudo monitorava.

   - Não se preocupe sargento - disse a responsável que logo encerrou a conversa. Desejava amainar a aflição do seu interlocutor.  – Desde que ela chegou tem sido assim. Não para de explicar com detalhes como se deu o seqüestro do presidente, e como o substituíram por um sósia alienígena.

   Ainda sob o impacto das heterodoxas explicações da enfermeira chefe, Alípio retornou ao jardim onde se reuniam os pacientes ao redor da bela Eleutéria. Atento em manter-se discreto premeditou se anular atrás de uma frondosa mangueira, de onde podia ver e ouvir o desenrolar da reunião.

   E uma vez mais foi surpreendido pela oradora que, num repente, interrompeu as explicações didaticamente ministradas para convocá-lo ao colóquio.

   - Aproxime-se Sargento. Chegou mais tarde que imaginei. Todos aqui já o esperávamos – e voltando-se para os internos, acrescentou. - Queridos, este é o sargento Alípio que me trouxe até este centro de reflexão... meu amigo... mas que amanhã me pertencerá tanto quanto eu pertencerei a ele porque nossos destinos estão trançados no lampejar das estrelas.

   Ainda surpreso com o ocorrido, Alípio saiu da sombra para ser recebido calorosamente pelos enfermos. Ao chamá-lo de amigo e anunciar uma união que Alípio ainda não formulara sequer no imaginário, Eleutéria proferiu as palavras mágicas que fizeram os presentes acolhê-lo como se um deles.

   Escutou-a então com atenção. Aos pacientes, a formosa Maria explicava como o presidente havia sido seqüestrado por um comando paramilitar financiado pelos narco-terroristas das FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, e por governos estrangeiros capitaneados por Fidel, Chaves, Ortega, Morales e Ahmadinejad. Alegava com conhecimento de causa que a figura que se apresentava como presidente era na realidade um impostor, um falsário, um títere, uma marionete. E para provar sua argumentação mostrava as contradições entre o que o presidente dizia quando candidato e o que agora praticava investido no poder.

   Detalhava cada ponto, cada intervenção, cotejava cada item da carta programática do candidato com cada entrevista, cada opinião, cada projeto do presidente marionete, e demolia tijolo a tijolo o que afirmava ser o mais infame golpe contra os cidadãos, contra os homens de bem.

   O sargento, como os demais ali presentes, não perdia uma só palavra do que dizia Maria Eleutéria. Encantava a forma como gesticulava, os movimentos serenos e equilibrados, mas firmes de modo a não destoar da grave denúncia. O olhar e o semblante imprimindo credibilidade a cada frase, a cada dado, a cada informação, a cada vírgula e a cada ponto. Sem que entendesse como, Alípio se percebeu apaixonado pela mulher, seduzido pela perspicácia e inteligência incomum, mas, sobretudo, pela beleza dissimulada. E retornou para casa acabrunhado. Cada dia que passava, a louca estória daquela que todos tinham como insana, adquiria maior consistência, maior rigor lógico, maior credibilidade. Os olhos e o coração de policial experimentado, que em trinta anos de carreira militar já o fizera emergir um sem número de vezes do caos absoluto e da morte mais que anunciada, não permitiam que duvidasse de coisa alguma, não nesta altura da vida.

   Antes de se recolher para dormir, parou em frente da TV para ver a repórter anunciando que o cativeiro onde estava a criança seqüestrada havia sido estourado por um comando especial da polícia, com todos se surpreendendo com a ousadia dos bandidos que escolheram como esconderijo as dependências, em reforma, do estádio Mineirão, na cidade de Belo Horizonte.

   Passou a noite em claro. Tinha agora mais uma demolidora comprovação da volátil e ao mesmo tempo inquebrantável coerência da mulher que – já não restavam dúvidas – amava intensamente, com a mais avassaladora de suas forças. Como poderia ela saber, com tanta antecedência, do paradeiro da pequena Eufrates?

   E o episódio do empresário Cristóvam, quando previu sua libertação duas semanas antes dos seqüestradores consumarem o fato? E o caso do assassinato de Tereza Cristina, na iminência de ser arquivado, quando Maria Eleutéria lhe sussurrou ao ouvido quem era o assassino, as razões que motivaram a tragédia que aterrorizou a cidade e o local onde estava escondida a arma do crime. E havia ainda a manifestação sobre os assassinatos dos ex-prefeitos Toninho e Celso Daniel. Mas neste caso específico do presidente da república, o sargento sabia o quanto a mulher se enganara. Sabia que ninguém havia seqüestrado o presidente. Alípio sabia que o candidato que se fez na resistência democrática era o mesmo que agora criticava a esquerda, que queria impor a censura à imprensa, que tecia gracejos a Omar Bongo e admirava-se com a longevidade do ditador africano, ocupando por quase quarenta anos o poder no Gabão. Não, não... Sabia o sargento que a mulher se enganara. O homem era o mesmo, sempre fora o mesmo. Aquele que por trinta anos soube enganar toda a gente, se passando por homem simples e humilhe, ético e compromissado, cândido, vitima de injustiças históricas; agora simplesmente se revelava nu e por inteiro, integralmente, sem máscaras e camuflagens.

   O homem que Maria Eleutéria acreditava ser um sósia, uma marionete, um clone, era na realidade o verdadeiro, o lobo travestido em pele de cordeiro, o que a todos enganou, embaiu, seduziu, mentiu, hipnotizou. Em todos os anos policiando as ruas da cidade, Alípio enfrentou todo tipo de bandidos, esteve frente a frente com ladrões grandes e pequenos, ladrões baratos que se contentavam com o botijão de gás, ladrões contumazes como ratazanas que inundavam o serviço público, medíocres e venais ladrões de velocípedes, bicicletas, motonetas; e refinados ladrões de carros de luxo, iates suntuosos, jóias preciosas e históricos relicários. Mas jamais pode imaginar que um dia o mundo cão pudesse fazer emergir um marginal tão atroz e nefasto, o que adquiriu a habilidade de invadir o imaginário das pessoas, para de lá roubar seus sonhos e esperanças. Maria Eleutéria não o convenceu da existência do sósia do presidente, mas o fez se deparar com a descoberta do século: já existia na face da terra o ladrão especializado em furtar sonhos e esperanças.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

MAZOMBO

Maria Luiza sentiu um calafrio singrar a espinha até ancorar na parte posterior da cabeça. Preocupava-se quando o fenômeno se repetia reiteradamente, como durante toda a semana. Desde a noite anterior esperava aflita Joaquim, o homem de sua vida, forte, alto, inteligente e generoso o suficiente para tirá-la da vida fácil, tornando-a ainda menina, mulher completa e feliz.

Palpitações, calafrios e sobressaltos sempre foram, em sua vida, sinais de maus prenúncios. Ora anunciavam um aborrecimento iminente, ora um dente que latejaria dali a minutos, a maior parte das vezes, a tragédia da perda de alguém muito próximo e querido.

Nessas horas lembrava-se das agruras do amado. Recordou quando, tempos atrás, sobressaltos repetitivos se confirmaram como um perigoso e grave incidente. Joaquim indignado com a humilhação e o suplício que um dono impunha ao seu escravo, resolveu intervir. E por sair em defesa do negro, foi punido com a perda da tropa que lhe dava o sustento. Anos e anos de sacrifícios, mascateando entre o Rio de Janeiro e Minas, percorrendo toda aquela dispersa região, formando uma sólida rede de fregueses compradores para colocar tudo a perder por conta de sua bondade e senso de justiça.

De nada adiantava Maria Luiza chorar, bater perna, reclamar para aquele homem magro, ombros largos, longos e belos cabelos acastanhados. De nada adiantava implorar, suplicar para que se distanciasse das confusões. Joaquim era assim e pronto. Melhor resignar e conformar com a escolha daquele que considerava a justiça patrimônio inalienável da humanidade, valor extremo, acima de tudo, inclusive de sua própria vida. Por isto Maria Luíza revirou-se na cama por toda a noite sem conseguir pregar os olhos. Mal rompeu o dia e os calafrios já reverberavam suas preocupações premonitórias.

“O destino está inscrito nas estrelas e nos planetas” dava cordas ao pensamento a menina-mulher. Como se preparando para a notícia que tardava, mas que sabia, viria fatídica. Algo de muito ruim se anunciava para seu amor.

Um dos predicados que Luíza herdou da mãe foi a prestidigitação e a facilidade de - esquadrinhando os astros - ler o futuro das pessoas. Desenvolvera como ninguém a habilidade de fazer desaparecer objetos, a arte do ilusionismo. No estudo das leis da abóbada celeste especializou-se na ciência do tempo, na astrologia. Através da marcha do sol avaliava o tempo de vida que restava nos que a procuravam. E da posição das estrelas e constelações, extraia as possibilidades de materialização dos sonhos, desejos, aspirações que tocavam sussurrantes em seus ouvidos. Interpretava os sonhos e desnudava seus mistérios.

Mas como o assédio crescia incontrolavelmente, fingiu ter perdido os dons mediúnicos e espirituais, de modo que fez o tempo solitário, para dedicá-lo inteiro ao amado Joaquim, a pessoa mais importante de sua vida, razão do viver, cuja perda significaria para si dor e também morte.

Tentava se entreter com outras coisas, esquecer da aflição que a demora de Joaquim causava. Mas de sua memória só emergiam lembranças ruins, pesadelos que havia previsto, e que devido à pragmática incredulidade, o amado insistia em não observar. Por inúmeras vezes sibilou a Joaquim: “os astros orientam, não determinam. Não devemos nos manter indiferentes aos seus sinais, traz mau agouro”.

A concentração fugidia impeliu Maria Luíza à rede, atada a um gigantesco pé de ingá cuja sombra avançava sobre a cobertura da casa simples e aconchegante.

A sombra entrecortada pela brisa fresca fez avivar mais ainda a memória.

E lembrou da fama que corria daquelas paragens ao Rio de Janeiro, testemunhando Joaquim como o melhor cirurgião, boticário e tirador de dentes do mundo. Carregava sempre consigo a caixa de ferrinhos e o boticão, e os utilizava magicamente, como se manuseasse entre os dedos plumas e fios de algodão. Companhia inseparável a caixa com emplastros de ervas, águas milagrosas e drogas que preparava com ciência e esmero.

As lembranças galopavam no cérebro da doce menina-mulher, quando rompeu no horizonte Joaquim José.

Maria Luíza não soube como pulou da rede, venceu a considerável distância que os separavam e na fração do segundo, se viu sobre seu homem, com as pernas salientes enforquilhadas trançando a cintura viril.

Joaquim, como fazia sempre, cobriu-a de beijos e carícias, sussurrando ao ouvido doces palavras de saudade e paixão. E conduziu a mulher para a cama de capim macio enquanto vestia-a de carinho e afeição. Envoltos nos lençóis límpidos de aroma silvestre deixaram-se entregues ao mais avassalador e intenso prazer. A distância e o tempo mantiveram-nos afastados por dois meses. Dois intermináveis longos meses. Extasiado, Joaquim adormeceu com a cabeça sobre os abundantes seios nus da mulher que fizera sua. Independentemente das conveniências e pactos sociais, escolhera para confortar o coração Maria Luísa. Não sentia culpa ou remorso por coisa alguma. Não. Quando juntos, o tempo e todo o resto paravam em deferência ao amor que dali brotava. Na intimidade, seu coração jamais deixou um naco sequer de dúvida a respeito da mulher que o escravizara. Por isto curtia extrema fidelidade à amada, e a ninguém mais.

Maria Luísa era uma escultura extraída dos palácios gregos. De tão graciosa e formosa, parecia esculpida pelas mãos mágicas dos deuses helênicos. Boa estatura, pernas longas e torneadas, quadris insinuantemente provocantes, seios salientes, bicos empinados como perfurando o vestido de seda colante, sempre justo, uma segunda pele dando contornos elegantes e sedutores à verdadeira. O rosto perfeito, encontro harmonioso dos fortes traços do pai negro com a delicada fragilidade da mãe francesa. Lábios cheios esnobando carne e volúpia. Olhos castanhos, profundos, olhos de lince. Como brincava a mãe, era uma ninfa a quem os deuses do Olimpo permitiram, momentaneamente, incursionar pela existência temporã.

Não bastasse a beleza física, a esplendorosa perfeição recebeu como herança da mãe os ensinamentos da arte proibida do prazer sexual. Dona de casa de prostituição em Paris, a mãe Françoise faleceu vítima do empaludismo mal aportara em terras mineiras. Mas conseguiu, antes de partir, legar à filha o domínio do idioma francês, os mistérios da prestidigitação e da astrologia, e os segredos fascinantes da cópula perfeita, capaz de tornar o amor tórrido e pleno.

O que hipnotizava Joaquim não era apenas a beleza impetuosa de sua morena, tão pouco sua perspicácia, inteligência e cultura cosmopolita. Admirava, sobretudo, a capacidade de conduzi-lo a um tipo de orgasmo jamais experimentado. A diva aprimorou a técnica que aprendeu da mãe, de contrair e distender os músculos da parede vaginal. De modo que mal esperava Joaquim introduzir sem membro rijo por inteiro, e Luíza fazia as paredes da buceta trepidar sincopadamente, primeiro uma convulsão sutil, que acentuava com os movimentos, até tornar-se voluptuosamente frenética, como que asfixiando, enlouquecendo o caralho de seu homem, que urrava ante o prazer mais intenso e avassalador. Ao jorrar o leite espesso no âmago da mulher amada, Joaquim era um lobo, e uivava transbordando felicidade e satisfação.

Com sua princesa sentia-se outro, feliz, encorajado para enfrentar os desafios, mesmo os mais difíceis. Foi com Maria Luíza que deu asas ao pensamento, e era ela quem auxiliava-o a traduzir, do francês, a coletânea de leis americanas. É bem verdade que a fada-mulher reprimia-o insistentemente, aborrecia afirmando estar bolinando o perigo mais temido, o que lidava com o confronto das idéias. Alertava-o sobre os riscos da prisão, da forca e do desterro. Mas fazia desobrigando-se de um encargo de consciência. Estava mais que convencida que o amado fazia o já tardava em ser feito.

Ao acordar leve e disposta, Luíza novamente saltou sobre Joaquim, fazendo-o come-la por inteira, febrilmente. Primeiro caiu de boca sobre seu cacete duro e grosso, chupando-o intermitentemente, liquidifiqueando com a língua a cabeça latejante. Depois colocou-se de quatro, empinando a bunda e permitindo que seu ânus sedoso abrigasse a deliciosa dor que remia. E quando o éden multicolorido se anunciava com trompetes e flautas doce, virou-se bruscamente, escancarou as pernas e entregou a buceta sequiosa, púrpura, encharcada de prazer e júbilo. Subiram e desceram um milhão de vezes o monte Everest. Depois se deixaram, fartos, na cama. Até altas horas da manhã. Ainda deitados, num rompante, se queixou à mulher:

- Não passarei de alferes.

Suspirou profundo antes de continuar.

- Cabo, furriel, sargento. Caso permaneça no regimento, morrerei alferes.

Deu mais uma longa pausa de onde extraiu forças para continuar o assunto que o atormentava.

- Já fui preterido quatro vezes na promoção. Vou pedir licença e mexer com mineração.

Voz grave, Luiza respondeu com costumeira sabedoria.

- Sempre te disse que eles jamais aceitariam mazombo. Você sabe, pra que iludir? Parece que gosta de sofrer! – respondeu Maria Luiza quase irritada, para completar: - Larga mão da mineração que não vai dar certo. E esqueça esse negócio de canalizar o Andaraí e o Maracanã.

Joaquim deu de ombros, incomodado com as premonições da mulher. “Como diachos foi saber de suas intenções com a engenharia sanitária?”pensou purgando inquietação.

Maria Luíza para reanimá-lo pegou o Recueil des loix constitutives des colonies angloises confederées sous la dénomination d`États Unis de l`Àmérique septentrionale, publicação francesa presenteada por Álvares Maciel, e passou a traduzi-lo.

Joaquim José, pura concentração, encantava-se com as leis americanas e com as idéias de Jefferson. Escutava a voz encantadora da mulher traduzindo os princípios libertários que sonhava vigorar nesta terra continental de opressão e tirania.

Continuaram então na cama por três horas ininterruptas, estudando e discutindo o livro francês, até que se cansaram, e novamente tornaram-se sexo.

Quando teve orgasmo múltiplo e se virava tirando seu corpo de sobre o de Joaquim, Maria Luíza teve uma visão terrífica. Mas nada falou apesar da insistência do amado. Só no dia seguinte, quando despedia o amado, se permitiu dizer:

- Não entendo. Recebo sinais que você deve manter distância de Joaquim.

- Manter distância de mim mesmo? – caçoou Joaquim José, procurando desconversar.

- É isto que não compreendo. O mal dos males ronda seu espírito, mas estou confusa. Vejo um espírito maligno à sua volta de nome Joaquim ... mas não é você ... é muito estranho, estou confusa..

- Já falei que você deve parar com essas bobagens. Te deixam louca. E a mim também.

- Não, escuta. Falo sério. Vejo um espírito ruim, vejo coisas ruins, vejo uma corda, uma forca, um corpo retalhado ... quatro partes. Um demônio que tem o seu nome, Joaquim....

Enquanto percorria em procissão as ruas estreitadas da cidade, Joaquim José lembrava das palavras da mulher amada, das premonições, todas verdadeiras e confirmadas com o compasso do sol, as enfermidades, os acontecimentos, a perda da tropa, o fiasco na mineração, as cirurgias, a tiração de dentes aliviando a dor de tantos, o desdém do vice-rei esnobando seus projetos de canalizar os rios e melhorar o abastecimento de água da cidade, a mãe que perdeu aos 9 anos e o pai aos 15, o padrinho Leitão que o fizera mestre na lida com o boticão, a derrama ...

Quando chegou ao Campo da Lampadosa e subiu ao cadafalso, Joaquim José já havia passado toda a vida e só tinha pensamentos para Maria Luíza.

Por isto Frei Raimundo de Penaforte não entendeu o sorriso sutil que Joaquim permitiu esvair dos lábios finos, quando a corda de aço cingiu o pescoço, libertando-o dos três anos de suplício.

“Tinha o coração bem formado” conseguiu concluir em pensamentos o frei antes de dar por concluída a extrema-unção.

O nevoeiro denso e cerrado fazia indevassável a boca da noite. Com muita dificuldade, chorando em bicas, Maria Luíza retirou a cabeça de Joaquim José exposta na ponta mais alta do poste iluminado. Cobriu-a delicadamente com o lenço de ceda branca e foi enterrá-la à sombra do velho ingá, a árvore frondosa que abrigara sua aventura revolucionária e amorosa.

A pequena cova envolta por terra revolvida, abrigava agora a semente que tornaria a vida, dali a instantes, diferente, repleta de cravos vermelhos, rosas e margaridas amarelas radiantes de sol e luz.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O santo sudário


 Maria Helena foi chorar ao pé da encosta. Nada mais podia fazer. Agora só restava chorar e lamentar ter permitido a felicidade esvair dentre os dedos da mão.

Guilherme e Maria Helena eram metalúrgicos em uma pequena industria no interior de Goiás. Enveredaram-se na luta sindical auxiliando a organização dos trabalhadores, mas atuavam também nas obras de assistência social promovidas pelas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica.

Maria Helena, mulher negra, alta, forte, beleza marcante e Guilherme Arantes, branco, frágil, beleza dissimulada, conversa encantadora, conheceram-se e dois meses depois estavam casados. Perceberam, no primeiro olhar, um do outro, e surpreenderam todos com a festa de casamento modesta nos aparatos, mas farta no número incontável de amigos.

No primeiro dissídio coletivo, os discursos calorosos realizados na porta da industria custou o emprego de ambos. Sem ter o que fazer na cidade e desprovidos das condições de sobrevivência, resolveram entrar de cabeça no movimento dos agricultores sem terra. E mudaram-se com as escovas de dente para um acampamento gigantesco, localizado à margem da rodovia federal e que reunia não menos de dez mil famílias. O primeiro censo precisou o número de sobreviventes da cidade proibida, miserável mas impecavelmente organizada, surgida do nada, numa madrugada fria e desconsolada: 55.632 habitantes. Homossexualidade, bebedeiras, reuniões após as vinte e duas, jovens com brincos ou piercing, entrevero, bate boca ou discussão entre acampados, questionar as decisões da direção, não cumprir as tarefas determinadas, punição severa passível de expulsão.

A experiência sindical e a liderança que brotava natural em ambos, logo os remeteram à direção central do movimento. À Maria Helena coube a vice-presidência da Sessão de Mulheres Agricultoras do Brasil, a SEMAB. E Guilherme Freitas ficou responsável pela Coordenação Geral de Formação Política – COFOPO e pela Diretoria Financeira da COOTRAB, o principal cargo executivo da cooperativa dos trabalhadores da reforma agrária.

Na SEMAB, Maria Helena cuidava das questões específicas das mulheres do campo, as questões de gênero. Em cada quadra residencial contavam com duas mulheres eleitas para representar as demais e reuniam-se todos os sábados, discutindo a discriminação, a dupla jornada de trabalho, a violência doméstica e a de estado, a educação dos filhos, a distribuição das cestas básicas entregues pelo governo e a realização do trabalho na Cooperativa, instituição criada e administrada pelo movimento para organizar os negócios financeiros, bem como a comercialização da produção.

Na COOTRAB Guilherme implementou uma gestão profissional, eficaz, que levou a cooperativa a sair do vermelho, passando a ostentar lucros sempre crescentes, alcançando inclusive o mercado externo com a exportação de produtos orgânicos. Idéia sua a de mobilizar os trabalhadores para qualificar a produção, plantando sem a utilização de agrotóxicos, sem agredir o meio ambiente, predicados que escancarou o mercado internacional. As exportações dirigidas ao mercado europeu revelaram-se fundamentais para a sustentabilidade econômica dos trabalhadores rurais, de sua luta e organizações. Não só conseguiram agregar valor à produção alcançando competitividade e preços, mas independência financeira para manter a política de ocupação de terras.

De um lado, Guilherme encontrara o caminho livre para promover o vigoroso crescimento da Cooperativa. De outro, na Coordenação de Formação Política enfrentava problemas que se agravavam irremediavelmente.

Também ali tudo corria bem, até que Guilherme, bocudo, começou a questionar a estrutura extremamente centralizada e concentrada da direção. Isto, é o que dizia, levava a tomada de decisões autoritárias, sem respaldo e sequer o conhecimento dos trabalhadores. Pregava uma reestruturação geral, que atribuísse as decisões da direção um caráter democrático, com a mobilização e incorporação dos trabalhadores no processo de tomada de decisões.

No início a direção do movimento não se importou, imaginando tratar-se de desvario momentâneo, nuvem passageira. Passaram a escuta-lo sem ouvir, emprestar uma atenção inexistente. Mas como insistisse nas críticas, acentuando-as, logo sentiu na pele as conseqüências da rebeldia solitária.

Guilherme passou a ser furtivamente vigiado e ostensivamente perseguido. Antes submeteram-no a uma malograda quarentena, quando sequer era cumprimentado. Não recebia mais convite para nada, como se não existisse. Ao chegar às reuniões, percebia que tudo já havia sido deliberado anteriormente, só restando o referendo formal. Em casa, recebeu o comunicado em que a Direção Nacional informava de sua destituição dos cargos de Coordenador Geral de Formação Política e de Diretor Financeiro da maior cooperativa de trabalhadores rurais da América Latina. Uma carta lacônica, sem nenhuma explicação ou justificativa.

Maria Helena também sofria as conseqüências daquela realidade surrealista. Era impiedosamente cobrada, pressionada para controlar os devaneios do marido, eliminando, ou quando menos mantendo em limites toleráveis suas tendências reformadoras e revisionistas. Os diálogos eram graves e carregados de preocupação:

- Seu marido já foi longe demais, ultrapassou todas as barreiras.

- É um perigo e uma ameaça para o movimento.

E ameaçavam sem subterfúgios:

- Ou você o controla sem mais tardar, ou daremos uma solução final.

- Você sabe, o movimento não pode parar por conta de um traidor.

- Entre nós o destino dos traidores é um só.

- Você se lembra do que ocorreu com Joaquim...

- ...e Pedro...

- ...e José Armando...

- ...e Maria José ...

Pressentindo o risco que pairava sobre a cabeça do casal, Maria Helena entabulou milhares, infinitas discussões com Guilherme. Enchia-se de argumentações sem resultados aparentes. O marido não arredava milímetro, não dava o braço a torcer, ao contrário, enumerava casos e mais casos que considerava fragrantes injustiças contra o conjunto dos trabalhadores rurais. Mais grave, denunciava os membros da direção, seus antigos camaradas, como autoritários e stalinistas, capazes de perpetrar os piores desatinos contra os indefesos membros do movimento.

Para piorar, Guilherme passou a criticar o sistema abertamente, em locais públicos, abertos ou fechados, onde conseguisse um pingo de atenção. Apelidou o acampamento de campo de concentração de Treblinka. Em casa, escondia-se dos problemas e da desilusão com a causa, mergulhando na bebida, a ponto de intermediar os goles de cachaça com outros de álcool puro.

Deram-no como caso perdido. E caso perdido implicava em eliminação sumária. Estabelecida a sentença, deram inicio ao ritual da solução final. Primeiramente disseminando mentiras as mais estapafúrdias, como a farsa de que – sem que a própria companheira soubesse – estava bem de vida na cidade, com três casas escrituradas que alugava, um sítio de recreio, barco de pesca, comércio montado e carro zero. Que perpetrou enormes desfalques à cooperativa, intermediou negociatas com as parcelas de terra dos assentamentos, e a mais grave e temível acusação, a que despertava trauma, aguda angústia, pesadelo, dor de açoite, ofensa indesculpável, revolta, levante, furor, cólera, ódio, fel, linchamento e tudo o que mais repugnava: que era olheiro dos proprietários de terras e espião da polícia, disfarçado para espionar e denunciá-los.

Os amigos se afastaram imediatamente, sentindo-se traídos, os conhecidos se distanciaram enojados, e Guilherme pela primeira vez pressentiu o fim. A bebida tornara única companheira.

Num domingo, retornando para casa, Maria Helena sem ter como resistir à pressão das companheiras e a contumaz bebedeira do marido, avançou sobre ele aos tapas e pescoções. Guilherme encolheu-se, agüentando sem reagir à humilhação da surra. Não esboçou um movimento, não levantou a voz, fez que não tinha olhar, hombridade e sentimentos. Em amor à mulher se deixou ficar. Quando desferia um chute na barriga do marido, Maria pisou em falso, perdeu o equilíbrio e escorregou, sozinha, batendo com força o rosto no encosto da cadeira.

Enquanto se estatelava no chão, rompe a casa Patrícia Alencar, presidente nacional do Movimento de Libertação da Mulheres Camponesas, o MLMC. Viu sobre a mesa um martelo e avançou desferindo em Guilherme dois golpes na cabeça que o deixaram no chão, desacordado.

Correu com Maria Helena – zonza devido a pancada na cabeça - para a cidade onde, na delegacia, registraram queixa. Coube à Patrícia de Alencar relatar ao escrivão e à delegada, o ocorrido. E o fez alterada de revolta.

- Quando entrei na casa da companheira Helena, me deparei com o boçal do Guilherme sobre ela, espancando-a com covardia e crueldade. Veja o hematoma que provocou no olho dela, veja aqui, como é que pode uma coisa dessas? Com certeza vai perder a visão, temos que ir agora prender o desgraçado, senhora delegada, senão o bandido covarde escapa.

Em poucos segundos, a delegada Marisa acompanhada por Patrícia Alencar, Maria Helena e cinco policiais deram voz de prisão a Guilherme. O coitado estava em casa, deitado na cama, recuperando da bebedeira e dos certeiros e doloridos golpes de martelo. Quando viu a mulher Maria Luíza, tentou caminhar em sua direção para abraça-la, se desculpar, pelo que não sabia. Mas queria se desculpar por qualquer coisa que fosse, talvez pela bebedeira, pelo constrangimento que a fez passar, pelas críticas à direção do movimento ... talvez estivesse errado e exagerado em tudo ... Mas antes de traduzir a vontade em gestos, os soldados correram a algemá-lo, no que a delegada sentiu-se a vontade para destilar valentia e tabefes na cabeça.

Maria Helena no epicentro do furacão tentava dizer alguma coisa, intervir, esboçar reação, sair em defesa do amado, mas delegada Marisa e Patrícia Alencar gritavam estericamente, ameaçando:

- Não seja vagabunda, mulher, nessa hora quem deve falar é a razão não o coração, homem que bate em mulher não merece perdão nem piedade, se você retirar a queixa, eu juro que te prendo.

E repetia grave e pausadamente para enfatizar a ameaça:

- Eu levo você daqui presa.

No clima da pressão desmedida, Patrícia Alencar não deixou por menos:

- O que é isso, companheira? Não podemos aceitar essa humilhação, isto seria vergonhoso, vexatório, deplorável. Se você retirar a queixa, esse bandido vai ficar solto para continuar a violência sobre você, e sabe Deus contra quem mais?! Você conhece como ninguém nossa filosofia, a violência praticada contra uma de nós é uma violência praticada contra todas nós, contra o coletivo das mulheres brasileiras. Não companheira, de jeito nenhum vamos admitir tal acinte. Se você retira a queixa, você se iguala a eles, se é conivente então passa a ser um deles. Força mulher, estamos do seu lado, nada tem a temer.

Sequiosa de discurso e atenção, Patrícia Alencar subiu em uma banqueta que estava junto a parede para continuar:

- Agora, se você vai mesmo retirar a queixa, então nós trabalhadoras rurais, dotadas de consciência política, faremos questão de expulsa-la do movimento. Caso seja essa a sua vontade, então seu lugar não é aqui, não é com a companheirada. Vamos lá Helena! Força mulher, vamos dar cabo nesses porcos chauvinistas.

Aproveitando-se da confusão criada em torno do episódio, a direção do movimento divulgou que o motivo da prisão de Guilherme foi em razão de ter o marginal estuprado quinze garotinhas do vilarejo próximo, sendo que cinco foram a óbito devido a violência do meliante. Os comentários e a revolta explodiram como um vulcão enfurecido. E combinaram justiçar imediatamente o traidor, enquanto ainda se encontrava no acampamento, ao alcance das mãos.

Quando a delegada Marisa levou a mão à bolsa para pegar o 38, a multidão arrancou Guilherme dos seus braços, sob o olhar conivente dos policiais militares. Amarraram-no no para choque traseiro da mitsubish cabine dupla modelo superluxo de Patrícia Alencar. E saíram arrastando-no dentre as vielas de cascalho, numa procissão terrífica, uma via crucis que tornava passeio dominical a percorrida pelo filho de Deus. No cortejo, recebia da multidão chutes, pauladas, pedradas e gritos injuriosos. De monstruosa, a dor insana adormeceu anestesiada e Guilherme, corpo em carne viva, nada mais sentia, nada mais ouvia, nada mais vivia. Somente um zoar grave e ininterrupto chegava aos seus ouvidos.

A caminhonete parou por alguns segundos e Maria Helena conseguiu se aproximar, cobrindo com um pano branco o rosto desfigurado de Guilherme.

Enquanto chorava na encosta, mirava o retrato gravado a sangue quente no pano que fora branco. Era como o Santo Sudário. Como o Santo Sudário, repetia em prantos. Era o fim. Nada mais podia fazer. Agora só restava chorar e lamentar ter deixado a felicidade esvair dentre os dedos da mão.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O lugar de coração partido

Rembrandt van Rijn - Holy Family - 1640

Zequinha mal esperou o apresentador do circo solicitar, ao microfone, duas crianças da platéia para participar de um número com o palhaço Pirlipimpim. Num repente, desgarrou-se dos braços da mãe e correu em direção ao tablado. O garoto de apenas sete anos era uma graça. Desinibido, era a atração nas festas de aniversário. Cantava, dançava, recitava, contava piadas e apresentava pequenos esquetes, concebidos por ele, sem auxílio de adultos. Os versos e esquetes, ele conseguia escrever na forma de cordel, estilo que assimilara como que por osmose do pai. O velho José entoava aos seus ouvidos versos populares para embalá-lo no sono.  

Dia sim e o outro também, a molecada acorria à casa do menino prodígio, intimando-o para a pelada que infalivelmente iniciava às 16 horas e só terminava já escuro, por volta das 19 horas. Isto porque Maria Santa aparecia com a vara fina, que garimpava no pé de amora, determinando o término da brincadeira. Todavia, antes de se mostrar, a mãe ficava escondida, encantada com os dribles ligeiros do filho, as arrancadas fulminantes, os  passes precisos e os gols incrivelmente mágicos que colocavam os goleiros prostrados no chão de terra batida. 

Como a pobreza do lugar era indigente, ainda no colo Zequinha seguia com os pais para a feira livre, onde exploravam banca de frutas da época. Com nove meses já gritava “Lalanja feguês por um leal a dúza”. Dois anos conseguia devolver o troco corretamente se o freguês pagasse com nota de um, dois, cinco ou dez reais. Com três anos de idade e já tomava conta da banca de frutas, sozinho, liberando os pais para a outra que a família montara onde vendiam deliciosos pastéis de carne e queijo, fritos na hora.
O velho José professava a fé espírita, Maria Santa a católica, e jamais se desentenderam com a diferença. De modo que incutiram no filho a fina percepção que a generosidade era o elo capaz de unir as pessoas. E assim ensinaram os benefícios da tolerância religiosa para a paz e a harmonia. 

- Religião, mulher e time de futebol cada um tem o seu e não se discute - ensinava compenetrado o pai.  

- Devemos respeitar a escolha de cada um - complementava a mãe. 

A chegada da idade escolar foi encontrar a família apreensiva. Zequinha mais eufórico que apreensivo. Ansiava, aluno, vestir o uniforme, ter o próprio caderno de caligrafia, seus livros de figuras engraçadas e o estojo de lápis coloridos. Como os meninos que adorava observar, vestidos de bermuda azul e camiseta branca com listras vermelhas, dirigindo-se falantes ao educandário municipal. 
Mas do alto de sua tenra idade observava também inúmeras outras crianças, muitas de seu tamanho e idade, que chamava pelo nome e sobrenome, vizinhos de rua, outrora de peladas, escravizados pela lata de cola de sapateiro comprimida no nariz; passos, trejeitos e voz de embriagados. A mãe dizia que quem não ia para a escola se perdia na cola e no solvente de tinta. E que a vida nas ruas tornavam as crianças zumbis, sem vontade, sem alma e com o coração partido em pedaços. E repetia para alertar o filho. 

- As ruas, meu filho, tornam as crianças zumbis, sem vontade, sem alma e com o coração partido em pedaços. 

No primeiro dia de aula o professor Jorge reuniu todos os alunos no terreno de terra vermelha, situado ao lado da escola. Anunciou alto, certificando-se que nenhuma criança deixaria de ouvi-lo. 

- Este ano só teremos atletismo, corrida de 100 e 200 metros. Só atletismo. Vou repetir mais uma vez: nas aulas de educação física, só exercitaremos atletismo.  

Zequinha mais que depressa, levantou o dedo pedindo a palavra. 

- Eu quero futebol, gosto de futebol, só vou fazer se for futebol. 

E o mundo de pirralhos ali reunidos, acompanharam-no unanimemente, dizendo numa só voz da preferência pelo futebol. O professor procurando dissimular a irritação tentava argumentar: 

- Não faremos futebol porque não temos material esportivo. Não recebemos nada da secretaria. Nem uma bolinha nós te ... 

Sem aguardar o professor concluir, Zequinha interrompeu, imaginando ter a solução. 

-Agente faz uma bola de jornal amassado e recobre com meia, fica boa, fica boa. 

E novamente as crianças apoiaram em festiva algazarra, falando todos ao mesmo tempo, numa toada que tornava impossível identificar quem falava e o que. 

- Fica bom. 

- Eu também quero futebol. 

- Só corro se tiver uma bola na frente. 

- Tenho duas bolas de meia lá em casa, é só buscar. 

- Ninguém vai fazer esse negócio de atletismo. 

Já sem paciência, abruptamente o professor deu por encerrada a aula. 

- Por hoje basta, vocês estão dispensados. Quem não comparecer às aulas de atletismo que se foda, será reprovado. 

Ao chegar em casa, Zequinha nada comentou com a mãe. Não falou da tristeza e decepção com o primeiro dia de aula. A verdade é  que não queria aborrecê-la mais ainda. Uma semana atrás e o velho José enlevou sob as rodas de um caminhão que ignorou a faixa de pedestre. Desde este dia a mãe, em luto fechado, perdera parte do juízo. Trocava os dias pela noite, levando uma vida de comprimidos. Durante o sono xingava o prefeito por não colocar semáforo nas faixas de pedestres. Discutia nervosamente alegando que nos cruzamentos com sinalização fluorescente horizontal e vertical, sinaleiro e guarda de trânsito os veículos envolviam-se em batidas e acidentes, então como podia uma autoridade cometer tamanha irresponsabilidade de entupir a cidade de faixas de pedestre sem o correspondente semáforo? Enquanto dormia cerrava os dentes maldizendo o prefeito. 

- Político vagabundo, filho da puta, foi quem matou meu Zé Neto. Não, não foi o caminhão – repetia para todos ouvirem – foi o filédaputa do prefeito. 

Zequinha nessas horas abraçava a mãe beijando-a ternamente na testa. E só assim Maria Santa reencontrava a calma e o sono. 

No segundo dia de aula, a professora Vera Maria chamou à frente um voluntário para contar uma história qualquer ou recitar uma poesia. Zequinha não esperou uma segunda chamada. Mais que depressa lá estava, na frente da sala de aula, recitando um dos cordéis que aprendera do pai, um dos que mais gostava, e que relatava o amor de Virgulino Lampião, o rei do cangaço, por sua amada esposa Maria Bonita. Mas mal terminou a primeira estrofe e a professora Vera Maria já o interrompia aos insultos. 

- O que é isso moleque safado? Não tem vergonha? Seus pais não lhe deram um pingo de educação. Como tem coragem de decorar e ainda recitar uma porcaria, um lixo desse? Isso é leitura de marginal, de bandido, de vagabundo, de cheirador de cola – ia dizendo numa só respiração, sem que a falta de ar impedisse de gritar colérica. 

- Ponha-se daqui para fora. Foooooooooraaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!! 

Zequinha passou a noite em claro, a cama encharcada de suor, temperatura rompendo os graus inventados por Farenhait. A mãe impedia o corpinho pequeno de incendiar, untando-o minuto a minuto com emplastros e compressas de toalha molhada. Mas deu seis e vinte e estava de pé, desperto ao chamado da mãe. Sete horas formava na fila para entrar em classe.  

Chegou ao educandário amuado, enclausurado em sua fortaleza indevassável, sem dizer palavra. Era como se ali não estivesse. 

Já na sala de aula, a bela Ritinha dos longos cabelos negros em tranças, foi a única que conseguiu resgatá-lo do coma profundo a que se impôs.  

- Não tem um lápis para emprestar? Acho que esqueci o meu lá em casa. – disse a pequena princesa.   

Desbravando a mochila, Zequinha encontrou um lápis e o estendeu à  colega com auréola e beleza de anjo.  

- Mas não tem ponta. 

- Eu faço – respondeu Ritinha com um olhar enigmático que Zequinha entendeu como sincero agradecimento, convite para um pacto de cumplicidade. Quis prosseguir a conversa, mas a inesperada chegada da professora Ruth Almeida foi assustadora. Com uma enorme bíblia de capa preta sob o braço exigiu autoritária: - De pé e em silêncio; não quero ouvir nem o som da respiração de vocês. 

Enquanto ainda ajeitava a camisa para dentro da bermuda, Zequinha viu a professora Ruth aproximando-se pelo vão entre as carteiras para dirigir-lhe a pergunta. 

- Qual é a sua religião garoto? 

Era o primeiro dia da Professora Ruth Almeida na escola. Fora aprovada em primeiro lugar no concurso da secretaria de educação realizado para selecionar professores de Ensino Religioso. A Assembléia Legislativa instituíra obrigatoriedade da disciplina, e loteara as quinhentas vagas disponibilizando 247 para católicos, 247 para evangélicos e as seis restantes para todas as demais religiões. Ruth era pastora e obreira da Igreja Evangélica Universal de Todos os Reinos. 

Triste e cabisbaixo, a voz embargada pelo estado febril, desmanchando-se em decepções, Zequinha respondeu meio aéreo e disperso. 

- Eu sou espírita professora. 

O garoto não soube a razão da resposta. Jamais pisara em um Centro Espírita e do espiritismo só sabia ser o credo escolhido pelo pai para professar a fé inabalável em Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao contrário, todas as quintas e domingos, era a Igreja Católica que freqüentava, acompanhando a mãe nas vigílias e orações que, após a morte do pai, tornaram-se diárias. Talvez por desejar prestar uma homenagem póstuma ao pai repetiu ser espírita sem perceber que, entre pálida e conturbada, a professora parecia entrar em convulsão. 

Ruth Almeida iniciou falando rapidamente, depois mais rápido e mais ligeiro, ininterruptamente, com a saliva escorrendo pela boca, as palavras atropelando frases e intenções, as pontuações tornando incompreensível o que dizia, as narinas arfando como um touro enfurecido, os olhos se insurgindo contra as pálpebras, a voz grave e rouca gritando ser o espiritismo coisa do demônio, do satanás, de Lúcifer príncipe das trevas e da escuridão, e que Zequinha deveria converter-se imediatamente, esquecer a dança, o teatro, a música, a TV, o futebol, a poesia, e tudo o mais que exalasse enxofre.    

Zequinha, enfraquecido pela agressividade que era incapaz de compreender e pela noite em claro, desmaiou. Foi acordar em casa abrigado pelo consolo da mãe. Com a voz trêmula e fraca conseguiu suspirar: - Mamãe, não quero mais ir pra escola. 

Na manhã  do dia seguinte, quando o despertador bateu as horas, Zequinha não queria ir à escola. Com muita paciência, Maria Santa conseguiu servir um copo de pingado com bolachas de sal, enfiá-lo uniforme adentro e despachar para o Educandário Municipal. Foi reclamando protestos sentidos.  

Amuado, sentou-se na ultima fila. Nem os reiterados convites de Ritinha para que sentasse ao seu lado, o convenceram sair do fundo profundo em que mergulhou.  

Professor Geraldo entrou na sala sem cumprimentar ou ver os alunos. Tomou o giz entre os dedos cuidando para que não sujassem mais que o necessário e escreveu o problema no quadro. Depois, sem dirigir o olhar para os alunos,  leu em voz alta e pausada.
- Richard Ford comprou para navegar em sua ilha na costa leste um Iate vermelho com um heliporto, e dois iates verdes, um com campo de futebol e outro com piscina aquecida. Quantos Iates Richard Ford comprou? 

Como a sala permanecesse em silêncio, o professor releu o problema por mais duas vezes. Quando se preparava para mais uma leitura, Zequinha mordendo os lábios, respondeu: - Três professor, três, não precisa repetir mais uma vez.  

- Finalmente – prosseguiu o professor – temos alguém aqui com inteligência. Pensei que estava em uma sala de surdos ou de jumentos. 

Zequinha não gostou da comparação porque sabia que sua bela Ritinha nada tinha de surda, e menos de jumenta. Então falou com o sangue quase à cabeça.  

- Olha professor, acho que se fizer a pergunta de um outro jeito a turma consegue responder – contemplativo divagou – Papai dizia que não existem respostas ruins e sim perguntas mal feitas. Quer ver? – e levantou-se perguntando à classe. - Gente, comprei na feira duas bananas, cinco goiabas e sete mangas. Depois um pé de moleque e um picolé. Quantas coisas eu comprei? 

A classe respondeu em uníssono, confiante: - dezesseis, quem não sabe?! 

Procurando manter a compostura, o professor foi enfático. 

- Aqui o professor sou eu, e o aluno é você garoto. Coloque-se no seu lugar que eu sei onde é o meu. Aqui não é a casa da mãe Joana, quem manda sou eu, nesta sala só tem um professor que é este que vos fala, de forma que vão aprender do meu modo, quer queiram, quer não.  

Pela manhã, Maria Santa não conseguiu levar o filho à escola. Teve que conduzi-lo ao médico que a febre ardia qual brasa incandescente. No Posto de Saúde não havia médico nem enfermeiro. O auxiliar de porteiro despachou ambos com três cartelas de comprimidos, dois xaropes e um antibiótico, aviando uma receita no verso de um invólucro de cigarro. Enquanto voltavam para casa, a mãe puxando assunto, tentava animar o filho. 

- Ta aprendendo muita coisa boa na escola filho? 

Zequinha inspirou fundo enquanto uma lágrima solitária escorria dos olhos esmaecidos: -Aprendi mamãe que a escola é igual a rua, faz a gente virar zumbi, sem vontade, sem alma e com o coração partido.  

Maria Santa silenciou sem dar importância às palavras do filho. Certamente a febre alta cozinhava o tino e os miolos do pequeno Zequinha. 
Rodoux Faugh

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

MAZOMBO

Maria Luiza sentiu um calafrio singrar a espinha até ancorar na parte posterior da cabeça. Preocupava-se quando o fenômeno se repetia reiteradamente, como durante toda a semana. Desde a noite anterior esperava aflita Joaquim, o homem de sua vida, forte, alto, inteligente e generoso o suficiente para tirá-la da vida fácil, tornando-a ainda menina, mulher completa e feliz.

Palpitações, calafrios e sobressaltos sempre foram, em sua vida, sinais de maus prenúncios. Ora anunciavam um aborrecimento iminente, ora um dente que latejaria dali a minutos, a maior parte das vezes, a tragédia da perda de alguém muito próximo e querido.

Nessas horas lembrava-se das agruras do amado. Recordou quando, tempos atrás, sobressaltos repetitivos se confirmaram como um perigoso e grave incidente. Joaquim indignado com a humilhação e o suplício que um dono impunha ao seu escravo, resolveu intervir. E por sair em defesa do negro, foi punido com a perda da tropa que lhe dava o sustento. Anos e anos de sacrifícios, mascateando entre o Rio de Janeiro e Minas, percorrendo toda aquela dispersa região, formando uma sólida rede de fregueses compradores para colocar tudo a perder por conta de sua bondade e senso de justiça.

De nada adiantava Maria Luiza chorar, bater perna, reclamar para aquele homem magro, ombros largos, longos e belos cabelos acastanhados. De nada adiantava implorar, suplicar para que se distanciasse das confusões. Joaquim era assim e pronto. Melhor resignar e conformar com a escolha daquele que considerava a justiça patrimônio inalienável da humanidade, valor extremo, acima de tudo, inclusive de sua própria vida. Por isto Maria Luíza revirou-se na cama por toda a noite sem conseguir pregar os olhos. Mal rompeu o dia e os calafrios já reverberavam suas preocupações premonitórias.

“O destino está inscrito nas estrelas e nos planetas” dava cordas ao pensamento a menina-mulher. Como se preparando para a notícia que tardava, mas que sabia, viria fatídica. Algo de muito ruim se anunciava para seu amor.

Um dos predicados que Luíza herdou da mãe foi a prestidigitação e a facilidade de - esquadrinhando os astros - ler o futuro das pessoas. Desenvolvera como ninguém a habilidade de fazer desaparecer objetos, a arte do ilusionismo. No estudo das leis da abóbada celeste especializou-se na ciência do tempo, na astrologia. Através da marcha do sol avaliava o tempo de vida que restava nos que a procuravam. E da posição das estrelas e constelações, extraia as possibilidades de materialização dos sonhos, desejos, aspirações que tocavam sussurrantes em seus ouvidos. Interpretava os sonhos e desnudava seus mistérios.

Mas como o assédio crescia incontrolavelmente, fingiu ter perdido os dons mediúnicos e espirituais, de modo que fez o tempo solitário, para dedicá-lo inteiro ao amado Joaquim, a pessoa mais importante de sua vida, razão do viver, cuja perda significaria para si dor e também morte.

Tentava se entreter com outras coisas, esquecer da aflição que a demora de Joaquim causava. Mas de sua memória só emergiam lembranças ruins, pesadelos que havia previsto, e que devido à pragmática incredulidade, o amado insistia em não observar. Por inúmeras vezes sibilou a Joaquim: “os astros orientam, não determinam. Não devemos nos manter indiferentes aos seus sinais, traz mau agouro”.

A concentração fugidia impeliu Maria Luíza à rede, atada a um gigantesco pé de ingá cuja sombra avançava sobre a cobertura da casa simples e aconchegante.

A sombra entrecortada pela brisa fresca fez avivar mais ainda a memória.

E lembrou da fama que corria daquelas paragens ao Rio de Janeiro, testemunhando Joaquim como o melhor cirurgião, boticário e tirador de dentes do mundo. Carregava sempre consigo a caixa de ferrinhos e o boticão, e os utilizava magicamente, como se manuseasse entre os dedos plumas e fios de algodão. Companhia inseparável a caixa com emplastros de ervas, águas milagrosas e drogas que preparava com ciência e esmero.

As lembranças galopavam no cérebro da doce menina-mulher, quando rompeu no horizonte Joaquim José.

Maria Luíza não soube como pulou da rede, venceu a considerável distância que os separavam e na fração do segundo, se viu sobre seu homem, com as pernas salientes enforquilhadas trançando a cintura viril.

Joaquim, como fazia sempre, cobriu-a de beijos e carícias, sussurrando ao ouvido doces palavras de saudade e paixão. E conduziu a mulher para a cama de capim macio enquanto vestia-a de carinho e afeição. Envoltos nos lençóis límpidos de aroma silvestre deixaram-se entregues ao mais avassalador e intenso prazer. A distância e o tempo mantiveram-nos afastados por dois meses. Dois intermináveis longos meses. Extasiado, Joaquim adormeceu com a cabeça sobre os abundantes seios nus da mulher que fizera sua. Independentemente das conveniências e pactos sociais, escolhera para confortar o coração Maria Luísa. Não sentia culpa ou remorso por coisa alguma. Não. Quando juntos, o tempo e todo o resto paravam em deferência ao amor que dali brotava. Na intimidade, seu coração jamais deixou um naco sequer de dúvida a respeito da mulher que o escravizara. Por isto curtia extrema fidelidade à amada, e a ninguém mais.

Maria Luísa era uma escultura extraída dos palácios gregos. De tão graciosa e formosa, parecia esculpida pelas mãos mágicas dos deuses helênicos. Boa estatura, pernas longas e torneadas, quadris insinuantemente provocantes, seios salientes, bicos empinados como perfurando o vestido de seda colante, sempre justo, uma segunda pele dando contornos elegantes e sedutores à verdadeira. O rosto perfeito, encontro harmonioso dos fortes traços do pai negro com a delicada fragilidade da mãe francesa. Lábios cheios esnobando carne e volúpia. Olhos castanhos, profundos, olhos de lince. Como brincava a mãe, era uma ninfa a quem os deuses do Olimpo permitiram, momentaneamente, incursionar pela existência temporã.

Não bastasse a beleza física, a esplendorosa perfeição recebeu como herança da mãe os ensinamentos da arte proibida do prazer sexual. Dona de casa de prostituição em Paris, a mãe Françoise faleceu vítima do empaludismo mal aportara em terras mineiras. Mas conseguiu, antes de partir, legar à filha o domínio do idioma francês, os mistérios da prestidigitação e da astrologia, e os segredos fascinantes da cópula perfeita, capaz de tornar o amor tórrido e pleno.

O que hipnotizava Joaquim não era apenas a beleza impetuosa de sua morena, tão pouco sua perspicácia, inteligência e cultura cosmopolita. Admirava, sobretudo, a capacidade de conduzi-lo a um tipo de orgasmo jamais experimentado. A diva aprimorou a técnica que aprendeu da mãe, de contrair e distender os músculos da parede vaginal. De modo que mal esperava Joaquim introduzir sem membro rijo por inteiro, e Luíza fazia as paredes da vulva trepidar sincopadamente, primeiro uma convulsão sutil, que acentuava com os movimentos, até tornar-se voluptuosamente frenética, como que asfixiando, enlouquecendo seu homem, que urrava ante o prazer mais intenso e avassalador. Ao jorrar o leite espesso no âmago da mulher amada, Joaquim era um lobo, e uivava transbordando felicidade e satisfação.

Com sua princesa sentia-se outro, feliz, encorajado para enfrentar os desafios, mesmo os mais difíceis. Foi com Maria Luíza que deu asas ao pensamento, e era ela quem auxiliava-o a traduzir, do francês, a coletânea de leis americanas. É bem verdade que a fada-mulher reprimia-o insistentemente, aborrecia afirmando estar bolinando o perigo mais temido, o que lidava com o confronto das idéias. Alertava-o sobre os riscos da prisão, da forca e do desterro. Mas fazia desobrigando-se de um encargo de consciência. Estava mais que convencida que o amado fazia o já tardava em ser feito.

Ao acordar leve e disposta, Luíza novamente saltou sobre Joaquim, fazendo-o come-la por inteira, febrilmente. Primeiro caiu de boca sobre seu cacete duro e grosso, chupando-o intermitentemente, liquidifiqueando com a língua a cabeça latejante. Depois colocou-se de quatro, empinando a bunda e permitindo que seu ânus sedoso abrigasse a deliciosa dor que remia. E quando o éden multicolorido se anunciava com trompetes e flautas doce, virou-se bruscamente, escancarou as pernas e entregou a buceta sequiosa, púrpura, encharcada de prazer e júbilo. Subiram e desceram um milhão de vezes o monte Everest. Depois se deixaram, fartos, na cama. Até altas horas da manhã. Ainda deitados, num rompante, se queixou à mulher:

- Não passarei de alferes.

Suspirou profundo antes de continuar.

- Cabo, furriel, sargento. Caso permaneça no regimento, morrerei alferes.

Deu mais uma longa pausa de onde extraiu forças para continuar o assunto que o atormentava.

- Já fui preterido quatro vezes na promoção. Vou pedir licença e mexer com mineração.

Voz grave, Luiza respondeu com costumeira sabedoria.

- Sempre te disse que eles jamais aceitariam mazombo. Você sabe, pra que iludir? Parece que gosta de sofrer! – respondeu Maria Luiza quase irritada, para completar: - Larga mão da mineração que não vai dar certo. E esqueça esse negócio de canalizar o Andaraí e o Maracanã.

Joaquim deu de ombros, incomodado com as premonições da mulher. “Como diachos foi saber de suas intenções com a engenharia sanitária?”pensou purgando inquietação.

Maria Luíza para reanimá-lo pegou o Recueil des loix constitutives des colonies angloises confederées sous la dénomination d`États Unis de l`Àmérique septentrionale, publicação francesa presenteada por Álvares Maciel, e passou a traduzi-lo.

Joaquim José, pura concentração, encantava-se com as leis americanas e com as idéias de Jefferson. Escutava a voz encantadora da mulher traduzindo os princípios libertários que sonhava vigorar nesta terra continental de opressão e tirania.

Continuaram então na cama por três horas ininterruptas, estudando e discutindo o livro francês, até que se cansaram, e novamente tornaram-se sexo.

Quando teve orgasmo múltiplo e se virava tirando seu corpo de sobre o de Joaquim, Maria Luíza teve uma visão terrífica. Mas nada falou apesar da insistência do amado. Só no dia seguinte, quando despedia o amado, se permitiu dizer:

- Não entendo. Recebo sinais que você deve manter distância de Joaquim.

- Manter distância de mim mesmo? – caçoou Joaquim José, procurando desconversar.

- É isto que não compreendo. O mal dos males ronda seu espírito, mas estou confusa. Vejo um espírito maligno à sua volta de nome Joaquim ... mas não é você ... é muito estranho, estou confusa..

- Já falei que você deve parar com essas bobagens. Te deixam louca. E a mim também.

- Não, escuta. Falo sério. Vejo um espírito ruim, vejo coisas ruins, vejo uma corda, uma forca, um corpo retalhado ... quatro partes. Um demônio que tem o seu nome, Joaquim....

Enquanto percorria em procissão as ruas estreitadas da cidade, Joaquim José lembrava das palavras da mulher amada, das premonições, todas verdadeiras e confirmadas com o compasso do sol, as enfermidades, os acontecimentos, a perda da tropa, o fiasco na mineração, as cirurgias, a tiração de dentes aliviando a dor de tantos, o desdém do vice-rei esnobando seus projetos de canalizar os rios e melhorar o abastecimento de água da cidade, a mãe que perdeu aos 9 anos e o pai aos 15, o padrinho Leitão que o fizera mestre na lida com o boticão, a derrama ...

Quando chegou ao Campo da Lampadosa e subiu ao cadafalso, Joaquim José já havia passado toda a vida e só tinha pensamentos para Maria Luíza.

Por isto Frei Raimundo de Penaforte não entendeu o sorriso sutil que Joaquim permitiu esvair dos lábios finos, quando a corda de aço cingiu o pescoço, libertando-o dos três anos de suplício.

“Tinha o coração bem formado” conseguiu concluir em pensamentos o frei antes de dar por concluída a extrema-unção.

O nevoeiro denso e cerrado fazia indevassável a boca da noite. Com muita dificuldade, chorando em bicas, Maria Luíza retirou a cabeça de Joaquim José exposta na ponta mais alta do poste iluminado. Cobriu-a delicadamente com o lenço de ceda branca e foi enterrá-la à sombra do velho ingá, a árvore frondosa que abrigara sua aventura revolucionária e amorosa.

A pequena cova envolta por terra revolvida, abrigava agora a semente que tornaria a vida, dali a instantes, diferente, repleta de cravos vermelhos, rosas e margaridas amarelas radiantes de sol e luz.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Nossa Senhora e seu dia de cão

Leonardo da Vinci - Madonna Litta - 1490-91

Nossa Senhora e seu dia de cão

Quando o pastor, novo administrador do Serviço Municipal de Saúde, adentrou o hospital público mantido pela prefeitura e se deparou com a enorme imagem de Nossa Senhora Aparecida, exposta num pedestal de mármore branco, não conseguiu conter a ira e avançou violentamente sobre a santa, numa fúria demente, aplicando uma saraivada de murros, tapas e cotoveladas, fazendo-a minúscula, como que encolhida sequiosa por algum tipo de defesa ou proteção. Ao tempo em que espancava, o gestor protestante gritava aleives, palavras impronunciáveis, hediondas heresias e a Senhora Mãe de Deus restava prostrada no chão, feita em fragmentos.

O gestor estrilava obrigando o sangue rajar convulsivamente, ameaçando romper as paredes da jugular. Bramia sobre o ato pecaminoso de cultuar imagens, vociferando os ensinamentos bíblicos que proíbem tais disparates. Atordoava os ouvidos denunciando a frontal desobediência às leis de Deus, tão detalhadamente expressas no livro dos livros, no compêndio divino. Apontava o fogo do inferno como destino dos infiéis que adoravam imagens, enquanto pulverizava o ar com os minúsculos pedaços a que reduziu a santa, como que certificando que o contencioso não passava de barro amassado e cozido a fogo brando, preenchido por vento ordinário.

A cada rompante destilava ira e ódio. E asseverava a inconstitucionalidade dado que, sendo o estado brasileiro laico, a promiscuidade verificada entre religião e coisa pública estava vedada.

Mas se à oportunidade, providencialmente, propagava o caráter laico do estado nacional, convenientemente permitiu-se esquecer que, na semana anterior, orientou a bancada de vereadores evangélica a aprovar projeto de lei, obrigando fosse a bíblia disposta sobre todas as mesas das repartições públicas e das escolas mantidas pela municipalidade.

Tanta bulha fez o administrador evangélico que médicos, enfermeiros e pacientes, pasmos com a sandice em curso, correram com o que restou da imaculada santa.

Pastor Nazareno Gustavo inspirava medo. No ano anterior, após ter catequizado os servidores lotados na Delegacia de Polícia e na Guarda Municipal, organizou sua milícia particular. Mantinha sob férreo comando um disciplinado e bem treinado efetivo de dois mil e quinhentos homens, mobilizados para o combate militar.

Não se sabe as razões, mas fixou na mente a ressurreição das Cruzadas, guerra em que se degladiaram cristãos e muçulmanos e que se estendeu de 1.095 a 1.270. Traçou então a meta obstinada e extemporânea: reiniciada a guerra, iria à desforra invertendo o resultando da contenda, conduzindo finalmente os cristãos à vitória.

Durante boa parte da vida, estudou as expedições armadas medievais.

Decorou o discurso do Papa Urbano II, quando no Conselho de Clermont pregou a necessidade de libertar a Terra Santa dos turcos seljúcidas.

Como quisesse tornar o passado presente, reproduziu a vestimenta dos guerreiros cristãos medievais, distribuindo aos seus cruzados uma indumentária que ostentava no peito enorme cruz, além de armadura completa, espada, lança, escudo, bandeiras e estandartes, complementada por uma parafernália de adereços que ornamentavam os cavalos.

A primeira ação guerreira que encetou foi a invasão do Terreiro de Umbanda Pai Salomão. Planejou-a em minúcias para que nada escapasse ao controle. Uma guerra contra os negros seria bom teste para verificar o nível de treinamento das colunas, pois a guerra verdadeira para a qual se preparava seria contra os muçulmanos, que julgava mais perigosos em função do fundamentalismo e da devoção sem limites a Maomé.

O Terreiro de Umbanda Pai Salomão era um patrimônio cultural da humanidade, reconhecido pela ONU numa solenidade em que estiveram presentes autoridades de todo o mundo. A comunidade que abrigava o centro espírita remontava ao período da escravidão. Originou-se de um antigo quilombo implacavelmente perseguido pelos capitães de mato, mas que heroicamente resistiu graças aos zumbidos que a capoeira de Angola emprestava ao mover das pernas negras, longas e rijas dos kalungas.

Aplicar uma humilhante derrota àqueles remanescentes de escravos seria um ato de repercussão mundial, que daria publicidade à causa de arregimentar cristãos para, numa cruzada revitalizada, dar solução final ao problema dos negros, mulheres, homossexuais, minorias, defensores da ética na política e, sobretudo, fundamentalistas islâmicos.

Insistia com suas ovelhas da necessidade da nova investida ser blindada, de sorte a não ocorrer imprevistos. Relembrou o retumbante fracasso da ultima incursão cruzada, quanto investiram sobre o Parque Vaca Brava de Goiânia, tentando impedir a exposição Orixás da Bahia, mostra de belíssimas esculturas de Tatti Moreno.

Escolheu então o dia 15 de julho para invadir o terreiro. Propositalmente o mesmo dia e mês que, em 1.099, a cruzada comandada por Godofredo de Bouillon, após sitiar Jerusalém, conseguiu adentrar a cidade portal de todos os credos. Passou a prestar uma obsequiosa veneração a Bouillon após ler nos documentos históricos sua recusa em ser coroado rei de Jerusalém para “não por à cabeça uma coroa de ouro no mesmo lugar em que Jesus Cristo, Rei dos Reis, fora coroado de espinhos”.

Convenientemente, não se recordara o pastor da parte da história medieval registrando que - apesar do desenvolvimento verificado nas áreas comercial, cultural e militar - as cruzadas foram um fracasso, pois não atingiram o objetivo principal que era libertar Jerusalém.

O pastor e seu exército de milicianos aguardaram com impaciência a chegada do dia escolhido para perpetrar o mal.

O terreiro estava repleto de pessoas quando se viu devassado por um exército de encapuzados trajando armaduras metálicas, montando ostensivos manga larga marchadores, portando nas mãos espada, lanças, estandartes e tochas incandescentes.

Os gritos de guerra logo identificaram os milicianos como cruzados comandados pelo Pastor Nazareno Gustavo. Intermediava gritos de guerra e palavras de ordem com frenéticas orações apocalípticas. Enquanto varriam o terreiro com chamas incandescentes rugiam jargões racistas: que os negros se constituíam raça impura, descuido de Deus; que seriam exterminados; que a solução final intentada por Hitler contra os judeus, seria agora alcançada com as Novas Cruzadas; e que a hora do acerto de contas com os infiéis corruptores do mundo havia chegado.

Com destemperado fervor, excomungava as nacionalidades árabes, afirmando que se tornaram apêndices da Al Qaeda, pólos irradiadores do terrorismo internacional, fonte originária do império do mal. E que o demônio descera à terra se incorporando nas pessoas de Osama bin Laden e seu braço direito Khalid Shaikh Mohamed, que sonhavam dizimar a civilização cristã ocidental.

Para instruir seus cruzados na arte da guerra, estudou todos os movimentos terroristas, de direita e de esquerda. Começou pelas técnicas de assalto da Ku-klux-klan, organização aristocrática norte-americana, escravocrata, fundada em 1867. Admirava-se com a trajetória da organização racista que rompia os séculos queimando negros, refugos do demônio. Mas se encantou de forma especial revisitando a Europa de Mussoline, Hitler, Salazar e Franco. No Brasil cultuou Plínio Salgado.

Mas se deixou impressionar pela inteligência de Golberi do Couto e Silva, general capaz de engendrar um partido popular de intelectuais e trabalhadores que escantearia, em definitivo, os comunistas da vida nacional. O militar de estratégia fina e apurada fomentou a criação, com décadas de antecedência, do partido político de esquerda que, no poder, beatificaria o FMI e entregaria o Banco Central ao presidente do maior banco privado internacional, lançando à lata de lixo os valores e princípios que até o instante da posse, impetuosamente defendeu.

O pastor chegava ao delírio com a política externa brasileira. Em busca de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, o governo vendia a alma ao cão sanguinolento: enquanto na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas liderava a derrubada de uma resolução condenando a China pelos hediondos crimes contra os direitos humanos, no plano mundial fingia desconhecer a rede planetária de tortura criada pelos EEUU, ancorada em Guantânamo, Abu Ghraib e em porta-aviões estacionados em águas internacionais.

Na semana seguinte, esquecendo-se das lições que proferia sobre o estado laico distante das influências religiosas, demitiu sem pagar qualquer indenização, os servidores não evangélicos lotados na instituição de saúde municipal.

Dois dias depois, passado o impacto das demissões sem justa causa, transferiu para hospitais de municípios distantes, todos os enfermos que professavam outras religiões, disponibilizando senhas e vagas para internações apenas para os que professassem abertamente a fé originada por Martinho Lutero.

Outro passo que julgou importante dar: desmantelar a UTI e a enfermaria do Hospital. A Unidade de Terapia Intensiva era a única existente na região mais pobre do estado. Abrigava, sobretudo, pobres, que acorriam de todos os lugares, mesmo de estados longínquos como Maranhão e Pará.

Construiu no espaço desmobilizado o salão de orações Templo Evangélico Deus é Poder.

Em prosseguimento enumerou as doenças proibidas, aquelas que os médicos do Hospital Público Municipal Nossa Senhora de Aparecida - agora denominado Hospital Público Municipal Evangélico Martinho Lutero - estavam proibidos de lidar, dentre elas, DST e AID`s. Apregoava serem, não manifestações de doenças e enfermidades, e sim estigmas de Lúcifer, o príncipe das trevas.

No dia em que planejou desmobilizar todo o hospital para consolidar o Templo Evangélico, dia em que investiriam definitivamente sobre os pretos macumbeiros do terreiro espírita, reiniciando a guerra santa contra negros e fundamentalistas islâmicos, Pastor Nazareno Gustavo caiu em sono profundo. Adormeceu sedado pela mãe, a bondosa e justa Maria Evangelista.

A velha senhora dobrava ao peso da idade. E sofria com o desequilíbrio do filho. Desde que dera a luz o filho único, chorava escondida pelos cantos da casa. Na primeira vez que amamentou, mirou fundo nos olhos do recém-nascido, e viu a face esquálida da solidão, da angústia, do terror, do maligno. Desde a infância foi acompanhando, resignada, a demência progressiva do filho. Aos três anos o garoto já sacrificava cães, gatos e pequenos animais, estourando-lhes o tórax simplesmente para ver o coração pulsar, quando mergulhava em frenesi só interrompido ante o suspiro final dos agonizantes bichinhos. Cinco anos incompletos, hipnotizava cobras e serpentes. Aos quinze, foi impedido pela mãe de sacrificar sete crianças órfãs.

E assim foi, maldade após maldade, até que Maria Evangelista atinou que deveria consertar o estrago que causara ao mundo quando deu luz ao filho Nazareno.

Primeiro misturou à água do filho uma dose cavalar de barbitúrico. Depois afiou demoradamente a faca pontiaguda que utilizava para escalpelar porco.

Quando se viu pronta, tomou com passos firmes a direção do quarto onde seu menino dormia desmaiado. Apalpou varias vezes o pescoço do filho – como que acariciando - até que encontrou saliente, a veia jugular. Com o lado da faca bateu cinco vezes sobre a artéria. Exatas cinco vezes. Repetia o gesto dominical da morte do frango, preparado invariavelmente ao molho pardo, como gostava de saborear Nazareno.

Quando a veia agigantada se ofereceu, correu a faca num gesto mecânico, repetido por décadas, coligindo o sangue que jorrava do pescoço do filho num velho garrafão de vinho barato.

Então nada mais fez, senão abrir um sorriso largo, de paz, como jamais fizera em toda a vida de dor e sofrimento. Tivera que esperar a velhice para, enfim, encontrar o mel da felicidade.

Rodoux Faugh