terça-feira, 22 de julho de 2014

“Michelle” ou "A bomba F”


 Sempre me chamaram dengosa, manhosa, mas naquele dia me sentia de fato com um saco de preguiça pendurado nas costas. Na realidade era puro arroubo e êxtase, não cabia de fascínio, gozo e contentamento. É que jamais, em tempo algum, havia estado em um veículo presidencial. Não que eu fosse uma cadela qualquer, uma reles vira-latas, dessas que se encontram aos mil nos becos, esquinas, grotas, invasões e favelas. Nunca fui pouca coisa. Já havia experimentado todos os tipos de automóveis, do pau de arara, dos mais simples modelos de carro popular aos luxuosos blindados contra pobreza e bandidagem. Já curti soneca em automóveis particulares, sindicais, partidários e até – quer saber? - nos de uso exclusivo, restrito da Câmara Federal. Mas andar em carro presidencial, objeto de desejo de tantos, jamais poderia imaginar esse prazer me amaciando.

E não é que o destino achou por bem sorrir pros meus lados oferecendo um tipo de privilégio reservado a poucos iluminados?

Até pouco tempo atrás cheguei a imaginar que papai estivesse acometido de algum tipo estranho de insanidade, algo que beirasse a aleivosia, a demência ensandecida, pois que acalentava o sonho, de a qualquer custo, fazer morada no Palácio do Planalto. Tantas idas e vindas, figas e mandingas, tantas pequenas vitórias e monumentais reveses, três derrotas sucessivas, promessas para todos os gostos e fregueses, que cheguei a qualificar sua obstinação como algo tangente ao profano, ao obsceno, impudico, ou ao jucundo e desvairado.

Mas naquele dia, enquanto saltava para o banco do carro presidencial, ia percebendo a grata satisfação do engano. Feliz e grato equívoco embalado por uma realidade que entoava singelos cânticos angelicais, como se num sonho povoado por fadas madrinhas e querubins. E a prova ia me certificando eu própria, presencialmente, desfrutando o privilégio de trafegar num veículo intangível até mesmo para as mais altas autoridades da república; o que falar então para os pobres e medíocres mortais - fosse gente, fosse cadela - como eu?

Em minha estreia como passageira do seletíssimo clube, não desfrutava do esplendor do Lincoln conversível e nem da elegância imponente e aristocrática do Rolls Royce presente da rainha mãe. Ainda não era a hora. Mas pressentia, era uma questão de tempo. Apenas uma questão de tempo e nada mais. Logo estaria senhora de tudo e de todos. Por enquanto era simplesmente uma Kombi, um utilitário bosta-rala que fazia às vezes de carruagem presidencial. Um utilitário por demais comum, insípido e inodoro para compor aquele cenário mágico de filme norte-americano. Mas o que de fato importava era que o veículo – independente de marca, modelo e ano – integrava a frota da Presidência da República, com brasão, inscrições oficiais e tudo o mais que a exclusividade assegurava. Sangue puro. Nenhuma relevância, portanto, o fato de estar sendo conduzida num furgão dos mais baratos dentre os disponíveis no mercado. O fundamentalmente importante e de destaque era que eu estava ali, de carne e osso, com todos os pelos escovados, estrelinha de fita vermelha no pescoço, sendo conduzida pela carruagem presidencial. Achei por bem me submeter a uma bateria de beliscões e pequenos tabefes, provando a mim mesma que a realidade estava à prumo e que de forma alguma a deixaria escapar. Sim, tinha pleno domínio de minhas faculdades mentais, gozava de minha normalidade canina, meu juízo não me havia abandonado. Vivia uma realidade de sultão, não um sonho efêmero, passageiro. Sorvia uma realidade só permitida aos deuses e seus mensageiros, reis, xeiques, imperadores, presidentes, proprietários de megacorporações transnacionais.

Enquanto o veículo deslizava pelo tapete negro da Esplanada dos Ministérios, pela janela entreaberta, me deslumbrava com a paisagem onírica, os edifícios perfilados como num cortejo militar, tudo ali soando pompa e circunstância, amplos espaços ajardinados, o horizonte a perder de vista, um latifúndio de gramíneas verdes, um paraíso capaz de causar inveja ao Olimpo, um Éden restrito aos cães de luxo, aos que, como eu, haviam galgado os píncaros da glória, os mais elevados extratos da pirâmide social. Tudo era grandeza. Nada que lembrasse a frugalidade da velha e popularesca São Bernardo.

Entendi então o deslumbramento de papai e mamãe, que não perdiam oportunidade de falar do Brasil do amanhã, do Brasil grande, do Brasil gigante, do Brasil que dominaria o cone sul, e depois o continente americano e depois o mundo civilizado, numa vitoriosa cruzada contra a fome e a miséria, contra a injustiça e a globalização. Agora compreendia papai quando, de manhãzinha, enquanto se barbeava frente ao espelho, conversava animadamente com Dom Sebastião.

E neste ponto, apenas neste ponto eu me permitia discordar de meus amos queridos. O país já era um gigante. Sim, já era. Estava testemunhando no meu dia a dia, inclusive naquele passeio matinal. A capital em tudo já se assemelhava à Ilha da Fantasia, o seriado que reunia toda a família na frente do aparelho de TV. Se tudo já era desenvolvimento, fartura e riqueza, então porque teimava o patrão em se meter em assuntos tão banais e triviais como a fome e a miséria? Se para nós, os Silvas, já constituía enfadonha normalidade a mesa farta, repleta das mais raras, saborosas e delicadas especiarias, compartilhadas com os mais caros pratos escandinavos, com os destilados e vinhos mais finos e reservados, então porque diabos se meter em assunto tão piegas, fútil e vulgar? Como pessoas como eles que comiam em louças de porcelana da era Ming, utilizando talheres esculpidos para a realeza sueca se deixavam rebaixar para lidar com assuntos tão mesquinhos e ordinários?

Jamais poderia compreender o que sempre considerei uma contradição injustificável em papai. Enquanto eu saltitava nas festanças e rega-bofes palacianos movidos a whisky 106 anos, escutava ora aqui ora ali, de forma dispersa e desconexa, frases soltas mas inteligíveis, em que os assessores afirmavam que o discurso da fome se tratava de peça publicitária, estratégia para ganhar a simpatia internacional. Tanto que – nisso agucei a escuta prestando bastante atenção – papai sempre que lá fora criticava os países ricos, de volta ao país, dava sempre um jeitinho de fazer mimos e agrados, aumentando a dinheirama para o FMI, cujos diretores chama carinhosamente de companheiros. Mas isto sempre foi assunto sério demais, coisa que aborrece, gera discussões intermináveis, assuntos reservados aos superiores humanos, não aos cães e cadelas, ainda que de raça apurada e pedigree certificado como o meu. Se isso confortava papai e seus amigos, que continuassem então com aqueles assuntos tolos e insossos, aquele economês que nem russo era capaz de entender, desde que naturalmente não esquecessem de assegurar minha provisão de caviar, lagosta, salmão defumado, e do legítimo bacalhau norueguês. Para mim, o que importa, o que interessa mesmo, é curtir a vida nesse cenário paradisíaco, neste país onde tudo é tal e qual Estocolmo. O que haveria melhor do que frequentar as festanças no Itamaraty, nas mansões cinematográficas do Paranoá, cerimônias tão sofisticadas quanto abastadas? O que poderia haver de melhor que compartilhar o convívio de uma sociedade maiúscula, tão soberba e majestosa, gente rica, famílias poderosas e bem resolvidas, talhadas na fina etiqueta, saudáveis, charmosas, belas e elegantes, estrelas egressas de uma grande produção de Hollywood.

A Kombi circulava o Congresso Nacional e eu ia me deslumbrando com as suaves linhas arquitetônicas do conjunto de edifícios, pura arte, pura arrojo, pura criação, só possível aos brasileiros desta terra da promissão. O espelho d’água refletindo o azul celeste, compondo uma paisagem luxuriante, provocante, sedutora, curiosamente tentadora. Aquela peça de primor artístico bem ali, exposta, disponível, ao alcance de todos, era uma prova irrefutável de que já perfilávamos no rol dos primeiríssimos do mundo desenvolvido. É bem verdade que não pude deixar de perceber, na rampa do Congresso, o movimento compacto da massa disforme que protestava vigorosamente agitando cartazes, faixas e bandeiras. Pelas inscrições e palavras de ordem identifiquei aposentados que clamavam contra a taxação dos inativos, estudantes que denunciavam o Universidade para Todos como uma forma capciosa de transferir dinheiro público para as instituições privadas. Identifiquei também procuradores e funcionários públicos inconformados com a lei da mordaça, intelectuais e jornalistas indignados com o conselho que resgataria a malfadada censura, artistas coléricos contra o dirigismo cultural imposto pela lei do audiovisual, trabalhadores enfurecidos contra os sucessivos aumentos do superávit primário com a exclusiva finalidade de entregar nossas divisas ao FMI, cientistas envergonhados com a proibição de enveredar pela pesquisa genética, mães exigindo que o governo cumprisse o dispositivo legal determinando que os filhos permanecessem na escola para acessar a ajuda de custo, esquálidos esfomeados perguntando - passado tanto tempo do lançamento - quando seriam beneficiados pelo programa Fome Zero, empresários esbravejando contra os juros estratosféricos, trabalhadores rurais incrédulos com a corrupção no programa de reforma agrária. Sim, bastou uma mirada para me convencer que ali estavam somente os invejosos e descontentes, uma escória formada por despeitados, meliantes sequiosos para ver o país fracassar. Eu estava convicta. Ali protestavam os incorrigíveis defensores do “quanto pior melhor”, os pregadores da desgraça alheia, os adeptos do “há governo sou contra”. Como às gargalhadas, costumava repetir o primeiro auxiliar de papai, “eram discípulos da gestapo”, venais traidores da pátria. Não, não, eu não estou exagerando. Estou absolutamente convencida de que os que atacam e criticam um homem tão correto e justo como papai, estão na realidade querendo levar o país à bancarrota.

Depois da suntuosidade das torres do Congresso, envoltas em pratos esplendorosamente arranjados, minha visão foi atraída pelo equilíbrio e harmonia do Ministério das Relações Exteriores. Um instante depois e já estava embasbacada pelas curvas de concreto que abraçavam a Catedral, para lá em cima, bem pertinho do céu, se abrir como mãos ansiosas pelas graças divinas.

Num relance meus olhos escureceram, chamuscados pelos flashes de dezenas de máquinas fotográficas. Inquietei por uns breves segundos. Balancei o rabo com certo nervosismo. Minhas memórias foram tomadas de assalto pelas lembranças de um passado não tão distante, quando do grotesco incidente que vitimou minha priminha. Minha priminha filha do Antônio Rogério Magri, o do Trabalho. A coitada foi flagrada enquanto era conduzida num carro oficial à clínica veterinária. Teve a foto estampada nas primeiras páginas dos grandes jornais. Até mesmo papai e os membros de seu partido fizeram um escarcéu sem tamanho, dando a entender que o mundo iria desabar, atingido por uma hecatombe nuclear. Jamais pude entender as razões de tamanho alvoroço. Como meu patrãozinho foi capaz de destilar veneno num ato tão corriqueiro como a condução da priminha ao veterinário? Afinal não dizem que somos como eles, como gente, como pessoas? Não podemos por acaso adoecer, precisar de atendimento médico? Não temos o direito de frequentar o cabeleireiro para a tosa, de frequentar a manicure, a nutricionista, a academia de ginástica, o hotel-fazenda? Que raio de hipocrisia é essa? Desta vez, ao engrossar o coro dos críticos ao ato do Magri, papaizinho também se mostrou pequeno e provinciano, subalterno e sub do sub. Esta é uma pequena mágoa que guardo no coração contra meu donozinho. Mas logo reduzi a tensão dos nervos quando me dei conta que os flashes eram de turistas e não de repórteres fotográficos. Ademais, ainda que fossem jornalistas, papai já os havia chamado de covardes, além de criticar as perguntas frouxas e requentadas que sempre fazem. “Dá próxima vez espero que sejam mais duros comigo!” ralhou papai tão logo terminou a coletiva aos repórteres das emissoras de rádio.

-Algum problema, cachorrinha Michele? Perguntou o chofer preocupado com minha súbita quietude. Dei dois latidos para afugentar os pensamentos mundanos e me fixei na admiração ao Brasil poderoso, ao Brasil potência, ao Brasil destemido e orgulhoso de sua cultura, ao Brasil da cabeça do patrãozinho.

Repentinamente, num solavanco, senti a Kombi adentrar um território inóspito, adverso, pantanoso.

-Aqui é a Rodoviária da capital – se apressou a dizer meu chofer engravatado. Reagi de sem pulo, com meu rosnar característico dos momentos de pavor e aflição. Rodoviária? Rodoviária? Como Rodoviária? Aquilo ali era um outro país. Claro! Como não?! Naquele rincão nada lembrava a Suécia de patrãozinho. Ao contrário. A Kombi com certeza rompeu a relação espaço-tempo, como numa ficção científica, e trafegava agora por um país desconhecido, atrasado, de miseráveis, de pessoas feias, horríveis, sujas, despenteadas, franzinas, esmolando, suplicando, vendendo bugigangas. Ali estavam mendigos, crianças raquíticas que se apossavam das ruas, prostitutas desdentadas, malandros maltrapilhos, trabalhadores assalariados, todos com os olhos sem brilho, o corpo vergado de cansaço e vergonha, as faces embrutecidas pela desesperança e desilusão.

Que diabos estava acontecendo? No quintal do palácio, nas barbas magistralmente aparadas de papai se instalou um exército de invasores, um exército de inimigos, vindos com certeza de alguma republiqueta africana. Bem que rosnei, lati, insistindo que papai não incursionasse pela África. Aí estava o resultado da teimosia, da persistente teimosia herdada nas hostes sindicais. Os africanos refugiados, famintos e aidéticos, cometeram a ousadia de invadir o Brasil. E já estavam acampados à porta do palácio, na certa preparando o cerco final. Teria que correr, me apressar, avisar papai, alertar o alto comando militar antes que fosse tarde demais. Comecei a latir e rosnar em desespero até que o condutor, mergulhado em observação introspectiva, desconfiou e tomou o caminho de volta ao Planalto. Entrei correndo, saltando degraus e o mobiliário, latindo esbaforidamente, utilizando todos os quadrantes dos pulmões, mas quanto mais latia mais papai e mamãe sorriam, se divertiam, imaginando que se tratava de mais uma de minhas brincadeiras. Tentava fazer com que meus latidos soassem: “os africanos estão invadindo o Brasil, já estão bem ali na rodoviária”, mas qual?! Quanto mais tentava, quanto mais me esforçava, quanto mais me contorcia, mais se divertiam. Mamãe chegou a pegar a filmadora para me filmar. Foi uma cena ridícula, digna de um bang-bang chinês.

Quando me senti sem forças para latir, alguém que não lembro me tomou no colo. Fez na minha cabeça um cafuné gostoso que caí em sono profundo. Besteira!, resignei. Se eles estavam tão tranquilos era porque tudo estava bem. Melhor dormir e amanhã retomar a vidinha palaciana de sempre. Que se danasse o exército inimigo. Seria aniquilado, reduzido a pó sem que papai precisasse disparar um único tiro, sem que sequer precisasse sujar as mãos. Papai despacharia para eliminá-lo sua arma mais terrível, a bomba F, a mesma que estava dizimando a gente brasileira, a bomba que destilava ignorância e indigência intelectual. Pois não é isso que se faz com os exércitos inimigos? Melhor dormir o sono das cadelas imperatrizes.

Rodux Faugh

terça-feira, 15 de julho de 2014

As camas de cimento nu

Os nove anos de idade do pequeno Mohammad não permitiram que ele pudesse entender o que estava por ali ocorrendo. Foi com o tio rezar na mesquita principal quando, abruptamente, explosões ensurdecedoras irromperam por todos os lados, o silvar das balas e das bombas estourando os ouvidos, os vitrais espedaçando em diminutos cacos, a poeira se tornando densa como a rocha, obliterando a visão, corpos desfigurados, triturados com a ferragem das vigas e dos pilares, as rijas paredes reduzidas a um amontoado de entulho e lixo. Se existisse o inferno, ali estava ele, ao vivo e a cores.

O frágil pirralho já havia perdido o pai Ibrahim no presídio de Abu Graib, acometido por hemorragia interna após ser estuprado e seviciado com garrafa de água e cano de metralhadora. Logo depois, uma patrulha do exército inglês invadiu sua casa e, confundindo o guarda chuva da mãe com uma bazuca, reduziram os rostos da mãe e da irmã a uma peneira crivada de balas.

Para não vagar a esmo pelas ruas violentas da cidade, o tio foi buscá-lo em casa, sequioso por oferecer ao sobrinho uma oportunidade qualquer, alguma que fosse menos pior do que todas que emergiam, se bem que, àquela altura dos acontecimentos, desconfiava impossível existir.

Agora, apenas uma semana após ter perdido os pais, tinha no colo o corpo liquidificado do tio, da cintura para baixo volatilizado por um míssil lançado por um helicóptero AH-64 Cobra.

E foi dessa forma que os soldados o encontraram, cabeça baixa, desmanchando em prantos sobre a metade intacta do corpo do tio, sussurrando o nome da irmã e dos pais, pressionando junto ao peito um caminhãozinho de plástico reciclado sem as rodas.

O comandante John Dowoud quis enxergar no mirrado garoto um menino-bomba, um bebê-terrorista de alta periculosidade, um demo travestido de anjo treinado nos campos de Bin Laden, mas a fragilidade inocente de Mohammad pulverizava as suposições delirantes do coronel norte-americano. Infelizmente, teve que se dobrar à realidade. Estava mesmo diante de uma criança, uma simples criança, uma frágil criança. O tamanho, o soluço inconfundível, o choro contido, o carrinho de plástico carente de rodas. “Raios, não recebi treinamento para isso”, rosnou o coronel antes de, se valendo do auxílio de três de seus homens, tomar o menino à força e enfiá-lo num saco improvisado. Sem mais delongas, decidido, partiu com seu comboio para internar o maltrapilho moleque no Centro Correcional Wali al-Khafaji.

Ao adentrar o Centro Correcional, Mohammad foi conduzido a um salão onde teve a cabeça raspada e o corpo banhado por uma mistura de pó branco. Minuciosamente vasculharam o interior de sua boca, narinas, ouvidos, ânus e até o canal de sua uretra, para depois escorre-lo por dentro de um enorme macacão alaranjado, em cuja lapela encontrava-se inscrito em diminutas letras a palavra Guantánamo.

Em Al-Khafaji estavam encarceradas 70 outras crianças, além de homens e mulheres, de todas as idades e condições sociais, empilhados uns sobre os outros, muitas vezes mantidos nus, tratados como ratos e peçonhas de esgoto.

No primeiro dia de prisioneiro fichado, enquanto se encontrava no solar, viu aproximar o perneta Ahmad, trazendo nas mãos duas bolinhas de gude. Sem se apresentar, o estranho foi direto ao assunto:

- Vamos jogar bolinha de gude?

Mohammad pegou uma das pelotas e iniciaram o jogo em que um perseguia o outro, tendo na bolinha adversária o alvo a ser atingido. A bolota de Mohammad foi batizada de Míssil Teleguiado com Sensor Infravermelho Tomahawk , e Ahmad deu à sua arma de brinquedo o nome de Caça F18 Super Hornet.

Quando seu supersônico F18 foi atingido pelo Tomahawk, Ahmad irrompeu numa de crise de choro e saiu em disparada para se esconder em sua sela, debaixo do beliche.

- Não se preocupe, Ahmad é sempre assim – falou Abi, um outro garoto que observava à distância.

Percebendo a aflição de Mohammad, Abi deu prosseguimento à conversa.

- Ahmad, o pai e a irmã foram perseguidos durante três dias e três noites por soldados de um pelotão italiano. Só ele se salvou. Sempre que joga bolinhas de gude recorda do fuzilamento e cai em desespero.

Como o interlocutor permanecesse compenetrado na narrativa, Abi sentiu-se estimulado a prosseguir:

- O pior de tudo é que não consegue largar as pelotas de vidro, não quer saber de brincar de outra coisa.

- É muito triste tudo isso – se limitou a responder Mohammad.

- Muito horrível esse macacão – atravessou Abi, preocupado em não dar fim ao diálogo.

- Esquisito, respondeu circunspecto o novato.

Dando à entonação uma gravidade superior, de quem se sente experimentado e senhor da situação, Abi prosseguiu.

- Os americanos dizem que, com agente vestido assim, fica fácil capturar em caso de fuga.

Percebendo no olhar de Mohammad a luminescência dos suicidas, Abi se esforçava para manter a conversa animada e interessante:

- Já reparou na inscrição? Aí na lapela do macacão. Guantánamo. Dizem que é uma ilha cheia de mulheres peladas, e que se nos comportarmos, passaremos algumas semanas lá. Mas quer saber? Eu não ligo. Penso que é mentira. Não se pode confiar nesses invasores. Vai um chiclete?

Mohammad pela primeira vez iluminou a face ensaiando um leve sorriso. Levantou o braço esquálido para pegar no ar o chiclete arremessado pelo novo amigo. Levou a borracha de açúcar à boca, mantendo-a inerte debaixo da língua, sonhando, permitindo que a saliva farta açoitasse o pedaço de felicidade, sorvendo cada gota derretida de açúcar e hortelã. Convencido que conquistara um amigo, Abi continuou com seu diálogo quase solitário.

- Temos aqui quatro alas. Escute bem o meu conselho. Não se misture com os garotos dos outros pavilhões. Termina sempre em confusão, castigo e solitária. Venha. Vou te levar a um lugar que vai gostar ... creio.

Então Abi conduziu o amigo a uma pequena sala, com escassos livros, surrados e aveludados de pós, apelidada “biblioteca”. A maioria dos exemplares era em inglês, mas se divertiam olhando e tocando as figuras impressas. Ali passaram toda a tarde, desenhando e pintando guache em papel de embrulho acinzentado. Depois seguiram para a sala de TV, onde se fartaram de vídeo-clips produzidos pela CBN e Al Jazeera. Enquanto se deslocavam para o refeitório, Mohammad percebeu que as paredes e os muros recém pintados ainda exalavam o cheiro de tinta fresca. No caminho, Abi se sentiu a vontade para falar de si:

- Fui preso em Mossul, fica no norte, conhece? Tentava roubar uma garrafa de água. Havia meses que só tomava água barrenta de poça. Huuuugh... só de lembrar em embrulha o estômago. Então vi um caminhão cheio de garrafas de água. Imaginei que fosse fácil. Peguei sete anos. Meus pais não aparecem, moram muito longe. E você, o que fez?

Entre aéreo e distante, Mohammad respondeu baixo, num volume quase inaudível:

- Não sei – e repetiu três vezes, como para certificar de que tinha sido plenamente compreendido.

Abi, à medida que ia aprofundando a convivência com o novato, foi percebendo que o pirralho encontrava-se milímetros do pior dos abismos. De ‘pior dos abismos’ apelidava a irreversível e derradeira demência, antessala do ‘apagão’, o suicídio. Então se contorcia à procura de assuntos capazes de entreter e divertir o calouro, feito amigo. Não compreendia por que se envolvia daquele modo, por que se interessava pelo moleque franzino que acabara de conhecer. Talvez a resposta estivesse na memória, ainda em carne viva: se parecia com o irmão mais novo, caído com uma bala de Sharpshooter perdida.

- Vê aquele ali? É Assad. Sua mãe e seu pai estão em Abu Graib. Venha. Vamos ali – chamou Abi, e seguiu ligeiro na frente, saltitando, como obrigava a perna privada do pé decepada ao pisar numa mina terrestre.

- Vou te contar um segredo - cochichou Abi, para logo prosseguir. – Não conte para ninguém. É segredo de verdade.

Num canto em que se sentiu seguro, Abi abriu um livreto de estórias árabes infantis e passou a ler, baixinho, pausadamente, quase soletrando.

Permaneceram horas, hipnotizados pela estória da fada árabe que libertava um exército de crianças escravizadas. Quando sentiu o olhar trepidar cansado da leitura, Abi voltou a esconder o livro num saco de linho surrado.

- Se eles pegam agente com esse tipo de livro, é solitária na certa.

- Por quê? – perguntou Mohammad.

- Talvez porque não desejem nos ver sonhando – encerrou a conversa Abi, com a voz tensa e grave.

A sirene soou o alarme inconfundível e foram-se, abraçados, em direção ao pavilhão onde os aguardavam as camas de cimento nu.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A dor que nem os espíritos suportam

-Você terá algumas semanas de vida, não mais que isso – falou com a voz tensa o Dr. Raul, os olhos fixos, severos, avançando em direção dos meus.

A primeira reação foi imaginar que a cena em que involuntariamente atuava, quadro de um teatrinho de quinta categoria, não me destinava papel de protagonista. “Um pesadelo, sem dúvidas!”, imaginei, certo que ao findar da noite, a claridade do sol estaria me esbofeteando, afastando definitivamente para uma outra banda do mundo, o inferno que comprimia, garroteava todos meus poros e sentidos. Mas os minutos cadenciando os ponteiros do relógio branco fixado na parede alertaram de que nada ali me ancoravam ao tempo real. Os minutos gritavam que eu estava ali, bem ali naquele terrível consultório onde imperava autoritariamente a cor branca. Que raios de impelir até mesmo à decoração uma insossa ditadura que aprisionava as demais cores, um autoritarismo atroz – como de resto todos os demais - capaz de impedir a pluralidade, a diferença. Não havia como ignorar o fato de que estava mesmo no lugar errado, lamentavelmente com a pessoa errada, deploravelmente na pior das horas. Cruel destino, infame sina. Não, não era um sonho, não era um efêmero pesadelo. Por mais difícil e deplorável que fosse, melhor admitir, melhor dobrar e me submeter às evidências: Não era outro, senão eu, em viva alma, que ali estava recolhido à poltrona branca, eu mesmo em pessoa; em carne, osso e espírito; sentado à frente de um oncologista impiedoso, destemperado, desumano. Como era possível aquele sujeitinho se arvorar no direito de me dizer aquilo, daquela forma, com aquelas palavras?! Indubitavelmente um demônio vestido de branco a me provocar, a me tentar com um diagnóstico tão fatídico, anunciando o final dos tempos, os últimos dias, o apocalipse. Por que deveria permanecer ali, ouvindo a pior das previsões, tendo que suportar a indiferença dos ponteiros do relógio que seguiam em seu movimento circular como se nada de anormal estivesse ocorrendo.

Então, ante a impossibilidade de ignorar a realidade, recorri ao sentimento que emergiu, à raiva, ao ódio, ao rancor que nos trinta e seis anos de vida procurei evitar. Não nos momentos de incertezas e desespero. Mas despertei de algum lugar ignorado do cérebro toda a raiva que imaginei ter conseguido amainar. A raiva pelas brigas e disputas em que sempre levei a pior, desde a infância, a mais tenra idade... a raiva pela insegurança onipresente, pelo corpo magro e tisico... o ódio pela juventude deslocada – como um peixe fora d’água, sempre me imaginei diferente dos demais... o rancor pelos fracassos na vida amorosa, profissional... toda essa raiva, todo o sentimento pérfido fiz explodir, potencializando-o infinitas vezes, ao ponto de me tornar a energia de megatons.

Mas todo o colossal sentimento de rancor não fez esvair de minha frente o olhar severo e grave do Dr. Raul. Continuava mirando, focando, perfurando, seus dois olhos argutos e ferinos bombardeando mísseis, torpedos e rajadas em minha direção, ininterruptamente, como se desejasse implodir minha força interior, a vontade férrea e inamovível de não querer acreditar no que ouvia, no que os exames emprestavam tanta evidência e veracidade.

Então recorri a tudo que sorvi da academia e da vida em estratégias de negociação e entendimento. Por toda a vida fui um exímio negociador, um hábil e eficaz catalisador das soluções não conflitivas, de desfechos amistosos. Por que não?, já não havia conseguido contornar as situações mais delicadas, dar solução aos problemas mais complexos? Consegui, durante tantas vezes, conciliar interesses, mitigar divergências, convergir antagonismos, por que razão então não haveria de encontrar solução para meu próprio dilema? Então pensei lembrar um santo forte, um santo poderoso, um santo generoso, dado aos grandes milagres, às causas impossíveis, para que negociasse alguma coisa, algum termo, alguma proposta, uma promessa qualquer, fosse qual fosse, que trouxesse alguma vantagem. Por mais que concentrasse, não consegui lembrar o nome de nenhum santo forte o suficiente para fazer frente à situação em que me encontrava. Desde a adolescência, quando perdi minha mãe, deixei de comparecer às missas dominicais, abandonei até mesmo as orações, rezas e súplicas que vovó desde sempre, com solicitude e parcimônia se esmerou em ensinar. Então busquei na memória os santos que mamãe venerava e que ficavam expostos sobre a cômoda do quarto de dormir. Lá estavam, moldadas em gesso fino, as figuras imponentes de Santo Expedito, São Jorge, Santo Antônio, São João, Nossa Senhora de Aparecida, o menino Jesus e São Sebastião. Escolhi, para entabular negociações, Nossa Senhora de Aparecida. Imaginei mais inteligente escolher a mãe de Jesus menino, que por certo teria acesso mais facilitado ao Pai divino. Que mãe não gozaria dessa privilegiada posição, inerente à própria condição feminina? Escolhida a portadora, restava desvendar com o quê me comprometeria, o quê de importante poderia oferecer para iniciar negociação tão traumática, capaz de me garantir a vida ou selar a morte como destino? Por mais que procurasse alternativas, era incapaz de imaginar algo que pudesse – numa negociação – despertar o interesse da Santa, da virgem Maria. Uma viagem à terra santa de Jerusalém, quem sabe uma caminhada à Santiago de Compostela, ou talvez uma peregrinação ao Santuário de Aparecida... nada, nada, nada parecia ter valor, nada parecia ser de interesse, meus pensamentos gravitavam num traçado incerto e duvidoso.

Então, tomado pelo ceticismo, desisti da negociação e caí em desespero. Fui tomado por uma angústia sem limites, que tensionava meu peito, embotava os pensamentos, prostrava minhas vontades, tempos atrás despertas e ousadas. Meu corpo se fizera trapo, retalhos, um mísero saco de lixo, o próprio lixo. Vontade já não restava para o que fosse, tão pouco poder de reação. Diagnóstico correto?, que fosse, então! A morte como derradeira consorte?, que fosse então! A senhora da foice à espreita para o bote final?, que fosse! Paciência!, fazer o quê?, certamente não seria a morte um estágio tão ruim da existência.

Um pássaro amarelo e solitário pousou no fio de telefone bem rente à janela. Cantou sereno, assoviando uma melodia suave que me libertou da teia intrincada dos pensamentos. Olhei pela janela e quando nossos olhares entrecruzaram, o canário saltou no espaço, num voo magistral, como se desejasse confessar algum mistério, talvez - como poderia eu saber? – desejasse confidenciar ser o condutor de minha alma na grande travessia. Novamente o incubo de branco assaltou meus pensamentos.

-Você tem que ser forte, afinal tem filhos, mulher, pense também neles – falou o experiente doutor, cabelos brancos e corpo curvado, visivelmente embriagado pelo desejo de se livrar do fardo a que eu próprio me reduzira.

Levantei da poltrona macia e tomei a direção da porta. Melhor resignar. Restava alternativa? Diante da insólita condição, que variável estaria sob meu controle? Então me curvei ao fato de vivenciar no mesmo compasso do velho da foice. Pressentia que compartilhávamos a mesma estação de embarque. Minha hora havia chegado de maneira inexorável. Não restava alternativa que não fosse a despedida. A mais dolorida seria despedir da caçulinha Maíra, cinco anos de idade, estuário de beleza e inocência. Maíra. Há quanto tempo não a tomava no colo?; não trocava palavras, confidências, calor e olhares? Há quanto tempo não me fazia parceiro em seus joguinhos e brinquedos? Há quanto tempo não a acompanhava nas tarefas da escola, num feriado em um parque de diversões, num clube dominical, numa divertida seção de cinema? Há quanto tempo, meu Deus? Quanto tempo? Na realidade, em tempo algum encontrei Maíra e os meus três outros filhos, Gracinha, Guilherme e Marcos. Meu tempo sempre escasso, pequeno, insuficiente para tudo que soasse amigos e família. Para o trabalho sobravam horas, todas as horas, todos os dias e todas as noites, todos os feriados e finais de semana. Mas para os que só agora entendia importantes, partes de mim, não restou reles minuto. Percebi tarde demais que passei toda a existência distante do que me era mais caro e vital. Cinco anos, uma vida inteira ao lado de Maíra, sem ter encontrado tempo para abraçar seu corpinho delicado, para curtir seu cheirinho de bebê, para beijar seu rostinho de veludo, para engraçar com sua conversa inocente, para emaranhar em seus cacheados prateados. Cinco anos ao seu lado, morando na mesma casa, respirando o mesmo ar e, ao mesmo tempo, escondido a quilômetros e quilômetros de distância.

Numa loja do shopping comprei brinquedos, joguinhos, bonecas, eletrônicos, casinhas e miniaturas, tantas coisas imploradas pela pequena Maíra e que jamais sequer cogitei acolher. Sempre me pareceu mais rápido e eficaz desconversar com a mesma desculpa esfarrapada de sempre: “não tenho dinheiro, o pagamento não saiu”. O pagamento nunca saia. No supermercado comprei caixas de chocolate, balas e guloseimas. Depois passei num circo e comprei ingressos para as seções de todas as noites. Foram trinta e quatro ingressos, dezessete para mim e dezessete para minha pequena princesa. Trataria de viver agora o tempo que desdenhei. Quem sabe pudesse recuperar alguma coisa, sobretudo a afeição e o respeito da encantadora princesa. Estranho que justamente o anúncio da morte me tivesse escancarado a realidade em relação ao tipo de vida que levava. Estranho que justamente o prenúncio da morte me tivesse despertado para a vida.

Enquanto voltava para casa, os bancos do carro repletos de presentes, doces e guloseimas, uma dor aguda irrompeu meu coração. Parei o carro no acostamento esperando que o suplício passasse. Mas ao contrário, a dor ia dominando minha capacidade de resistência, tornando o instante seguinte infinitamente mais insuportável. Era como se uma agulha enorme, pontiaguda e cheia de dentes estivesse devassando progressivamente as partes mais intimas do meu coração doente e cansado, traspassando minha indigna existência. Implorei à Virgem Maria que permitisse ao menos encontrar minha pequena Maíra, uma última vez, só mais uma última vez. Já havia ensaiado os pedidos de desculpas, desculpa pela omissão, desculpa pela falta de tempo, desculpa pelo desrespeito de jamais tê-la sentido, ensaiei a forma de me aproximar, abraçar, beijar... mas o espasmo final tornou meu corpo o epicentro do maior dos terremotos. Um ronco grave e impiedoso me levou o sopro a que a vida tinha se reduzido.

Com o espírito liberto me dirigi para casa. Seguia conduzido pelo canário amarelo que diligentemente me mostrava o caminho. Estranho. Do alto a cidade parecia bem mais bonita e humana. Encontrei Maíra dormindo, o corpinho desnudo coberto por travesseiros e bichinhos de pelúcia. Invejei todos aqueles travesseiros e bichinhos de algodão. Assoprei delicadamente seus cabelos e os copinhos de redemoinho ensaiaram um movimento no ar. A pequena acordou sonolenta e pressentindo minha presença soluçou quase inaudível “papai”, para depois se virar e tornar ao sono dos justos. Derramei em prantos. Chorei como jamais havia chorado em meus anos de vida. Um choro incontrolável, amargurado, ressentido, arrependido. O pobre canário interrompeu seu canto onírico em solidariedade à dor que eu deveras sentia, a pior das dores, a mais profunda e angustiante delas, aquela que nem mesmo os espíritos são capazes de suportar.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O mensageiro do diabo*




O quarto mantido na mais absoluta escuridão impedia que John Idemas enxergasse um palmo à frente do nariz. Por isto agachou-se e ali ficou, quieto, sem mover pestana, aguardando o desfecho do julgamento que pressentia, o conduziria à morte certa.

A escuridão lúgubre do cômodo ao menos facilitava desbravar os mares revoltos de seu passado errante. Mergulhava nas memórias mais distantes e remotas. Afundado nas trevas mais densas e espessas, rememorava os anos vividos, as andanças pelo mundo, pelos continentes.

Na infância foi buscar as recordações dos pais, as brincadeiras de mocinho e bandido, os jogos preferidos de desafios, batalhas e guerras intercontinentais. Depois, na adolescência, o interesse pela história da KKK e das seitas ultra-direitistas do sul do país. Entreabriu um leve sorriso quando se lembrou de, já na universidade, atender ao chamado dos fuzileiros navais se alistando na marinha. O envolvimento com o serviço de inteligência, depois o serviço secreto, os cursos no FBI, na CIA, o memorável estágio na shabak.

Com mais demora deixou-se divagar sobre o crime que o levara a fugir para a Europa. Na academia se apaixonara pela bela Janeth Stone que insistia em ignorá-lo, desdenhá-lo, tratá-lo com insolente desprezo. Numa noite escura, exercitando uma operação de resgate no deserto, aproveitou-se do isolamento e estuprou a colega de turma. Temendo a denuncia, assassinou-a a coronhadas. Depois, com frieza e indiferença, decepou a cabeça e os dedos da formosa Stone, diluindo-os numa mistura improvisada com diferentes tipos de ácido, eliminando as possibilidades de identificação pelas digitais e arcada dentária.

Utilizando as técnicas de disfarce, evasão e camuflagem aprendidas nos cursos de espionagem, escapou ileso e cinco dias depois do crime estava no outro continente, apresentando-se na Legião francesa.

A Legião Estrangeira abrigava todos que a procuravam, sem as inconveniências de perguntas sobre a identidade e o passado dos aspirantes. A organização do governo francês empreendia o serviço sujo e ilegal que o exército regular estava impedido de realizar. Treinava seus integrantes nas técnicas de guerra, assalto e guerrilha, aplicando exercícios de táticas e estratégias militares só suportáveis pelos mais fortes e brutos, encaminhando comandos para realização de arriscadas operações em toda a parte do mundo, para fazer o que fosse, sem permitir sequer a possibilidade de questionamento ou reflexão de caráter ético, legal ou moral. Em contrapartida, os que sobreviviam aos cinco anos de serviço militar em missões quase impossíveis, obtinham uma nova identidade e a cidadania francesa. Era o perdão por tudo o que de pior tivessem cometido no passado.

Neste período, Idemas foi deslocado para missões no oriente médio, na África e na América Latina. Foi quando percebeu um filão para enriquecer, um nicho poucas vezes explorado. Os conflitos nacionalistas locais e regionais, de fundo político ou religioso, ocorrendo simultaneamente nos diversos continentes, exigia exércitos privados, de combatentes mercenários e justiceiros profissionais. A terceirização acabava de se estabelecer nas guerras entre os povos e as nações.

Ao dar baixa na Legião, decidiu ganhar a vida como combatente das liberdades. Não saberia bem identificar o que significava aquela expressão, “combatente das liberdades”, mas gostou da sonoridade da frase enveludando os ouvidos. Convenceu trezentos e cinquenta colegas que integravam a Legião Estrangeira e outros companheiros renegados da CIA e do Mossad para, juntos, formarem um exército privado.

Lembrou-se quando, em 1979 inaugurou os novos negócios vendendo seus serviços ao Pentágono. Foi lutar ao lado dos guerrilheiros islâmicos mujahidin no Afeganistão. Desde essa época sua fama de cruel e sanguinário ganhou o mundo. Após aprisionar os soldados russos, torturava-os com tamanha violência e furor que os jovens recrutas logo suicidavam, muitos se enforcando com as próprias mãos.

É deste período que conheceu a jihad, a guerra santa de Osama bin Laden e Ayman al Zawahiri. Tornou-se homem de confiança do Taleban e um dos inspiradores da Al Qaeda. Quando expulsaram os russos fazendo do Afeganistão um país fundamentalista, conduziu seu exército privado à missões na Eritréia, Somália e Egito, sempre a soldo da organização ou governo que melhor remunerasse. Contratado pelo governo do Sudão, estruturou as milícias janjaweed e fez de Darfur sinônimo de inferno e genocídio. Os assassinatos, estupros e a política de “terra arrasada” levaram 1,5 milhões de pessoas a deixar suas casas; 50 mil foram mortas e 200 mil obrigadas a fugir para o Chade.

Rememorou as horas aflitas se desculpando com al Zawahiri por não ter jogado seus homens no 11 de setembro. Participou do planejamento disponibilizando informações e contatos, elaborando mapas e roteiros, mas sentia-se impossibilitado de guerrear contra seu próprio país e implorou como uma criança até conseguir ser dispensado de atuar no teatro de operações de uma forma mais direta.

-Vocês americanos jamais serão fundamentalistas como nós, ainda que assumam a jihad e se convertam ao islamismo – disse bin Laden, reprovando o que considerava, no mínimo, uma incoerência do amigo norte-americano.

Aborrecido com as discussões e as advertências da direção da Al Qaeda, concordou em atender ao pedido de um antigo aliado, Donald Rumsfeld.

-Preciso que vá para a Cisjordânia eliminar os dirigentes das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa – pediu Rumsfeld.

-Vai custar muito dinheiro – cobrou sem rodeios John Idemas.

-Dinheiro nunca foi problema – finalizou a conversa Rumsfeld, dando as costas para o vingador.

Edemas escolheu, a dedo, cinco de seus melhores homens e partiu para Nablus. Lá, com o suporte logístico do Mossad e da shabak foi eliminando, um a um, os integrantes do alto comando das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa. Quando conseguiu dar cabo da missão, ligou para o amigo ilustre.

-Estou partindo, companheiro; a casa repousa em ordem - falou Idemas.

-Vá na paz de Deus – agradeceu Sharon, repetindo que mantinha no bolso a cidadania israelense para quando quisesse descansar.

-Não sou homem de pendurar as chuteiras, Ariel – respondeu o vingador que, prestes a desligar o celular complementou. –Vou partir, não sem antes deixar um brinde, um presente para o amigo.

Na manhã do dia seguinte, enquanto discursava no parlamento, Ariel Sharon foi interrompido pelo assessor de segurança interna, que conduzindo-no a um canto do plenário, confidenciou-lhe ao ouvido.

-Idemas seqüestrou 24 crianças palestinas. Foram sete meninas de sete anos, oito de oito anos, e nove garotinhas de nove anos. Estuprou-as com seus homens e, após, executou todas elas com tiros na cabeça.

Ariel se limitou a respirar fundo antes de retornar à tribuna para dar continuidade ao discurso sobre o road map, com sua empáfia costumeira, como se reinasse no ambiente absoluta normalidade.

Enquanto se deslocava para a ilha de Bali, John Idemas atendeu ao telefonema de amigos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Mantinha um rentável contrato com as FARC, a quem emprestava assistência técnica e consultoria. Chegou a estar pessoalmente, por três vezes, na base de San Felipe, de onde retornava com malas e baús repletos de narco-dólares.

-Fique a postos, talvez precisemos de vocês, - falou o colombiano.

-O que é? – perguntou interessado Idemas.

-Se perdermos o plebiscito na Venezuela, daremos um golpe, ao lado do comandante Chávez.

-E o Brasil?

-Já está tudo combinado lá por cima. Fique atento. No país do futebol temos uma beque central na Casa Civil, no coração do poder. Relaxe, é ali que se estabelece a articulação entre o ETA e as FARCs...

Na Ásia, ainda nos tempos de Reagan, coube à organização de Idemas institucionalizar a rede de extremistas islâmicos Jemmaah Islamiyah. De modo que quando chegou à Ilha de Bali já o aguardavam antigos camaradas, agora no comando da Jemmaah. Orientou então o planejamento detalhado do atentado e se retirou rapidamente da ilha, antes da explosão transformar em pó e cinzas 202 vítimas indefesas da ação terrorista.

Enquanto aguardava o julgamento, as lembranças iam ficando cada vez mais vivas na memória. À medida que as cenas do passado se sucediam, percebia que não havia nada, absolutamente nada, nenhuma só ação que pudesse levá-lo ao arrependimento. “Não terei que aborrecer Deus com pedidos de clemência e perdão”, dava asas aos pensamentos. Apenas se lamentava não ter se deslocado a tempo de compartilhar a glória do amigo tchetcheno Basayev em Beslan, na Ossétia do Norte.

Um único fracasso assombrava suas memórias, levando-o ao descontrole e desespero. Essas lembranças impulsionaram-no a esmurrar as paredes do quarto, ainda que estivesse com todos os dedos das mãos quebrados. Por mais que tenha se esforçado, não conseguiu impedir que os iraquianos enfurecidos emboscassem, enforcassem e incinerassem quatro compatriotas seus, retalhando-os para, a seguir, pendurar as partes numa ponte em ruínas. Para se vingar, tomou cinco mulheres iraquianas, as primeiras que encontrou, e decapitou-as sem piedade. Os corpos das senhoras idosas foram encontrados com as cabeças amarradas às costas, nas proximidades de Dujail.

Repentinamente a porta do quarto escuro se abriu e cinco soldados escoltaram Idemas para o tribunal.

Diante do magistrado, em completo desespero de causa, de forma ridícula e estapafúrdia, Idemas protagonizou uma conversão à fé islâmica, passando aos brados a recitar os versos corânicos, jurando fidelidade ao Alcorão.

Percebendo que os jurados se irritavam com o dramalhão, Idemas mudou de estratégia e passou a discorrer sobre suas históricas relações com Ronald Reagan, e agora com Bush e principalmente Donald Rumsfeld. Gritando, relatou os casos amorosos mantidos com Margareth Tatcher e Golda Meir. E as conversações frequentes que mantinha com Mario Borghezio, Ariel Sharon, Augusto Pinochet, Muammar Ghadafi, Fidel Castro, Hugo Chávez e Hu Jintao, Lula e Mahmoud Ahmadinejad .

Mas repentinamente, como se tomado por uma força sobrenatural, interrompeu o discurso, a argumentação, a defesa desconexa. Silenciou e não mais disse palavra. Num repente se convencera que a sentença já estava lançada e tudo o que dissesse ou fizesse cairia no rol das irrelevâncias. Nem mesmo seu presidente confidente Hamid Karzai ou seu amigo-irmão Rumsfeld poderiam socorrê-lo. Tinha diante de si o próprio epílogo. Encontrava-se frente a frente com os derradeiros momentos de sua vida. Transtornado, ainda conseguiu escutar o juiz afegão decretando a sentença.

“Morte por fuzilamento”, se limitou a repetir em pensamentos John Idemas, agora de cabeça vergada, baixa de vergonha. Deplorava o destino injusto que considerava estar recebendo.

Enquanto era conduzido ao pátio de execução, lembrou as altas autoridades com que, por todo o tempo, manteve frenéticos relacionamentos. Presidentes, ministros de Estado, parlamentares, mega-empresários, autoridades importantes e que agora, enquanto amargava a desgraça, alegavam desconhece-lo, chamando-o de louco e mentiroso.

Não escutou os tiros e nem sentiu as balas explodindo seu coração. Só então John Idemas percebeu que a morte já o havia buscado em algum momento distante da infância. Desde então se tornara um zumbi assombrando a vidas das pessoas simples e humildes. Alcançava-as em todos os lugares, em todos os países, em todos os continentes, apoiando a ideologia que fosse, a religião que melhor pagasse por seus serviços.

John Idemas atentou então que jamais morreria. Percebeu que a morte era um privilégio que jamais experimentaria. Um privilégio que não era dado aos mensageiros do diabo.

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* Este conto é uma peça de ficção. Qualquer semelhança com fatos, datas ou nomes de pessoas terá sido mera e fugaz coincidência.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O SANTUÁRIO DOS SKINHEADS



   Maria Patrícia e João Siló comprimiam-se debaixo de uma árvore devorando-se mutuamente. Eram duas horas da manhã, e na solidão de um quadrante discreto da Praça da Sé, sentiam a excitação da liberdade para amar e doarem-se um ao outro.
   Patrícia, 14 anos de plena juventude, dali a oito horas embarcaria no ônibus que a levaria de volta ao sertão do Piauí, de onde saiu com João Siló, um ano atrás, para fazer a vida em São Paulo. 

   Saíram do sertão fugidos. Não havia na pequena cidade do interior do Piauí quem cogitasse admitir o amor de Patrícia, a deusa adolescente, pelo experimentado João Siló, 51 anos de idade. Fosse rico e tudo estaria acertado, que a vida é farta de generosidade para com os que amealham riqueza e poder. Mas João era um coitado, pobre de recursos e de instrução formal. Nem chegou a completar o primeiro ano do primeiro grau. Com meio século de existência, seu patrimônio pessoal se limitava a uma tapera que a custo empinava na vertical. Casou sete vezes. Das cinco primeiras esposas despediu-se com lágrimas, cuidando com zelo dos funerais, guardando luto clerical. A sexta, Dolores, caiu quando o tino entrou em ebulição, fervendo a ponto de exalar fumaça pelas orelhas, faíscas e pequenas labaredas pelo couro cabeludo. Dolores consumia o que restava da vida enclausurada em um manicômio público, com a cabeça mergulhada em uma bacia com água e barras de gelo, que era para manter a temperatura sob controle, evitando que a cabeça evaporasse. Por fim, a ultima esposa, Josefa, o fez amargar a dor da traição. Incrédulo, viu quando a mulher amada partiu, seduzida pelo motorista do caminhão pipa que ostentava no corpo um emaranhado de pulseiras e colares de latão batido que jurava ser ouro de puro quilate, extraído de serra pelada. Desde então, o coração enrijeceu e se fechou para o amor. Amargurado, João Siló vivia só, como um hermitão, se ocupando do que mais gostava, do que verdadeiramente lhe dava prazer naquela vida tão sofrida e arrastada, apresentar seu cassimiro coco, fazer seus bonecos endiabrados fartar o povo de alegria e prazer. 

   Noivados e casamentos; comícios e reuniões políticas; inaugurações, festejos cívicos e atos populares; aniversários; batizados; e nem mesmo o dia reservado aos finados e os rituais fúnebres passavam ao largo da animança de João Siló e seu teatro de bonecos salientes. 

   No funeral de Pedro Sarmento, o prefeito mais poderoso e popular do nordeste, foi contratado pela família para fazer o brinquedo no portão central do Cemitério. O povo acorreu em massa para prestar os últimos sentimentos ao morto e as condolências à numerosa família. Deitavam sobre o caixão as coroas de flores e as lágrimas de despedida para depois irem, depressa, se divertir com o fuzuê que João Siló aprontava com os bonecos malcriados. Eram criaturas inertes que adquiriam vida própria, sem papas na língua, criticando os coronéis da política local, sapecando couro nos poderosos, soltando cobras e lagartos na polícia que reprimia e nas autoridades que corrompiam. Nem mesmo ao difundo, ainda quente na cova oficial, dava tréguas.  

   Foi nessa apresentação que a vida de João Siló deu mais uma guinada radical, uma virada de cento e oitenta graus. Enquanto apresentava-se manipulando com maestria os bonecos de luva, viu pelo ponto translúcido da empanada, de onde acompanhava os movimentos da platéia, a mulher que de forma definitiva, arrebataria seu coração solitário e sofrido. Dentre os demais assistentes, ressaltava formosa, a bela Maria Patrícia, uma garota com traços angelicais que, compenetrada, divertia-se na primeira fila da platéia. Apesar de criança, o corpo já apresentava a sensualidade de mulher formada. Não menos de trezentas pessoas firmavam pé, se divertindo com as traquinagens dos bonecos. O titeriteiro servia-se da fresta, por onde monitorava a platéia, para colar os olhos na musa dos sonhos de todos os homens da região. E dedicando a ela, exclusivamente para a candura por quem abrasava seu amor, esmerou numa apresentação de duas horas de duração. Jamais se apresentara por tanto tempo e com tanto prazer e sucesso. A platéia aplaudiu em delírio minutos a fio. Todos imaginaram que a ousadia criativa do arrojado bonequeiro se devia à emoção da perda do perfeito, amigo companheiro de todos. Mas o coração de João Siló, e tão somente ele, compreendia as razões e os motivos para performance tão delicada e primorosa. 

   Sem entender as razões e o instante, Maria Patrícia também foi se apaixonando por aquele invisível condutor de bonecos; se encantando pelo rosto que desconhecia; pelo corpo que a empanada, em clara cumplicidade, escondia. Mas a voz que fluía dos bonecos buliçosos era suficiente para entender que estava diante da alma gêmea, a que atravessaria a existência em sua companhia. De modo que quando, ao final do espetáculo, o homem emergiu suado por detrás da empanada, Patrícia não se espantou com seus cabelos grisalhos e nem com aquele corpo forte e calejado pela labuta e desatinos. Ao contrário, teve a certeza de que seus sonhos e premonições continuavam confiáveis.  Por muitos minutos ficaram inertes, pupilas cruzadas, palavra ou reação alguma a se interpor entre os dois. Sabiam um do outro, e nada que dissessem ou fizessem seria mais forte que a comunicação única que ali se estabeleceu.  

   Foi necessário que dona Santica saísse aos impropérios, arrastando a filha de volta para casa. Mas foi o tempo de ajeitar na mala a barraca e os bonecos, e lá foi o apaixonado bater à porta da casa dos Raimundo Nonato, à porta do castelo de seu amor platônico. Quando falou ao pai de Maria Patrícia do amor que explodira em ambos, percebeu que teria pela frente uma parada dura. O velho Raimundo Nonato custou a acreditar no que ouvia. Imaginou ser mais uma lorota do filho mais velho, acossado pelo autismo que degenerava, e dando aos sobrolhos expressão de gravidade - por dentro irrompia em gargalhadas - por educação, despachou a mulher para o quarto em busca da filha. 

   - Filhinha, o mestre do cassimiro coco afirma que se apaixonou por você  e você por ele - disse o pai com dificuldades para segurar o riso que irrompia pelos poros da pele. 

   Ávido por uma palavra da filha que reduzisse tudo às traquinagens do primogênito da cabeça perdida, o velho Raimundo Nonato percebeu a surpresa malévola no ar. Sem esperar que o atencioso pai terminasse a frase e a menina Maria já estava com as pernas cruzadas nas cadeiras do titeriteiro, irradiando felicidade, cobrindo-o de beijos e carícias. Comportavam-se como conhecidos de décadas atrás, assumindo na frente de todos uma intimidade só permitida a marido e esposa abençoados pela santa madre igreja e oficializados pelo cartório público. 

   Os pais, estarrecidos, não conseguiam esboçar reação. Falavam por códigos e sinais imperceptíveis aos demais presentes. Resmungando, se acusavam mutuamente pela demência da filha, tipificada pela loucura explícita de se apaixonar intempestivamente por um homem quase quarenta anos mais velho, com perfil para avô e não para marido. 

   Quando percebeu a situação longe de controle, Raimundo Nonato passou a tagarelar, destilar palavrões, os nervos rompendo em erupção a pele vermelha de cólera, e logo estava disparando rajadas de tiros de sua cartucheira de repetição. Não sobrou alternativa para o rei do cassimiro coco que não fosse bater em estratégica retirada.   

   Mas mal caiu a noite e já estava auxiliando Maria Patrícia a fugir pela janela do quarto. De bicicleta, correram para a cidade mais próxima de onde tomaram a jardineira em direção à São Paulo. Uma cidade com nome de santo deveria ser um torrão do paraíso, um lugar decente e generoso.  

   Na cidade grande, ganhavam a vida com o teatro de bonecos, apresentando-se em escolas, praças públicas, universidades e onde mais conseguissem reunir pessoas. O mundo real para Maria Patrícia e João Siló tinha a graça e a felicidade do mundo dos bonecos que manipulavam com destreza.  Todavia, um ano de casada, distante dos pais, da família e das amigas, fez abrir no coração criança de Maria Patrícia, um vergão, poço insuportável de saudades que virou angustia, desolação. Escrevia pelo menos uma carta por semana, e com a mãe falava ao telefone todo o ultimo dia do mês. As conversas e confabulações, travadas do desterro, aliado ao efeito que o tempo exerce sobre desavenças passadas, fez com que os ressentimentos se amenizassem, e todos se convenceram que o melhor seria o casal retornar e consertar – aos olhos da família – o crasso erro perpetrado. Deveriam se casar na igreja, recebendo as bênçãos do padre e a certidão do tabelião, tudo conforme o figurino e a ritualística cristã.  

   Então, no dia do embarque, se deixaram ficar na Praça da Sé, namorando, curtindo o amor sincero e inocente, se despedindo da cidade com nome de santo, a cidade que os acolheram quando se impuseram o exílio. 

   Enquanto a madrugada cavalgava a noite, acompanhavam, entre curiosos e indignados, as manobras do exército de abandonados que ocupava a praça, transformada agora em um trincheira onde convalesciam os feridos de morte, os que tiveram amputadas as almas. Os depauperados, à míngua, arrastavam-se de uma marquise para outra, buscando um abrigo seguro que jamais tiveram, que jamais teriam. Ali, Maria e João, cúmplices num silêncio mortal, perceberam que à volta só restavam os refugos de guerra, pobres desgraçados que a vida maltratou, templos sagrados que a vida profanou insidiosamente. Corações riscados na navalha cega da esmola, decepados no vidro onde corria a flanela nos intervalos dos sinais luminosos, estraçalhados pelos olhares sarcásticos que gritavam “vai trabalhar vagabundo”, moídos pelo desvelo de que o valor da vida se restringia ao centavo atirado com repulsa e escárnio, violentados pelo abandono da família e dos amigos, estuprados pelos políticos de olhar cândido e agulhão de escorpião, perseguidos pela sina da pior solidão, aquela em que se está envolto por multidões de multidões. Os que chamavam mendigos, sem teto, moradores de rua, arruaceiros, vagabundos, lumpesinato,  parias e escórias da sociedade, eram na realidade rebentos largados à própria sorte, desprovidos de um anjo da guarda, de um santo protetor, de uma divindade, de um deus qualquer ainda que de letra minúscula. Ninguém para zelar, para curar uma ferida, para uma carícia, afago ou palavra de conforto, ninguém para rezar, para oferecer a mão, cantar o bom dia. Largados na praça, jaziam vivos crianças, jovens, adolescentes, idosos, homens e mulheres, anjos transviados vagando numa procissão de zumbis. As faces envoltas em sacos plásticos derretiam-se na cola de sapateiro. Cachimbos de crack tragavam o ultimo naco de sonhos e esperanças. Homens e mulheres tornados escravos do álcool, do aguardente barato curtido na soda cáustica. João e Maria dialogavam em pensamentos: “... um pouco só de amor e carinho e tudo seria diferente ...”. 

   Enquanto os dois amantes sofriam o cenário de guerra, de terra arrasada, dois opalas encostaram junto ao canteiro central da praça. Dos automóveis desceram três policiais e seis homens fortes, todos carecas. Rápida e silenciosamente correram em direção a um grande grupo que adormecera sob a maior das marquises. Um policial e um skinhead, ambos com tacos de basebol, se adiantaram sobre os demais. E violentamente foram golpeando as cabeças que jornais, sacos de linho e retalhos de cobertores procuravam proteger da luz de néon e do frio. As pancadas de precisão cirúrgica explodiam no ponto em que tocavam, reproduzindo a cada golpe um aspersor que irrigava com sangue a calçada imunda, imitando o da praça, a irrigar com água as flores ressequidas do jardim esquecido. Exímios jogadores de basebol. Uma única pancada para cada bola viva. Precisa, certeira, exata, rigorosa, científica, infalível, definitiva, matematicamente eficaz. Para cada batida na bola viva, uma vítima, um morto. Jogadores obtusos, covardes, hediondos, desprezíveis. E tão rapidamente como chegaram, partiram sem deixar vestígio. 

   Horrorizados e sem saber como proceder, João Siló e Maria Patrícia correram em direção às vítimas do napalm. Tentavam prestar qualquer auxílio que fosse. Mas que ajuda emprestar diante de tão brutal chacina? Aquilo parecia uma grotesca chantagem contra a humanidade. Desesperados, conformaram que, naquelas circunstâncias, o melhor seria chamar a patrulha. Ligaram cinco vezes do orelhão mais próximo e de tanto insistirem, duas horas depois aproximou-se uma viatura policial que saíra da delegacia situada a um quarteirão da praça, situada a um reles quarteirão do campo de guerra, do cenário onde transcorreu na menor fração do tempo a mais abominável, vil e covarde das batalhas, onde petardos de dinamite foram entregues a crianças como se brinquedos presenteados na noite de natal. 

   No chão vermelho de sangue, João Siló recolheu um panfleto dos verdugos defendendo o holocausto e a eliminação sumária dos nordestinos, negros e homossexuais.   

   Foi quando decidiram. A cidade, com nome de santo, havia perdido a áurea e o encantamento das divindades. Tornara-se santuário dos skinheads. Após o casamento não mais retornariam à Santo Paulo. Naquela metrópole, o amor sobrevivia confinado em sobre-planos frágeis e voláteis, ocupando pequenas frestas, restritas ranhuras, pontos minúsculos circunscritos ao espaço infinitesimal. O amor tornara-se fleumático para os homens e por isso travava um embate desigual contra o ódio, a intolerância e a violência explícita. Deixariam ficar no sertão do Piauí onde havia ainda espaço para cassimiro coco e sua trupe de bonecos brincalhões.

Rodoux Faugh

      

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A máquina de moer carne


João Deodato, do quarto do hotel que escolhera para se despedir da vida, olhava a fila que cingia, qual serpente, cinco gigantescos quarteirões do centro da cidade. Eram milhares de adolescentes ávidos por uma oportunidade, sequiosos pelo primeiro emprego. Dia após dia, alimentavam todo um comércio paralelo, um camelódromo aberto que ali se estabelecera em função do volume e da aglomeração de pessoas. Havia um exército de biscateiros e camelôs, ambulantes e embusteiros, uma horda de oportunistas que comercializavam de tudo. Picolé, amendoim, guloseimas, bolo, suco, refrigerante, cerveja, pinga, cigarro, bugigangas do Paraguai; lotes em favelas, invasões e assentamento de sem terra; licenças e alvarás da prefeitura; carteira de motorista e anistia de multas de trânsito; indulto de natal e até senha para audiência com o tesoureiro da campanha do presidente, a individual ao preço cinco vezes maior que a coletiva. Mas o pequeno empreendedor mais vistoso e cobiçado era o que comercializava vagas na fila infinita. E cobrava em dólar utilizando uma tablita atualizada a cada 20 minutos, para computar com precisão a desvalorização da moeda brasileira.

Como era período de campanha eleitoral, acorriam também os candidatos a prefeito e vereador de todos os partidos políticos. Em troca do voto, prometiam a realização dos sonhos, sem limitações de qualquer ordem. Emprego em primeiro lugar. Depois, pela ordem, a casa própria, a cadeira de rodas, a bolsa de estudos, a bicicleta ou a motoneta para fugir do caos do transporte coletivo, o remédio sempre inexistente no posto de saúde, a cirurgia necessária, a internação determinada, a aposentadoria desdenhada pelo governo, o retorno do marido que abandonou a família, a reabilitação da filha que se prostituiu, a recuperação do filho que caiu no crack, uma indulgência para o convertido, o perdão para o infeliz que se apaixonou pela madrasta, e para cada sonho, o compromisso registrado em cartório de plena materialização tão logo se confirmasse a vitória nas urnas.

Os jovens que saciavam a fome da hidra, jogavam ali, na fila do primeiro emprego, suas ultimas esperanças. Já adentrando a fase adulta, tinham diante de si o desafio de viabilizar o futuro, de se afirmarem, de dizerem presente ao mundo, de se livrarem do domínio dos pais, e de provarem a si mesmos que apesar dos obstáculos, das barreiras e das dificuldades, ainda era possível vencer na vida.

Seus pais, cansados da labuta bruta e da batalha desigual, eram os que municiavam as estatísticas do desemprego, ilustradas em curvas sempre ascendentes; eram os mesmos que subsidiavam calhamaços de teorias sociais e teses acadêmicas; os que embasavam a implementação de programas sociais talhados para sustentar a corrupção endêmica e o enriquecimento ilícito. Os pais que em outras épocas constituíam a base, o esteio, a âncora da família, que mantinham a mesa farta e as esperanças em dia, passavam agora o tempo batendo perna em busca de um posto de trabalho inexistente, fazendo um bico aqui e outro acolá; e na fila do abismo acompanhavam a angústia dos filhos, fazendo companhia, andando nervosamente de um lado para o outro, anunciando roupas de seda barata, relógios de quinta linha e CD`s piratas, para extrair do nada os trocados da sobrevivência vegetativa. Famílias inteiras jaziam ali, naquele universo absurdo e deplorável. Pai e mãe desempregados, cabelos e corpos ressequidos pelo sol escaldante, biscateando meias de nylon e pilhas de rádio, e os filhos, todos, na fila, em busca da única fonte de renda fixa, aquela capaz de assegurar o prato de comida, o passe do ônibus ou o remédio de raiz, genérico do genérico do genérico. Era o máximo que a situação possibilitava, um fugaz e efêmero flerte com o universo dos sonhos.

Deodato, impávido, como um soldado que tira vigília no posto de observação encravado no segundo andar do desvalido Hotel Luxor, observava os detalhes da vida comezinha que se desenrolava lá em baixo. Chamou a atenção o ritual da refeição miserável, entronizada no meio da rua, a vista de todos. As famílias, em cada vértebra da cascavel, se reuniam sem trocar palavras, sem permutar impressões, sem proferir orações, agradecimentos ou qualquer outro tipo de condolência. Uma cerimônia fria e indevassável. De um saco opaco do empório mais distante, extraiam os pães amanhecidos untados com óleo de cozinha, bolos bolorentos, iogurtes com data de validade vencida vendidos a preços módicos pela rede multinacional de supermercados, e faziam daquela mistura uma inhaca que descia goela abaixo a custa de quisuco de groselha e tangerina.

Terminada a refeição, primeiro se retirava o pai, apequenado, cabisbaixo, envergonhado, parceiro de um silêncio injurioso; e a seguir, partia a mãe, não sem antes acariciar os filhos com um beijo, um abraço, um olhar singelo ou um sinal qualquer de ternura e compaixão. As progenitoras partiam olhando para trás, sem conseguir romper o feixe de luz que conduzia suas visões aos rebentos amados, como se a todo instante se desculpassem pela miséria, pela humilhação, pela tragédia estúpida e imoral que - como um ralo sequioso, sugava diuturnamente o corpo e a alma de todos.

Deodato passava o dia na mesma posição, olhando da janela do quarto a serpente venenosa que não parava de crescer. Cruel serpente que se alimentava do que de melhor havia naquelas crianças espichadas, pré-adultos que ostentavam ainda os trejeitos da mocidade. A víbora inchava, rodopiando mais quarteirões, inchando voluptuosamente, engolindo a virilidade, a energia, a juventude, os cândidos ideais, as esperanças daqueles jovens nascidos para perder. Eram mais de setenta mil candidatos disputando sete vagas, sete escassas vagas para um emprego que remunerava o mínimo minimórum. O boato que corria a fila dava a informação que a empresa oferecia também vale educação, vale vestuário, vale sapato, vale refeição, vale saúde, vale dentifrício e vale camisinha. Mas a minúscula nota veiculada no jornal convocando os interessados ao emprego era clara quanto aos benefícios oferecidos: remuneração de um salário e meio e mais vale transporte. Os candidatos deveriam se submeter a um processo seletivo que incluía provas discursivas de inglês, português, matemática e duas baterias de testes de resistência física. Só a resignação ancorava aquele tormento, e ali permaneciam mais para desencargo de consciência. O pior era que se imaginavam os responsáveis por todo aquele calvário: os pais e eles próprios que não se esforçaram o suficiente, não se entregaram o necessário para escaparem daquele flagelo. Na fila do infortúnio estavam várias gerações de fracassados, todos os que sorveram o cálice da amargura.

Também Deodato amargava um fracasso, padecia um drama, sangrava uma dor. Em estágio terminal, já na ante-sala do purgatório, era agora um vassalo, um escravo da aid`s. Contraiu a doença da forma mais inusitada, através de uma seringa contaminada. Ao se apresentar no posto de saúde para vacinar contra febre amarela, a seringa que deveria portar o remédio, lhe introduziu o veneno. O próprio governo havia adquirido um lote de seringas contaminadas. Uma investigação independente comprovou que o fornecedor havia adquirido a mercadoria de um terceiro laboratório, que já havia recebido de um outro, que por sua vez comprou de um fabricante de ponta de esquina que recondicionava as peças descartáveis recolhidas em containers de lixo hospitalar, comercializando-as como novas.

A fatura restou para Deodato e outras três mil pessoas que se serviram do lote contaminado pelo vírus que descortinava o caminho para a morte, o mais íntimo mensageiro do velho da foice, seu mais fiel lacaio, seu mais abnegado servo.

Olhando a serpente ignominiosa, Deodato sabia que todos os setenta mil jovens que ali se martirizavam, de certa forma, também se encontravam na posição de aidéticos, zumbis em estágio terminal, despedindo-se da vida se não já fora dela. Todos comungavam o mesmo olhar distante e opaco, o mesmo silêncio aterrador, a mesma cabeça baixa, a mesma vergonha, a mesma desonra, o mesmo incesto, rigorosamente a mesma desesperança quanto ao futuro.

Os que tiveram como arrebanhar os últimos recursos partiram para os Estados Unidos, Portugal, Espanha, Austrália, Irlanda, Itália, Canadá. Lá, grande parte se prostituia fazendo sexo oral ou lavando defuntos insepultos. Os que não conseguiram partir, não encontraram alternativa que não fosse ficar para alimentar as serpentes do abismo, e serem tidos como excremento de cavalo e ratazanas de esgoto.

No novelo em que se embaralharam suas reflexões, Deodato queria acreditar que o futuro talvez fosse mais generoso e condescendente com uma nova geração, uma geração de bravos, de valentes, de homens impetuosos, arrojados e destemidos, de guerreiros intrépidos, imunes à demagogia política, de justiceiros audazes que fossem à farra acertar contas com os súcubos que não hesitaram em buscar nas trevas um sistema tão injusto e medonho. Mas isto era um sonho para o futuro, porque a sua geração se deixou triturar na máquina de moer carne. Agora não passavam de lingüiça na boca de cachorro sem dono. Meras lingüiças na boca de cachorro sem dono.

Banhado em lágrimas, João Deodato permitiu que a vida esvaísse suavemente. Se alguém, um familiar, um amigo distante, um desconhecido qualquer repentinamente rompesse a porta e se deparasse com a cena de despedida muitas vezes adiada, seria incapaz de imaginar que a dor febril que o moribundo sentia era pelos que ficavam, unicamente pelos que ficavam.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O DESTERRO, A CONQUISTA

Botticelli, Sandro - Primavera - 1482

Bezerra da Silva já não suportava o mormaço e a visão de sempre, a mesma paisagem amorfa e insossa das paredes encardidas do quarto insalubre em Tijuana. Estava ali havia uma semana, recluso, prisioneiro de seus projetos e vontades. Sete dias sem arredar pé, sem sair do quarto sequer para alimentar. Nem a janela permitiram abrir, de modo que o sol virou efemeridade e o ar, recluso como ele, sem fresta solitária para renovar, se tornara viciado, intragável, doentio.

No cortiço em que se empilhavam dezenas de minúsculos quartos, mal cabia a cama de solteiro. Nos cubículos se amontoavam pelo menos outros cem brasileiros, todos aguardando dia e hora em que seriam levados à tão sonhada fronteira.

Enquanto o comando não era dado, os dias transcorriam modorrentos. Nada oprimia mais que a infindável espera. Nada a fazer senão aguardar, esperar; aguardar e esperar, cadenciando a respiração para que a aflição e o desespero não resvalassem para a loucura. Às vezes o ímpeto era arrombar a porta e sair rua afora, correndo, se embebedando da mais inebriante liberdade, se embriagando com os raios do sol e as rajadas de brisa fresca. Mas a lembrança de tudo o que ficou para traz os recompunham aos olhos da sensatez e da prudência. Diziam da polícia mexicana horrores maiores que os que pairavam sobre a norte americana. Então, o bom senso recomendava quietude, determinava a paciência ilimitada dos monges tibetanos.

- Vó, vou fazer um pedido que envergonha, mas tenho que fazer – falou Bezerra da Silva num só fôlego para não perder a coragem, e completou antes que a ultima poção de ar lhe escapasse do pulmão. – Preciso que a vó venda o lote pra passagem, tenho que comprar de ida e de volta, é assim que funciona.

Desde a decisão de partir para os Estados Unidos, Bezerra da Silva iniciara uma obstinada poupança de recursos. Economizava tudo o que fosse possível, guardando até mesmo as ninharias e menores moedas. Rompeu o namoro com Brigit, a francesinha que seqüestrara seu coração, afastou-se dos amigos e de tudo que gerasse despesa, qualquer despesa. Passou a viver como um urso hibernado, economizando todo o dinheiro, toda a energia. Fazia até oito biscates por dia, e três horas por noite era o máximo que se permitia dormir. Trabalhou de garçom, segurança de boite, porteiro de hotéis baratos, guarda noite de banco, lavador de pratos, personal trainer, guia de cegos, malabarista de sinaleiro, fazendo o biscate que rendesse trocados. Vendeu sua coleção de gibis, depois a de CD’s e finalmente a de 387 DVD’s. Por fim vendeu a guitarra Fender, o único patrimônio que restara e que de fato importava.

Da mãe solicitou que vendesse a aliança de diamantes, presente dos trinta anos de casamento. Do pai obteve o dinheiro da venda de um relógio Tissot, herança que nas sucessivas gerações, passava de pai para filho. Até que reuniu forças para incomodar a avó, sempre solidária, sempre atenciosa com os que a procuravam. Chorou antes, no instante e depois de solicitar que vendesse o único patrimônio herdado do avô Ciríaco. A idosa matriarca, sem dizer palavra, foi até o quarto e de lá veio com a escritura do terreno.

- Enxugue essas lágrimas Bezerrinha, que estava mesmo guardando esse lote para você – disse, acossada pela idade, mas satisfeita por poder ser útil e auxiliar o neto amado na perseguição do sonho e das realizações.

O primeiro contato com o coiote se revestiu das piores impressões. O mexicano compunha a perfeita caricatura do bandido dos velhos filmes de bang bang. Franzino, sem os dentes da boca, perneta, e uma enorme cicatriz acima do supercílio direito. Ostentava na cabeça um lenço de pirata com a imagem de Che Guevara. Sem abrir a porta do quarto, falou do lado de fora. – Prepare-se que chegou a hora, e não esqueça que minha obrigação é só impedir que se percam no deserto – então deu o comando tão ansiosamente esperado. – Vamos embora.

Bezerra da Silva e quatro outros brasileiros desconhecidos foram embarcados numa Pajero preta e rumaram rápida e discretamente para a fronteira. O silêncio imposto permitia escutar a cadência acelerada de cada um dos corações ali expostos. Todos pura aflição. A ansiedade teria sido melhor tolerada se o coiote tivesse permitido que conversassem entre si, que trocassem impressões, compartilhassem os sonhos e expectativas, que desabafassem sobre a nova vida em que se aventuravam. Mas só permitiram respirar. E se tivessem encontrado forma de manter-los vivos independentes do oxigênio, teriam exigido que também parassem de respirar. O silêncio foi quebrado pelo coiote, que mais uma vez lançou mão de um portunhol quase indecifrável.

- Quem parar de caminhar fica para trás – e prosseguiu após uma pausa que pareceu eterna. – Se a polícia aparecer eu desapareço como um gavião e vocês vão direto para a cadeia.

Bezerra fizera todo o segundo grau na melhor e mais cara escola do Recife. O pai, economista há seis anos desempregado, vivia de bicos e biscates, movendo mundos e fundos para assegurar que as prestações da escola do filho permanecessem em dia. A mãe batia perna pelas repartições públicas, vendendo aos servidores empréstimos consignados em folha de pagamento. De modo que quando bombou no primeiro exame vestibular para medicina, os nervos caíram em polvorosa, crise aguda, e foi parar na Santa Casa de Misericórdia.

Na semana em que permaneceu internado, dividiu o quarto com Freitas Nobre, outro pernambucano, que acabara de retornar dos Estados Unidos. Nobre caiu com doze outros durante a travessia do deserto e permaneceu por três anos preso em Boston. Deportado, saiu da cadeia – sem escalas - para o aeroporto, onde embarcou para a viagem de retorno ao Brasil.

Foi na semana em que se recuperava do retumbante fracasso no vestibular que Silva incutiu na cabeça que deveria fazer a vida nas terras do tio San. E os dois anos seguintes passou como um ermitão, isolado de todos, com a única preocupação de poupar e angariar o dinheiro que materializaria o sonho.

Apresentava-se resoluto e confiante aos familiares. Nas aparências. Suas entranhas presenciavam as dores ocasionadas pelos acoites da indecisão. Atormentava-o a aproximação do dia em que teria de partir e deixar tudo pra trás, abandonando os que conseguiu conquistar, as relações que conseguiu edificar.

Mas quando viu estampada nas primeiras páginas dos jornais que o Banco do Brasil gastaria R$ 9,5 milhões de reais para patrocinar uma torcida de petistas às olimpíadas de Atenas, percebeu que nada mais havia a fazer no país.

Agora com vinte e três anos completos, desde os doze se fizera atuando no movimento estudantil, sempre militando na juventude do Partido dos Trabalhadores, participando das lutas e mobilizações populares, cujo ápice se deu com o impeachment de Collor e depois com a eleição do presidente, o companheiro, o operário metalúrgico, o intransigente defensor das classes trabalhadoras Luiz Inácio Lula da Silva.

Comemorou a vitória nas eleições presidenciais fechando por cinco dias a rua onde morava. Cinco dias do mais absoluto, intenso, alegre e festivo carnaval fora de época. Uma comemoração que atraiu gente dos bairros mais distantes, e chegou a ganhar as páginas dos boletins locais.

Mas logo se decepcionou com seu presidente. Parecia que, numa sórdida e maquiavélica conspiração, haviam substituído seu Lula por um outro, completamente diferente. Os ternos de sofisticado corte italiano, as bebidas importadas, a ostensividade dos charutos cubanos, deleite dos ricaços, os sapatos reluzentes, os discursos caminhando no palco qual pastor protestante ... não!, não!, definitivamente era uma outra pessoa, um sósia, um agente do serviço de inteligência de alguma corporação multinacional ou governo estrangeiro, jamais a histórica e carismática liderança que brandia bandeiras e propostas em favor dos desempregados e excluídos. O financiamento da excursão da torcida petista com recursos que deveriam se destinar aos pobres, famintos e miseráveis, foi a gota d’água que faltava para entornar sua vida.

-Já não tenho o que fazer aqui, tudo acabou para mim – disse Bezerra da Silva ao pai, ambos com os olhos marejados de lágrimas.

Quando a Pajero parou na fronteira, já os aguardavam dois outros coiotes. Desceram do carro ao mesmo tempo tensos e aliviados, pois que estavam prestes a pisar em solo ianque.

Todos se olharam e nos olhares se declararam, confidenciaram, trocaram palavras de coragem e conforto. Ali iniciava a etapa final da caminhada que os levariam ao encontro da sorte grande ou do azar fatídico do mais desconcertante fracasso.

Bezerra sabia bem o que o aguardava. Estudara nos mapas, revistas e livros os possíveis itinerários, as possíveis opções, e sabia que deveriam caminhar por todo um dia e uma noite para atravessar o deserto. E treinou com afinco, fazendo três horas de corrida acelerada, diariamente, nos dois anos de preparativos.

A caminhada era puxada pelos coiotes que seguiam na frente, puxando o comboio de almas estilhaçadas, derrotadas, refugiadas de guerra, mas esperançosas e ávidas por uma vida melhor e mais digna. Quando menos se esperava, num passe de mágica, invade os ouvidos o barulho ensurdecedor das pás golpeando implacavelmente o ar, depois os poderosos feixes de luz de holofotes esquadrinhando cada grão da densa areia, e finalmente a imagem terrífica de dois helicópteros gigantescos, devassadores, a imagem metálica da nave dos guardiões do inferno. Instintivamente todos se lembraram das instruções e lançaram-se abraçados ao chão, tentando fazer da moita de capim seco a casamata que os redimiriam.

Quando abriram os olhos, os coiotes tinham desaparecido; e os helicópteros, tão rápidos como apareceram, evaporaram na noite cerrada, com seus olhos fumegantes, deixando para trás um rastro de redemoinhos de poeira e orvalho.

Ficaram inertes por um tempo que pareceu décadas e mais décadas: atônitos, perdidos no meio do deserto, desesperados, sem um coiote sequer para guia-los. Os mercenários mexicanos estavam visivelmente embriagados e sob o efeito de drogas pesadas, mas antes isto que nada. Antes assim que o sentimento angustiante de estar perdido, sem qualquer opção, em plena escuridão, sem paredes para tatear, apenas um terreno arenoso e indecifrável sob os pés. O desconhecido, a completa e exasperante indecisão. Para alívio geral, tempos depois, enquanto mergulhados no desespero que só sabem os abandonados, os coiotes retornaram e a caminhada recomeçou mais intensa, mais forte, mais aflita e indefinida.

Na toada enlouquecida e desesperada, uma gaúcha, grávida de sete meses, implorava ajuda enquanto perdia o passo, ficando para trás sob os resmungos grosseiros e irados dos coiotes. A mulher se arrastava já entregue ao cansaço, até que se deixou ficar, inerte, envolta por arbustos de espinhos retorcidos. Todos pensaram ajuda-la, imaginaram socorrendo-na, quiseram-na dentre eles, estavam bem próximos da realização do sonho; depois de tudo, de tanto esforço, dedicação e sacrifício, chegar à ante-sala do paraíso e não conseguir adentrar... Mas não havia ali lugar para solidariedade piegas. Eram guerreiros, determinados, predestinados a vencer tudo e todos; deixaram para trás os mais secretos desejos, ansiedades e realizações, abriram mão dos sentimentos mais profundos, do carinho da família, do afago dos amigos, se estupraram infinitas vezes, seguraram o açoite que ulcerou suas costas, nada os afastariam da vitória. Nem mesmo uma santa grávida poderia desvia-los da rota traçada. E seguiram incólumes, todos, numa toada ainda mais forte, assumindo agora eles próprios a dianteira do comboio, obrigando os mexicanos a expirar suplicas de “devagar, mais devagar, não precisa ser tão rápido”.

Já lá na frente, Bezerra da Silva se voltou abruptamente, e disparou em frenética correria. A gaúcha mal conseguia manter-se com os olhos abertos. Com cuidado, fez com que montasse às suas costas e foi, de novo correndo, juntar-se aos demais.

Quando rompeu a madrugada, viram os clarões das luzes que a cidade irradiava. Toda a aflição, medo e cansaço foram lavados por aquela simples visão, uma cidade que ainda iluminada despertava para o dia que raiava. Estavam diante do sonho da vida nova, estavam cara a cara com a vida nova, fitando-a nos olhos, no fundo dos olhos, pressentindo as intenções e pensamentos. E se viram felizes como jamais experimentaram. Silva se lembrando da passagem bíblica, bateu três vezes, com força, os pés no chão do deserto. Nem a traição de Lula, nem a traição dos coiotes mercenários que os obrigaram a rastejar qual vermes desprezíveis, os impediriam de conquistar o chão norte americano, nada e ninguém os impediriam de conquistar a vida, ainda que no desterro, no exílio.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro


  
 1945. A segunda grande guerra que varreu o Planeta acabara de terminar, deixando um rastro de 50 milhões de mortos.

   De São Paulo, cinqüenta famílias japonesas pertencentes à Seita Shindo Renmei – Liga do Caminho dos Súditos, resolveram fugir para o interior do cerrado.

   A seita era alvo de aguerrida perseguição. Implacavelmente, a polícia combatia seus integrantes em virtude dos assassinatos promovidos contra os que reconheciam como verdadeiras as notícias dando conta da derrota do império japonês.

   A Shindo Renmei era uma organização secreta que exercia forte influência ideológica sobre a colônia nipônica radicada em São Paulo, mas diluída também nos demais estados brasileiros. Com estruturação paramilitar e radical difusora das milenares tradições japonesas, a Liga do Caminho dos Súditos afirmava que a notícia sobre a derrota dos países do Eixo não passava de propaganda enganosa, produzida pelos países aliados. Na realidade, as ondas de rádio da BBC de Londres, divulgando ininterruptamente a rendição japonesa, não passavam de artifício rasteiro para minar o inquebrantável moral dos saldados leais ao imperador, contra-divulgavam os líderes da Shindo. E passaram a perseguir e assassinar todos os integrantes da colônia nipônica que ousassem acreditar nas notícias emanadas da rádio londrina. Para os militantes da seita radical, era inadmissível duvidar da invencibilidade nipônica, ostentada em mais de 2600 anos de sucessivas vitórias, sem que o país tivesse perdido uma guerra sequer.

   A Shindo preparou então seus esquadrões de matadores – os tokkotai - e foi à caça dos que acreditaram na vitória dos países liderados pela Inglaterra, EUA e URSS. Assassinaram quase 30 imigrantes, deixando feridos mais de 150.

   A reação da polícia não demorou. O DOPS paulista encarcerou mais de 30 mil suspeitos e não menos de 400 foram condenados a penas que variaram de um a 30 anos de cadeia.

   Por interferência direta do mais alto dirigente da República um decreto presidencial deporta, para o Japão, 80 integrantes da seita. Todavia, no indulto do Natal de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek colocou todos em liberdade, imaginando estar virando uma página negra da história contemporânea brasileira.

   Com a generosidade do ato, o presidente mais popular dentre todos já havidos, imaginou ter lançado uma pá de cal sobre a tragédia que assolou os 200 mil imigrantes japoneses. Ninguém percebeu - nem os serviços de inteligência das três armas - que 50 dos maiores dirigentes e matadores da Shindo Renmei, migraram, com suas famílias, para o interior do cerrado brasileiro.

   No mínimo dois membros de cada uma das famílias que agora fugia para o Planalto Central, foram impiedosamente torturados e mortos nos porões do DOPS paulista. Providencialmente, a polícia permitiu que poucos sobrevivessem à tortura, com o único objetivo de que – libertos – relatassem na colônia, as técnicas brutais de martírio e suplício. Afogamento, choque elétrico, estupro, pau de arara, garrote vil, simulação de fuzilamento, retirada de órgãos do corpo, era o mínimo que ocorria nos porões das delegacias de polícia.

   Primeiramente as famílias vagaram a esmo pelos portos do Rio de Janeiro e Santos, esperançosos em encontrar os prometidos navios japoneses que os levariam de volta à nação do sol nascente.  Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar.

   O local era de dificílimo acesso, habitado por descendentes de escravos, os quilombolas. Se o inacessível lugar conseguiu assegurar liberdade aos negros, assegurou também – por outro lado – completo isolamento aos remanescentes de escravos. Foi como se o tempo tivesse congelado. Os negros quilombolas, descendentes dos primeiros africanos que aqui aportaram, adentraram o século XXI vivendo como se estivessem em 1746.

   Os quilombolas, de início, estranharam aquela gente de olho puxado que se mantinha arredia a qualquer tentativa de aproximação. Mas souberam compreendê-los e não criaram problemas. Sabiam que para estarem ali - naquela terra tão inóspita e inacessível – deveriam estar sendo vítimas de implacável perseguição. E disso conheciam como ninguém. Por isso, os afro-descendentes respeitaram a dor de seus mais novos e únicos vizinhos, permitindo-os curtir em paz o isolamento escolhido.

   Nas 50 famílias que agora dividiam com os quilombolas as serras inóspitas, havia mais de 30 cientistas. Eram pesquisadores famosos no Japão, respeitados e venerados pelo número de descobertas e invenções, sobretudo nas áreas da engenharia militar e da biomedicina.

   Cinco desses cientistas foram os que desenvolveram o avião de caça militar Zero, que tantas baixas infligiram aos aliados nas homéricas batalhas aéreas travadas nos céus do Pacífico. Mas a maior parte dos cientistas migrantes orientava suas pesquisas para a área da engenharia genética.

   Na China, quando o país estava subjugado pelo Japão, aqueles cientistas integraram o grupo que perpetrou todo o tipo de experimentações, utilizando seres humanos como cobaias, notadamente crianças e mulheres chinesas. Como receberam carta branca do imperador e do alto comando militar japonês, não havia impedimento ou limitação - fosse ético, moral ou religioso – à experimentação científica. A completa inexistência de limites levou ao sacrifício de 600 mil mulheres e de 1 milhão de crianças tragadas por experiências genéticas mal sucedidas.

   Quando o grupo chegou a São Paulo, trazia expertise suficiente para abrir uma nova frente na pesquisa embrionária. Deram origem à partenogênese, técnica científica através da qual um ser vivo nasce a partir de um óvulo sem, contudo, haver fecundação.

   O objetivo traçado consistia em conquistar o absoluto controle sobre a reprodução humana, de modo a gerar tão somente seres plenamente saudáveis, com biótipos pré-determinados e já com o ordenamento cerebral estabelecido para a obtenção da máxima performance, do máximo fator de inteligência. Os cientistas não mais toleravam a casualidade dos relacionamentos do homem com a mulher que gerava filhos imprevisíveis, às vezes com ótima desenvoltura física, mas inadequado desempenho cerebral; outras vezes com alto desempenho cerebral, mas capacidade física comprometida. Muitos marginais e criminosos foram criados em berço de ouro, tiveram formação rígida, pais devotados, relacionamentos seguros e confiáveis – condenavam os pesquisadores de olhos horizontais.

   Era então necessário fugir a esta lógica de incertezas e adentrar à lógica da previsibilidade matemática, rigorosamente exata, em que saberiam gerar filhos vitoriosos, física e mentalmente saudáveis, os únicos admissíveis, aceitáveis, aptos a conduzir o império japonês a um novo ciclo de conquistas e glórias.

   Desde sempre, os cientistas japoneses consideraram o pleito de todo realizável, porque a partenogênese existe em profusão na natureza. Ocorre nas abelhas e formigas que conseguem procriar por esse método solitário, sem que haja a necessidade da presença dos dois sexos para a fecundação do óvulo. Não por acaso, uma abelha rompendo o sol nascente era o símbolo da seita nacionalista, escolhida, dentre outras razões, pela impecável organização, estruturação hierárquica militar, e capacidade de reprodução pela partenogênese.  

   Contudo, se a partenogênese ocorre com extrema naturalidade no meio ambiente, nos mamíferos jamais sucedera. Caso conseguissem emplacar o método em seres humanos, como intentavam, estariam os cientistas asiáticos revolucionando a biologia reprodutiva.

   Se para todo o mundo científico a tentativa soava aventura ficcionista e lunática, para a seita, revolucionar a Ciência com a comprovação da pesquisa em fase conclusiva, era questão de dias, semanas quando muito. Para chegar a esse estágio, muito contribuiu o fato de terem substituído, nos laboratórios, camundongos, lagartos e chipanzés por crianças e mulheres chinesas capturadas quando da guerra entre a China e o Japão.

   Das 1 milhão de crianças chinesas sacrificadas, quase a totalidade ocorreu por terem nascidas defeituosas, com todo o tipo de disfunções: algumas com cinco olhos, outras com várias cabeças, muitas sem tronco, só braços, pernas e cabeça.  Houve um grupo de milhares de crianças, cada uma com treze línguas, treze olhos, treze ouvidos, treze camadas de pele, treze narizes e nenhuma célula no cérebro. Um outro “lote”, originou crianças com a cabeça cujo diâmetro media 1,05 metro. Certa vez se debruçaram sobre uma encomenda do Comando Supremo do Exército Imperial Japonês. Produziram 87 exemplares de uma espécie destinada a ocupar o lugar dos kamikases nos aviões-bomba, nas aeronaves destinadas a explodir conjuntamente com os alvos dos países aliados. A espécie era um mutante constituído unicamente de uma minúscula cabeça, não maior que uma laranja – seu cérebro só comportava as instruções para a missão militar – e dois fortes braços para segurar o manche do avião, de modo a arremetê-lo, com precisão, em direção ao alvo determinado.

   A eclosão da 2a. Guerra Mundial obrigou os cientistas da Shindo Renmei a redirecionar os experimentos para a indústria armamentista, deixando em segundo plano as pesquisas genéticas, o que comprometeu sobremaneira o cumprimento das metas estabelecidas para área.

   O golpe quase de misericórdia ocorreu quando os paises do Eixo amargaram a derrota militar. Humilhados e derrotados, os cientistas tiveram que se haver por conta própria, sem a proteção do Império e de sua rede de apoio e financiamento.

   Sozinhos, largados no mundo, caçados pelo serviço de inteligência militar dos EEUU e URSS, passaram a vagar, disfarçados, pelo mundo. Os que caiam, capturados, eram de imediato integrados à elite dos cientistas dos países que, agora, se constituíam nas novas superpotências hegemônicas. Seus crimes foram ignorados e passaram a gozar de todo tipo de privilégios como nova cidadania, altos salários e posição social.  O único preço cobrado foi que se dedicassem ao extremo – e com exclusividade - para elevar suas novas pátrias ao ápice das conquistas científicas e tecnológicas, e naturalmente, que renegassem inteiramente a antiga nacionalidade japonesa.

   Os cientistas que conseguiram se refugiar no Brasil imaginaram que a distância dos grandes centros os manteriam protegidos, condição essencial para a retomado das pesquisas genéticas, por tanto tempo obstaculizadas. Era vital que assim fosse. Dar prosseguimento às pesquisas significava resgatar da humilhação o heróico povo japonês.

   Mas novamente a descoberta das atividades secretas da Liga do Caminho dos Súditos os colocaram na mira da polícia. Mais: quando se certificaram que o imperador havia mesmo capitulado, assinando uma rendição que consideraram humilhante, intitularam como traidores da pátria Hiroito e todos os generais japoneses. Envergonhados, abriram mão da cidadania japonesa, deliberando constituir uma nova nacionalidade, uma nova raça, a partir do marco zero, baseada na interação do que de melhor identificaram na raça japonesa com o que de mais interessante conseguiram destacar nas demais raças, incluída aí a brasileira.

   Por isso a pressa em dar continuidade às pesquisas. A meta agora era outra, constituir, a partir das 50 famílias originárias, uma nova raça que, em curto prazo, dominaria o cerrado, o Brasil, a América Latina e depois o mundo.

   Nos rincões do planalto central, protegidos pelas muralhas naturais das serras escarpadas, abrigados pelo mais completo e solitário isolamento, iniciaram a conquista da nova missão.

   Do japonês aproveitariam o cérebro, a inteligência e suas tradições culturais milenares. Não existia no mundo nacionalidade com cultura tão rica e singular, caracteristicamente disciplinada, componente fundamental da nova raça que deveria conquistar o mundo. A presença dos quilombolas nos arredores era por demais providencial. Os negros guardavam ainda as nobres características dos africanos de 1.500. Braços longos e fortes, pernas rígidas, corpo musculoso, esguio e bem torneado, além das habilidades guerreiras adquiridas em séculos de resistência ao trabalho escravo. Não sabiam ainda o que extrair dos brasileiros brancos, miseráveis que perambulavam pelas cidades em busca de oportunidade e emprego.

   Como o objetivo primordial era conceber a raça superior, acabaram se contentando em extrair dos brasileiros tão somente a característica espacial. “O fato das pesquisas se realizarem aqui é mais que suficiente para contemplar a nacionalidade brasileira” sentenciaram. Revestidos com esses pressupostos entenderam que o arranjo emprestaria ao novo homem especial proteção, de sorte a não emergir maculado, eivado de vícios e defeitos.

   Não demorou e o século inteiro de suor e esforços no campo das ciências pura e aplicada resultou em retumbante êxito. Os cientistas conseguiram equacionar os problemas até então insolúveis, e todos foram chamados a conhecerem os 100 primeiros bebês originados pela partenogênese. A maior das maiores dentre todas as realizações humanas.

   Em êxtase, todos os presentes se converteram em lágrimas. Estavam diante da nova era. Afinal, estavam a testemunhar a criação de um novo mundo e, orgulhosos, perceberam-se Deus, pois que desvendavam os mistérios da criação.

   Ali estavam 100 bebês absolutamente maravilhosos, inteligentes e saudáveis. Beleza inigualável; resistência física que os imunizavam contra todas as enfermidades, inclusive câncer e Aids; e inteligência descomunal, só possível de ser alcançada pelos demais humanos nos anos de 3.005. Em homenagem aos antepassados, a safra de bebês sobrenaturais, a safra dos primeiros super-homens, foi denominada tokkotai.

   No momento em que a descoberta foi revelada, os membros das famílias japonesas que em 45 haviam migrado para o cerrado, estavam todos velhos, enfraquecidos, muitos morrendo. E a velhice – quando prestes a anunciar a morte iminente - é senhora da razão, de modo que os princípios primeiros, aqueles que os levaram a se esconder qual escravo fugitivo, foram alterando com o tempo.

   O tanger dos anos, além das marcas indeléveis que empresta à vida, costuma distribuir também equilíbrio e generosidade. O radicalismo nacionalista, a ideologia imperialista, a arrogância autoritária, tudo isso foi sendo, paulatinamente, carcomido pelo tempo. Continuavam sonhando em dominar o mundo, mas agora para disseminar outros princípios: ética, liberdade, democracia e justiça social.

   Apesar de isolados, os raros, efêmeros e fugazes contatos mantidos com os brasileiros do planalto central os fizeram  conhecer uma atroz realidade. Descobriram a capacidade do populismo, do messianismo, da miséria e da injustiça darem conformação a uma sub-raça de humanos, uma sub-raça de viventes, uma sub-gente tão sofrida que as características da espécie já lhes escapavam. Paulatinamente, os japoneses foram percebendo que todo o Brasil estava mergulhado num pérfido sistema em que ao povo restava o papel de boiada a ser tangida, massa ignara a ser manobrada.

   Em todos os milênios jamais haviam se deparado com algo parecido: a descomunal riqueza produzida pela nação estupidamente apropriada pela malta de canalhas e ratazanas, uma casta dirigente cruel e sem caráter. 

   Reprogramaram, então, as metas, e o grande objetivo mais uma vez sofreu inflexão: perseguir – a todo custo – o desenvolvimento sustentável, alcançar um sistema que equilibrasse as necessidades humanas com preservação da natureza.

   Imediatamente, os 100 bebês foram encaminhados para todas as partes do País. Em 25 anos estariam dominando as mais relevantes esferas do poder político brasileiro, nas esferas do executivo, legislativo e judiciário.

   Nesse ínterim, estaria sendo despachada a segunda remessa – de mais 300 invencíveis bebês – para o restante do mundo, de modo a se repetir o ciclo justiceiro no Planeta.

   Quando, porém, a primeira safra dos super-bebês da nova era atingiu a idade adulta e já gerenciava, com inusitada desenvoltura, os altos cargos da república, Tokuiti Eiit Sakane, o ultimo remanescente vivo das 50 famílias que haviam migrado para o cerrado, chorava copiosamente.

   Alguma coisa na experiência - não conseguia identificar o problema - saíra errado. O homem criado para construir a nova história adquiriu no percurso um vício horrendo, terrífico, que aniquilava irremediavelmente, qual chaga invasiva, o planejamento para o novo mundo. Todos, invariavelmente todos, enveredaram para os subterrâneos do clientelismo, tecendo loas à corrupção, à politicagem e ao jogo de interesses.

   Conquistado o Poder, envolveram-se em negociatas, chantagens, conspirações, desvio de recursos públicos, tráfico de drogas e guerrilha urbana, jogatina e prostituição. Chegaram a criar bancos oficiais, unidades federais e estaduais, cuja principal função era promover jogos, surrupiando do povo os parcos trocados que mal chegavam para pagar o pão amanhecido. De ícones da nova era, tornaram-se ícones do narco-terrorismo.

   Os tokkotai - batalhão em sua segunda versão criado para redimir o mundo - como que resgatando as origens históricas, dos idos de 45, transmutaram-se em paladinos da injustiça, em matadores de aluguel, jagunços de fraque, empresários, políticos e personalidades que ostentavam suas Ferraris, Harlley Davidsons e iates luxuosos. Atuavam com tal desenvoltura que passaram a ter ascendência sobre os demais cidadãos bem, sobre os que levavam suas vidas de maneira justa e honesta. Eram dotados do poder da oratória, com o que desvirtuavam pensamentos, ideários e a ação política de religiosos, lideranças e parlamentares que procuravam levar a vida de uma forma correta.

   Escapava à compreensão do povo simples e humilde o fato de políticos sérios, tão logo eleitos, passarem a defender tudo o que, por toda a vida, haviam combatido. Passavam a considerar aliados e companheiros, uma corja de feudais que, até bem pouco tempo, repugnavam, classificando como sanguessugas e canalhas. As instituições financeiras internacionais, que antes responsabilizavam pela fome endêmica do povo, agora eram tidas como parceiras privilegiadas, idolatradas, a quem generosamente, entregavam as riquezas do País na forma de juros escorchantes, num volume jamais visto em toda a história da humanidade.

   Sakane, antes de se recolher, tivera o cuidado de conversar, por horas a fio, com Toshiko Shinai, a única dentre todos os super-seres que permitiria sobreviver. Estava já mulher formosa, estonteantemente bela, pele morena, cabelos longos ondulados. Detalhou os sonhos primeiros da colônia, os problemas havidos na travessia, detendo-se sobre a missão que a única sobrevivente da nova raça deveria perseguir. Vagaria como um ronin, um samurai sem senhor, à caça de cada um dos 99 tokkotai encastelados nas instituições da República. Deveria exterminar todos, livrando os brasileiros da fonte da corrupção e do entreguismo.

   Após tudo acertado, liberou-a para a missão solitária. Pode vê-la ainda de relance, como um bólido, saindo em direção a Brasília, onde iniciaria o justiçamento.

   Tokuiti Sakane não conseguiu dormir. Resoluto, atravessou o silêncio denso da madrugada esquadrinhando a névoa seca e fria. Ativou, em cada um dos 27 laboratórios, uma bomba sub-atômica. Repetiu o procedimento em todas as casas, alojamentos e instituições edificadas pela colônia japonesa. Quando o sol anunciava desvirginar o que restava da noite, programou o mecanismo para que tudo explodisse no minuto seguinte. Era preciso destruir tudo. O povo brasileiro levaria dezenas de anos para se livrar dos tokkotai infiltrados em todas as instituições, públicas e privadas, do País. Urgia não perpetuar o mal. Era imperativo estancá-lo.  

   Enquanto contava o correr do minuto fatal, Tokuiti, passava a vida. Em fração do segundo relembrou a infância, o casamento, os sete filhos, as guerras contra a China e contra os aliados, a tortura no DOPS de São Paulo, a fuga para o planalto central, a esperança de um Japão imperialista e invencível, substituído pelo sonho de um Brasil melhor e um mundo mais justo para todos, as lideranças políticas brasileiras abduzidas pelos tokkotai...                         

   Antes que a explosão eclodisse, levou o revolver à cabeça e desferiu o tiro fatal. Não esqueceu, no furor dos pensamentos, de implorar desculpas aos brasileiros, povo que generosamente assentira em dar guarida à sua gente em fuga.  Como num capricho da natureza, as rajadas de sangue decorrentes do tiro chapiscaram a parede branca do quarto, ali desenhando a figura de um portentoso sol nascente, como desejando iluminar as trevas que tornavam os dias, noites...

Rodoux Faugh