segunda-feira, 15 de setembro de 2014

As mãos que tecem o tecido são as mesmas que tecem o amanhã






Ainda que pareça tarde
Ainda que insistam ser tarde
Ainda que o tempo se apresente como tarde
Jamais esqueça que as mãos que tecem o tecido

São as mesmas que tecem o amanhã  

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A lei e a república




A impunidade é a mãe da delinquência, da mais desprezível pandilha

Impossível a criação de cidadãos caldeados no clientelismo

Como o aço - é no empreender, na independência e no fogo purificador do saber que são estruturalmente forjados os homens de bem

Não prevarique e não licencie

Se abstenha de torcer a justiça

Desdenhe o favoritismo e manifeste aos brados plena guarida à lei

Faça-a respeitável e a respeite com reverência

A lei

A mesma lei

A mesma lei para todos

denunciando os que tornam alguns mais iguais que outros

os que professam fé e emprestam ares de princípio ao aleive Aos amigos tudo, menos a lei; aos inimigos, nada, nem a lei”.

As oportunidades, universalize!

A coisa pública, democratize!

A res pública, consolide!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Mandela, o doce guerreiro que tece poemas à verdade




O Senhor partiu

Seguiu em direção ao azul mais límpido e cintilante

E seguiu com a simplicidade e os trejeitos singelos e humildes dos virtuosos

Seguiu da forma que sempre fizera na terra dos ímpios: resoluto, confiante, altivo...

Destemido, foi elevando o frágil corpo

passo a passo, vencendo a misteriosa neblina que emoldura o paraíso

O que mais poderia, o Senhor, temer?

Já não enfrentara, em terras africanas, as trevas e as barbáries dos homens-hienas?

Já não houvera sangrado a dor da injúria, a humilhação do açoite?

Já não conseguira desnudar a cantilena e a falácia dos messianistas que tomam gente por manada para conduzi-la a desertos inóspitos

Já não conseguira desmascarar demagogos-revolucionários que tomam gente como boiada para trancafiá-la na ignorância, na servidão?

O que mais poderia, o Senhor, temer?

Bradou pela liberdade e democracia,

Cantou pela independência e justiça

Dançou por oportunidades iguais

Nada de emular o confronto, nada de estimular a desgraça, nada de enaltecer a vingança, nada de rezar racialismo

Não... o Senhor abraçou o ideário do pacifismo

Acalentou o perdão e a convergência

Ignorou o miasma nauseabundo que exala do passado

E fixou os olhos de lince no quadrante futuro, no amanhã que purga os erros e liberta... liberta

Sim, o Senhor se apresenta ao Senhor... e não se envergonha...

Divertem-se,

Os céus celebram em festa

Os Senhores cantarolam as canções dos justos,

Entoam os compassos dos valentes,

Desenham a escrita dos que tecem poemas à verdade




segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sobre o olhar angelical




O pai de Santo Cleomar Patrício, indignado com o sofrimento e a dor da gente simples do lugar, resolveu radicalizar. Já não conseguia confortar milhares de pessoas que acorriam de todos os rincões da terra, em busca de cura para os males do corpo e da alma. Era uma gente simples, mas angustiada, carente de paz, carinho, conforto e abrigo.

Cleomar Patrício, o médium espírita mais famoso das redondezas, resolveu que doravante não mais se permitiria incorporar caboclos, caciques e garotinhos peraltas, espíritos que erravam por seu terreiro de umbanda. Estava inconformado com o que considerava certa sonolência dessas potestades que aconselhavam e orientavam os fiéis apenas sobre trivialidades, mas sobre a vida dura e injusta que levavam, sarcasticamente contemporizavam. Os freqüentadores, pacientemente, não arredavam pé do Centro Espírita. Multiplicavam as preces e variavam infinitamente as oferendas, e ainda assim não conseguiam romper o círculo de miséria, injustiça e sofrimento que as consumiam.

Por isto, o médium querido de todos era um poço de revolta. Indignava-se com o tratamento fleumático que as entidades dispensavam à sua gente. Iniciou queixando-se a elas na intimidade das orações. Como permanecessem impassíveis aos seus clamores, passou a discutir asperamente, em público, lançando-lhes palavras ácidas, impropérios, insultos, tratamento incompatível com seu temperamento, sempre afetuoso e fraterno. Foi quando resolveu se impor de forma categórica. Nas sessões espíritas, só permitiria em seu corpo incorporar entidades com compromissos sociais, que ostentassem um passado de lutas revolucionárias, que a vida tivesse sacrificado em virtude de causas nobres e populares. Preferencialmente, que as pelejas travadas as tivessem projetado para além mar. Daria as costas mesmo à sondagens de personalidades cuja importância não fosse peremptória na historia revolucionária.

Esperava assim corresponder, com maior apreço, às expectativas daquela gente abandonada, cujos sonhos fragmentaram-se no dia a dia entrecortado por aflições e agonia.

Para enfrentar o novo desafio, mergulhou com profundidade nas pesquisas e investigações científicas, esquadrinhado a vida das personalidades que disponibilizaram suas vidas à defesa dos fracos e oprimidos. Conheceu a história dos povos, a formação das nacionalidades, o perfil dos justiceiros leais ao ideário libertário. Investigou todos os movimentos brasileiros se detendo com especial interesse na Guerra de Antônio Conselheiro e na de Zumbi dos Palmares. Adentrou as revoluções francesa e mexicana, reviveu, de 1917, a esperança soviética, cerrou fileiras com Solano Lopes nas suas incursões pela América Latina. Padeceu com árabes e indianos o domínio colonialista inglês e sorveu o cálice da amargura com os judeus, ciganos, negros e comunistas, vítimas preferenciais da sinistra repressão nazista. Aliou-se com bravura aos vietnamitas e iraquianos, vítimas da insanidade norte-americana. Desnudou os meandros das ciências políticas e pode compreender os ardis, a teia de armadilhas que as elites invariavelmente lançam mão para manter o povo, por todo o sempre, na escravidão medonha da ignorância, sem acesso ao conhecimento, ao largo do saber.

O Pai de Santo Cleomar Patrício transformou-se, mudou completamente. Emergiu dos livros e das investigações como um homem renovado, renascido das cinzas, estuário de tudo o que a humanidade conseguira reproduzir de mais nobre e justo na face da terra.

No ponto que julgou estar preparado para a nova missão, fez correr na cidade e região a notícia de que o Centro Espírita Raio de Sol, passaria a denominar-se Irradiação Revolucionária Espírita Cristã Raio do Sol. E que seu terreiro seria, a partir de então, morada de todos os heróis e mártires que dedicaram suas existências à defesa de um mundo melhor e mais justo para todos.

Escolheu o dia de Nossa Senhora de Aparecida para reinaugurar o Centro Espírita e surpreendeu-se com as cem mil pessoas que apareceram, se comprimindo na gigantesca área que se fez diminuta, tamanha a quantidade de homens e mulheres de todas as idades: crianças, moçoilas, idosos, pessoas que acorreram de todos os rincões da terra. Lá estavam seus fiéis seguidores, abnegados sofredores, desiludidos do amor, donas de casa e desempregados, todo o que portava um mal qualquer, na alma ou no corpo tísico.

Dado o volume e a quantidade de pessoas presentes, fez instalar quatro telões e uma imponente aparelhagem de som, assegurando a todos que participassem sem grau sequer de dispersão.

Com o microfone e do alto do palco especialmente construído para a ocasião, Cleomar Patrício resolveu submeter à escolha dos fiéis, a entidade que deveria, naquele importante dia, abrigar, incorporar. Como desejasse fazer uma singela homenagem à gente brasileira, ofereceu como opções o nome de Joaquim Silvério da Silva Xavier, o Tiradentes, bem como o do valente negro Zumbi, do quilombo que se denominou Palmares.

Mal colocou a questão em votação, a gente compactada em uníssono já clamava por Ernesto Che Guevara. Não que conhecessem amiúde a obra do revolucionário latino-americano, ou que – ainda que tangencialmente – se encantassem com seus ensinamentos sobre soberania popular. Escolheram Che simplesmente porque enxergavam no argentino que se fez cubano um olhar predestinado, profundo, que irradiava, com igual intensidade, esperança, dor e inconformismo. Nas gravuras apresentava-se com o mesmo olhar cândido, angelical e imaculado do menino Jesus.

De nada valeu Cleomar recolocar a questão em votação, enfatizar que só figuravam no páreo Tiradentes e Zumbi dos Palmares, os únicos imortais disponíveis para aquela solene sessão espírita, aliás, já devidamente preparados para a materialização no pai de santo. Argumentou que Guevara, como não cogitara de ser evocado, estava indisponível, em lugar ermo, inalcançável por sua imantação imaterial e que exorcismo algum poderia desobstruir seu corpo para receber o espírito do comandante de Sierra Maestra. Porém, a cada argumentação do aflito médium, mais e mais a platéia de devotos se esmerava em ovacionar o nome de Che.

Circunspectos, os médiuns auxiliares ficaram ressabiados, amuados, desolados. Sabiam que a incorporação de Guevara - pelo pai de santo - seria de todo possível, mas as conseqüências, não restavam dúvidas, seriam catastróficas. Ocorrera em algumas sessões secretas realizadas no mês anterior. Quando experimentavam as novas técnicas de atração de mártires e heróis populares, Che baixou no terreiro brandindo seu fuzil. Trêmulo, vociferava contra Fidel Castro, acusando-o de ter cristianizado sua imagem de guerreiro valente e intrépido, estampando seu rosto com ares angelicais em camisetas, botons, chaveiros e bugigangas venais. Não era esta a imagem que Che gostaria de ter deixado. De tão possesso, chegou a cuspir fogo e exalar fumaça pelas narinas. E concluiu antes de se recolher ao espaço etéreo onde habitam os espíritos: “...fôda-se Fidel filho da puta!, eu sou guerrilheiro, matador e não souvenir”.

E isto, os médiuns ali presentes temiam se repetir.

Não houve como afrontar a manifesta vontade popular que clamava em uníssono. Se a voz do povo é a voz de Deus, então que se fizesse a vontade divina, que fosse evocado Ernesto Rafael Guevara de la Serna, o Che.

Sem mais alternativa, Cleomar Patrício se acercou dos auxiliares, vestiu-se com a indumentária e adereços propícios à liturgia e exigiu concentração, absoluto silêncio.

Quando tambores e atabaques soaram a toada africana, as baianas iniciaram as danças ritualísticas e as cânticos de origem africana. Já sem o domínio de si, o santo médium emitindo sons guturais mistos de grave e agudo, desenhou, no espaço, majestoso salto que João do Pulo imaginaria impossível executar. Ao pousar do vôo sideral, o preto velho se estatelou no chão de terra batida, levantando a poeira de cem mil megatons. Mas caiu altivo, mantendo os gestos nobres, plásticos e esculturais. Caiu e bradou com a voz inconfundível dos revolucionários, com carregado sotaque castelhano: “só a força do povo é capaz de conduzir nossa história a um leito de justiça e progressistas realizações”.

A plenária de fiéis exultou de plena satisfação. As palavras – poucas, abusando da parcimônia - caíram na exata medida para comprovar que a cidade galgara a posição de único estuário do universo capaz de resgatar os gloriosos libertários da humanidade, os homens deuses que distenderam o mundo e o fizeram mais nobre e generoso.

Mal reproduziu a frase de Che, o preto velho desmaiou. E a multidão, satisfeita, recolheu-se ao seu muquifo, sem mais nada pedir, sem mais uma prece rogar, com o coração repleto da mais intensa e soberba energia cívica e democrática.

A notícia correu o mundo. No dia seguinte, repórteres de todas as agências de notícias lá estavam, repercutindo o fato mais importante e pitoresco do século.

A classe empresarial - se locupletando com o incremento nos lucros advindos do negócio natural da cidade, o turismo religioso - logo homenageou o preto benzedor com a inauguração, no Paço Municipal, de um monumental busto de bronze polido incrustado de pedras preciosas. O prefeito, sem ter onde aplicar as receitas municipais, eneplicadas no estalar dos dedos, passou a distribuir dinheiro em espécie para os remediados, porque pobre já não existia naquelas paragens.

Tudo na cidade corria maravilhosamente bem, como se num conto de fadas. Até os evangélicos, originalmente indignados com o novo perfil da cidade, agora exalavam incontida satisfação com os lucros estratosféricos decorrentes da comercialização de pó de terra e poções de água que, diziam, recolhidos na longínqua terra santa de Jerusalém, mas que iam extrair – apenas os pastores sabiam - nos loteamentos baldios da vizinhança.

Contudo, para Cleomar Patrício e seu grupo de médiuns auxiliares, a preocupação importunava, apoquentava. Só eles conseguiam vislumbrar no céu uma nuvem densa e escura a encobrir todo o terreno onde se situava a Irradiação Revolucionária, como a denunciar a grande tragédia que se anunciava.

Fidel Castro foi informado, com riqueza de detalhes, das aparições nos rincões ermos do cerrado brasileiro. E bem sabia, por tudo que compartilhou com o antigo camarada de guerrilha, que não só as aparições como os desaforos que Guevara lhe dirigia, eram mais que verdadeiros. Sabia que a jornada de Che pelas artérias da América Latina, logo após a vitória revolucionária em Cuba, era na realidade uma fuga desesperada para escamotear as inconciliáveis diferenças que crescera entre ambos. Já nos tempos da guerrilha quase tudo os separavam. A forma como conduzir a revolução, a conexão com os soviéticos, as relações de comando e hierarquia... apenas quanto aos pelotões de fuzilamento, às execuções sumárias e à repressão política onipresente – aprimoradas dos métodos da KGB - concordavam plenamente.

Não tinha dúvida, o ditador cubano, que uma nova aparição de Guevara, uma nova incorporação na pele do Pai de Santo brasileiro, e sua ilha explodiria em chamas e revoltas, com o povo dando fim a décadas de fome, repressão e totalitarismo desenfreado.

O velho comandante de barba e cabelos grisalhos encetou seu plano terrifico. Convocou todos os pais de santo radicados na ilha – especialmente os dados aos mistérios do vudu - orientando-os a promover, no além, uma conferência de todas as polícias políticas, com o intuito de fazer o teimoso Guevara, mais uma vez, correr para onde não pudesse jamais ser alcançado, mesmo em espírito e pensamento. Seria a solução final.

E a conferência aconteceu na mais profunda região do inferno. Lá estavam a polícia política de Plínio Salgado, Judas, Silvério dos Reis, os agentes do DOI-CODI, da GESTAPO, da CIA, da DINA, do CIEX, do CENIMAR, do SNI, e todos os demais agentes, traidores, quinta colunas e instituições criadas para corromper a liberdade e a democracia.

Forças do mal, os espíritos nauseabundos receberam com júbilo, êxtase e satisfação a missão de apagar Che Guevara. E urdiram na escuridão das trevas, dentre labaredas e ensandecidos gritos de guerra, o plano macabro.

Quando a multidão eufórica ainda clamava pela incorporação do lendário guerrilheiro argentino, o médium santo abraçou e beijou – como se despedindo – cada um de seus solícitos auxiliares. Sabia que a tragédia tinha local, dia e hora para acontecer e que seu momento havia chegado.

Ao soar os atabaques dando origem ao ritual espiritualista, o pai de santo se liquefazia em suor. Falava baixo, sereno, consciente de si. Já em estado de para-normalidade viu quando Guevara se aproximou para tomar-lhe emprestado o corpo e a voz. Tentou avisá-lo para não se aproximar, manter-se distante, que a emboscada traiçoeira estava tramada. Não deu tempo. Capitaneados pelo Delegado Fleury, os demônios enlouquecidos vazaram-lhe a cabeça com um tiro certeiro de kalashinikov. Enquanto a bala fatal cumpria seu itinerário, o coral sinistro entoava a marcha fúnebre. O corpo e a cabeça do libertário guerrilheiro fragmentou-se em milhares e milhares de pequeninas partículas, cada uma dando origem a um souvenir... e de infinitas espécies, cores e dimensões... canetas, chaveiros, isqueiros e, sobretudo bonés e camisetas...

E por mais uma vez, Fidel imaginou ter fuzilado Che Guevara.

Rodoux Faugh

domingo, 17 de agosto de 2014

Goya, Francisco - Blind Guitarist - 1778

Sempre é tempo quando o desafio é reconstruir o tempo para domá-lo, dominá-lo, como o mágico
que domina a moeda, fazendo com que caminhe e desapareça dentre os dedos da mão.
Rodoux Faugh

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Seus sonhos estão nas alturas?

Leonardo da Vinci - The Dreyfus Madonna (The Madonna with a Pomegranate) - 1469

Seus sonhos estão nas alturas? Ótimo. É junto aos deuses que se abrigam. Sua jornada consiste em construir escadas e caminhos capazes de conduzi-lo até eles.
Rodoux Faugh

domingo, 3 de agosto de 2014

amar é


amar é se reconstruir a cada dia, é tornar a energia destruidora de mil tornados na brisa amena de
uma tarde de verão ...
Rodoux Faug

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A força motriz da vida

The Three Sisters (1783)de Benjamin West

A força motriz da vida não pode ser o problema, deve ser seu sonho.
O problema pode atuar como um furação invertido que o arremessa sempre e invariavelmente para baixo, em direção ao Hades. Já o sonho detém o condão de aproximá-lo dos céus, do Olimpo, dos deuses. 
Rodoux Faugh

terça-feira, 22 de julho de 2014

“Michelle” ou "A bomba F”


 Sempre me chamaram dengosa, manhosa, mas naquele dia me sentia de fato com um saco de preguiça pendurado nas costas. Na realidade era puro arroubo e êxtase, não cabia de fascínio, gozo e contentamento. É que jamais, em tempo algum, havia estado em um veículo presidencial. Não que eu fosse uma cadela qualquer, uma reles vira-latas, dessas que se encontram aos mil nos becos, esquinas, grotas, invasões e favelas. Nunca fui pouca coisa. Já havia experimentado todos os tipos de automóveis, do pau de arara, dos mais simples modelos de carro popular aos luxuosos blindados contra pobreza e bandidagem. Já curti soneca em automóveis particulares, sindicais, partidários e até – quer saber? - nos de uso exclusivo, restrito da Câmara Federal. Mas andar em carro presidencial, objeto de desejo de tantos, jamais poderia imaginar esse prazer me amaciando.

E não é que o destino achou por bem sorrir pros meus lados oferecendo um tipo de privilégio reservado a poucos iluminados?

Até pouco tempo atrás cheguei a imaginar que papai estivesse acometido de algum tipo estranho de insanidade, algo que beirasse a aleivosia, a demência ensandecida, pois que acalentava o sonho, de a qualquer custo, fazer morada no Palácio do Planalto. Tantas idas e vindas, figas e mandingas, tantas pequenas vitórias e monumentais reveses, três derrotas sucessivas, promessas para todos os gostos e fregueses, que cheguei a qualificar sua obstinação como algo tangente ao profano, ao obsceno, impudico, ou ao jucundo e desvairado.

Mas naquele dia, enquanto saltava para o banco do carro presidencial, ia percebendo a grata satisfação do engano. Feliz e grato equívoco embalado por uma realidade que entoava singelos cânticos angelicais, como se num sonho povoado por fadas madrinhas e querubins. E a prova ia me certificando eu própria, presencialmente, desfrutando o privilégio de trafegar num veículo intangível até mesmo para as mais altas autoridades da república; o que falar então para os pobres e medíocres mortais - fosse gente, fosse cadela - como eu?

Em minha estreia como passageira do seletíssimo clube, não desfrutava do esplendor do Lincoln conversível e nem da elegância imponente e aristocrática do Rolls Royce presente da rainha mãe. Ainda não era a hora. Mas pressentia, era uma questão de tempo. Apenas uma questão de tempo e nada mais. Logo estaria senhora de tudo e de todos. Por enquanto era simplesmente uma Kombi, um utilitário bosta-rala que fazia às vezes de carruagem presidencial. Um utilitário por demais comum, insípido e inodoro para compor aquele cenário mágico de filme norte-americano. Mas o que de fato importava era que o veículo – independente de marca, modelo e ano – integrava a frota da Presidência da República, com brasão, inscrições oficiais e tudo o mais que a exclusividade assegurava. Sangue puro. Nenhuma relevância, portanto, o fato de estar sendo conduzida num furgão dos mais baratos dentre os disponíveis no mercado. O fundamentalmente importante e de destaque era que eu estava ali, de carne e osso, com todos os pelos escovados, estrelinha de fita vermelha no pescoço, sendo conduzida pela carruagem presidencial. Achei por bem me submeter a uma bateria de beliscões e pequenos tabefes, provando a mim mesma que a realidade estava à prumo e que de forma alguma a deixaria escapar. Sim, tinha pleno domínio de minhas faculdades mentais, gozava de minha normalidade canina, meu juízo não me havia abandonado. Vivia uma realidade de sultão, não um sonho efêmero, passageiro. Sorvia uma realidade só permitida aos deuses e seus mensageiros, reis, xeiques, imperadores, presidentes, proprietários de megacorporações transnacionais.

Enquanto o veículo deslizava pelo tapete negro da Esplanada dos Ministérios, pela janela entreaberta, me deslumbrava com a paisagem onírica, os edifícios perfilados como num cortejo militar, tudo ali soando pompa e circunstância, amplos espaços ajardinados, o horizonte a perder de vista, um latifúndio de gramíneas verdes, um paraíso capaz de causar inveja ao Olimpo, um Éden restrito aos cães de luxo, aos que, como eu, haviam galgado os píncaros da glória, os mais elevados extratos da pirâmide social. Tudo era grandeza. Nada que lembrasse a frugalidade da velha e popularesca São Bernardo.

Entendi então o deslumbramento de papai e mamãe, que não perdiam oportunidade de falar do Brasil do amanhã, do Brasil grande, do Brasil gigante, do Brasil que dominaria o cone sul, e depois o continente americano e depois o mundo civilizado, numa vitoriosa cruzada contra a fome e a miséria, contra a injustiça e a globalização. Agora compreendia papai quando, de manhãzinha, enquanto se barbeava frente ao espelho, conversava animadamente com Dom Sebastião.

E neste ponto, apenas neste ponto eu me permitia discordar de meus amos queridos. O país já era um gigante. Sim, já era. Estava testemunhando no meu dia a dia, inclusive naquele passeio matinal. A capital em tudo já se assemelhava à Ilha da Fantasia, o seriado que reunia toda a família na frente do aparelho de TV. Se tudo já era desenvolvimento, fartura e riqueza, então porque teimava o patrão em se meter em assuntos tão banais e triviais como a fome e a miséria? Se para nós, os Silvas, já constituía enfadonha normalidade a mesa farta, repleta das mais raras, saborosas e delicadas especiarias, compartilhadas com os mais caros pratos escandinavos, com os destilados e vinhos mais finos e reservados, então porque diabos se meter em assunto tão piegas, fútil e vulgar? Como pessoas como eles que comiam em louças de porcelana da era Ming, utilizando talheres esculpidos para a realeza sueca se deixavam rebaixar para lidar com assuntos tão mesquinhos e ordinários?

Jamais poderia compreender o que sempre considerei uma contradição injustificável em papai. Enquanto eu saltitava nas festanças e rega-bofes palacianos movidos a whisky 106 anos, escutava ora aqui ora ali, de forma dispersa e desconexa, frases soltas mas inteligíveis, em que os assessores afirmavam que o discurso da fome se tratava de peça publicitária, estratégia para ganhar a simpatia internacional. Tanto que – nisso agucei a escuta prestando bastante atenção – papai sempre que lá fora criticava os países ricos, de volta ao país, dava sempre um jeitinho de fazer mimos e agrados, aumentando a dinheirama para o FMI, cujos diretores chama carinhosamente de companheiros. Mas isto sempre foi assunto sério demais, coisa que aborrece, gera discussões intermináveis, assuntos reservados aos superiores humanos, não aos cães e cadelas, ainda que de raça apurada e pedigree certificado como o meu. Se isso confortava papai e seus amigos, que continuassem então com aqueles assuntos tolos e insossos, aquele economês que nem russo era capaz de entender, desde que naturalmente não esquecessem de assegurar minha provisão de caviar, lagosta, salmão defumado, e do legítimo bacalhau norueguês. Para mim, o que importa, o que interessa mesmo, é curtir a vida nesse cenário paradisíaco, neste país onde tudo é tal e qual Estocolmo. O que haveria melhor do que frequentar as festanças no Itamaraty, nas mansões cinematográficas do Paranoá, cerimônias tão sofisticadas quanto abastadas? O que poderia haver de melhor que compartilhar o convívio de uma sociedade maiúscula, tão soberba e majestosa, gente rica, famílias poderosas e bem resolvidas, talhadas na fina etiqueta, saudáveis, charmosas, belas e elegantes, estrelas egressas de uma grande produção de Hollywood.

A Kombi circulava o Congresso Nacional e eu ia me deslumbrando com as suaves linhas arquitetônicas do conjunto de edifícios, pura arte, pura arrojo, pura criação, só possível aos brasileiros desta terra da promissão. O espelho d’água refletindo o azul celeste, compondo uma paisagem luxuriante, provocante, sedutora, curiosamente tentadora. Aquela peça de primor artístico bem ali, exposta, disponível, ao alcance de todos, era uma prova irrefutável de que já perfilávamos no rol dos primeiríssimos do mundo desenvolvido. É bem verdade que não pude deixar de perceber, na rampa do Congresso, o movimento compacto da massa disforme que protestava vigorosamente agitando cartazes, faixas e bandeiras. Pelas inscrições e palavras de ordem identifiquei aposentados que clamavam contra a taxação dos inativos, estudantes que denunciavam o Universidade para Todos como uma forma capciosa de transferir dinheiro público para as instituições privadas. Identifiquei também procuradores e funcionários públicos inconformados com a lei da mordaça, intelectuais e jornalistas indignados com o conselho que resgataria a malfadada censura, artistas coléricos contra o dirigismo cultural imposto pela lei do audiovisual, trabalhadores enfurecidos contra os sucessivos aumentos do superávit primário com a exclusiva finalidade de entregar nossas divisas ao FMI, cientistas envergonhados com a proibição de enveredar pela pesquisa genética, mães exigindo que o governo cumprisse o dispositivo legal determinando que os filhos permanecessem na escola para acessar a ajuda de custo, esquálidos esfomeados perguntando - passado tanto tempo do lançamento - quando seriam beneficiados pelo programa Fome Zero, empresários esbravejando contra os juros estratosféricos, trabalhadores rurais incrédulos com a corrupção no programa de reforma agrária. Sim, bastou uma mirada para me convencer que ali estavam somente os invejosos e descontentes, uma escória formada por despeitados, meliantes sequiosos para ver o país fracassar. Eu estava convicta. Ali protestavam os incorrigíveis defensores do “quanto pior melhor”, os pregadores da desgraça alheia, os adeptos do “há governo sou contra”. Como às gargalhadas, costumava repetir o primeiro auxiliar de papai, “eram discípulos da gestapo”, venais traidores da pátria. Não, não, eu não estou exagerando. Estou absolutamente convencida de que os que atacam e criticam um homem tão correto e justo como papai, estão na realidade querendo levar o país à bancarrota.

Depois da suntuosidade das torres do Congresso, envoltas em pratos esplendorosamente arranjados, minha visão foi atraída pelo equilíbrio e harmonia do Ministério das Relações Exteriores. Um instante depois e já estava embasbacada pelas curvas de concreto que abraçavam a Catedral, para lá em cima, bem pertinho do céu, se abrir como mãos ansiosas pelas graças divinas.

Num relance meus olhos escureceram, chamuscados pelos flashes de dezenas de máquinas fotográficas. Inquietei por uns breves segundos. Balancei o rabo com certo nervosismo. Minhas memórias foram tomadas de assalto pelas lembranças de um passado não tão distante, quando do grotesco incidente que vitimou minha priminha. Minha priminha filha do Antônio Rogério Magri, o do Trabalho. A coitada foi flagrada enquanto era conduzida num carro oficial à clínica veterinária. Teve a foto estampada nas primeiras páginas dos grandes jornais. Até mesmo papai e os membros de seu partido fizeram um escarcéu sem tamanho, dando a entender que o mundo iria desabar, atingido por uma hecatombe nuclear. Jamais pude entender as razões de tamanho alvoroço. Como meu patrãozinho foi capaz de destilar veneno num ato tão corriqueiro como a condução da priminha ao veterinário? Afinal não dizem que somos como eles, como gente, como pessoas? Não podemos por acaso adoecer, precisar de atendimento médico? Não temos o direito de frequentar o cabeleireiro para a tosa, de frequentar a manicure, a nutricionista, a academia de ginástica, o hotel-fazenda? Que raio de hipocrisia é essa? Desta vez, ao engrossar o coro dos críticos ao ato do Magri, papaizinho também se mostrou pequeno e provinciano, subalterno e sub do sub. Esta é uma pequena mágoa que guardo no coração contra meu donozinho. Mas logo reduzi a tensão dos nervos quando me dei conta que os flashes eram de turistas e não de repórteres fotográficos. Ademais, ainda que fossem jornalistas, papai já os havia chamado de covardes, além de criticar as perguntas frouxas e requentadas que sempre fazem. “Dá próxima vez espero que sejam mais duros comigo!” ralhou papai tão logo terminou a coletiva aos repórteres das emissoras de rádio.

-Algum problema, cachorrinha Michele? Perguntou o chofer preocupado com minha súbita quietude. Dei dois latidos para afugentar os pensamentos mundanos e me fixei na admiração ao Brasil poderoso, ao Brasil potência, ao Brasil destemido e orgulhoso de sua cultura, ao Brasil da cabeça do patrãozinho.

Repentinamente, num solavanco, senti a Kombi adentrar um território inóspito, adverso, pantanoso.

-Aqui é a Rodoviária da capital – se apressou a dizer meu chofer engravatado. Reagi de sem pulo, com meu rosnar característico dos momentos de pavor e aflição. Rodoviária? Rodoviária? Como Rodoviária? Aquilo ali era um outro país. Claro! Como não?! Naquele rincão nada lembrava a Suécia de patrãozinho. Ao contrário. A Kombi com certeza rompeu a relação espaço-tempo, como numa ficção científica, e trafegava agora por um país desconhecido, atrasado, de miseráveis, de pessoas feias, horríveis, sujas, despenteadas, franzinas, esmolando, suplicando, vendendo bugigangas. Ali estavam mendigos, crianças raquíticas que se apossavam das ruas, prostitutas desdentadas, malandros maltrapilhos, trabalhadores assalariados, todos com os olhos sem brilho, o corpo vergado de cansaço e vergonha, as faces embrutecidas pela desesperança e desilusão.

Que diabos estava acontecendo? No quintal do palácio, nas barbas magistralmente aparadas de papai se instalou um exército de invasores, um exército de inimigos, vindos com certeza de alguma republiqueta africana. Bem que rosnei, lati, insistindo que papai não incursionasse pela África. Aí estava o resultado da teimosia, da persistente teimosia herdada nas hostes sindicais. Os africanos refugiados, famintos e aidéticos, cometeram a ousadia de invadir o Brasil. E já estavam acampados à porta do palácio, na certa preparando o cerco final. Teria que correr, me apressar, avisar papai, alertar o alto comando militar antes que fosse tarde demais. Comecei a latir e rosnar em desespero até que o condutor, mergulhado em observação introspectiva, desconfiou e tomou o caminho de volta ao Planalto. Entrei correndo, saltando degraus e o mobiliário, latindo esbaforidamente, utilizando todos os quadrantes dos pulmões, mas quanto mais latia mais papai e mamãe sorriam, se divertiam, imaginando que se tratava de mais uma de minhas brincadeiras. Tentava fazer com que meus latidos soassem: “os africanos estão invadindo o Brasil, já estão bem ali na rodoviária”, mas qual?! Quanto mais tentava, quanto mais me esforçava, quanto mais me contorcia, mais se divertiam. Mamãe chegou a pegar a filmadora para me filmar. Foi uma cena ridícula, digna de um bang-bang chinês.

Quando me senti sem forças para latir, alguém que não lembro me tomou no colo. Fez na minha cabeça um cafuné gostoso que caí em sono profundo. Besteira!, resignei. Se eles estavam tão tranquilos era porque tudo estava bem. Melhor dormir e amanhã retomar a vidinha palaciana de sempre. Que se danasse o exército inimigo. Seria aniquilado, reduzido a pó sem que papai precisasse disparar um único tiro, sem que sequer precisasse sujar as mãos. Papai despacharia para eliminá-lo sua arma mais terrível, a bomba F, a mesma que estava dizimando a gente brasileira, a bomba que destilava ignorância e indigência intelectual. Pois não é isso que se faz com os exércitos inimigos? Melhor dormir o sono das cadelas imperatrizes.

Rodux Faugh

terça-feira, 15 de julho de 2014

As camas de cimento nu

Os nove anos de idade do pequeno Mohammad não permitiram que ele pudesse entender o que estava por ali ocorrendo. Foi com o tio rezar na mesquita principal quando, abruptamente, explosões ensurdecedoras irromperam por todos os lados, o silvar das balas e das bombas estourando os ouvidos, os vitrais espedaçando em diminutos cacos, a poeira se tornando densa como a rocha, obliterando a visão, corpos desfigurados, triturados com a ferragem das vigas e dos pilares, as rijas paredes reduzidas a um amontoado de entulho e lixo. Se existisse o inferno, ali estava ele, ao vivo e a cores.

O frágil pirralho já havia perdido o pai Ibrahim no presídio de Abu Graib, acometido por hemorragia interna após ser estuprado e seviciado com garrafa de água e cano de metralhadora. Logo depois, uma patrulha do exército inglês invadiu sua casa e, confundindo o guarda chuva da mãe com uma bazuca, reduziram os rostos da mãe e da irmã a uma peneira crivada de balas.

Para não vagar a esmo pelas ruas violentas da cidade, o tio foi buscá-lo em casa, sequioso por oferecer ao sobrinho uma oportunidade qualquer, alguma que fosse menos pior do que todas que emergiam, se bem que, àquela altura dos acontecimentos, desconfiava impossível existir.

Agora, apenas uma semana após ter perdido os pais, tinha no colo o corpo liquidificado do tio, da cintura para baixo volatilizado por um míssil lançado por um helicóptero AH-64 Cobra.

E foi dessa forma que os soldados o encontraram, cabeça baixa, desmanchando em prantos sobre a metade intacta do corpo do tio, sussurrando o nome da irmã e dos pais, pressionando junto ao peito um caminhãozinho de plástico reciclado sem as rodas.

O comandante John Dowoud quis enxergar no mirrado garoto um menino-bomba, um bebê-terrorista de alta periculosidade, um demo travestido de anjo treinado nos campos de Bin Laden, mas a fragilidade inocente de Mohammad pulverizava as suposições delirantes do coronel norte-americano. Infelizmente, teve que se dobrar à realidade. Estava mesmo diante de uma criança, uma simples criança, uma frágil criança. O tamanho, o soluço inconfundível, o choro contido, o carrinho de plástico carente de rodas. “Raios, não recebi treinamento para isso”, rosnou o coronel antes de, se valendo do auxílio de três de seus homens, tomar o menino à força e enfiá-lo num saco improvisado. Sem mais delongas, decidido, partiu com seu comboio para internar o maltrapilho moleque no Centro Correcional Wali al-Khafaji.

Ao adentrar o Centro Correcional, Mohammad foi conduzido a um salão onde teve a cabeça raspada e o corpo banhado por uma mistura de pó branco. Minuciosamente vasculharam o interior de sua boca, narinas, ouvidos, ânus e até o canal de sua uretra, para depois escorre-lo por dentro de um enorme macacão alaranjado, em cuja lapela encontrava-se inscrito em diminutas letras a palavra Guantánamo.

Em Al-Khafaji estavam encarceradas 70 outras crianças, além de homens e mulheres, de todas as idades e condições sociais, empilhados uns sobre os outros, muitas vezes mantidos nus, tratados como ratos e peçonhas de esgoto.

No primeiro dia de prisioneiro fichado, enquanto se encontrava no solar, viu aproximar o perneta Ahmad, trazendo nas mãos duas bolinhas de gude. Sem se apresentar, o estranho foi direto ao assunto:

- Vamos jogar bolinha de gude?

Mohammad pegou uma das pelotas e iniciaram o jogo em que um perseguia o outro, tendo na bolinha adversária o alvo a ser atingido. A bolota de Mohammad foi batizada de Míssil Teleguiado com Sensor Infravermelho Tomahawk , e Ahmad deu à sua arma de brinquedo o nome de Caça F18 Super Hornet.

Quando seu supersônico F18 foi atingido pelo Tomahawk, Ahmad irrompeu numa de crise de choro e saiu em disparada para se esconder em sua sela, debaixo do beliche.

- Não se preocupe, Ahmad é sempre assim – falou Abi, um outro garoto que observava à distância.

Percebendo a aflição de Mohammad, Abi deu prosseguimento à conversa.

- Ahmad, o pai e a irmã foram perseguidos durante três dias e três noites por soldados de um pelotão italiano. Só ele se salvou. Sempre que joga bolinhas de gude recorda do fuzilamento e cai em desespero.

Como o interlocutor permanecesse compenetrado na narrativa, Abi sentiu-se estimulado a prosseguir:

- O pior de tudo é que não consegue largar as pelotas de vidro, não quer saber de brincar de outra coisa.

- É muito triste tudo isso – se limitou a responder Mohammad.

- Muito horrível esse macacão – atravessou Abi, preocupado em não dar fim ao diálogo.

- Esquisito, respondeu circunspecto o novato.

Dando à entonação uma gravidade superior, de quem se sente experimentado e senhor da situação, Abi prosseguiu.

- Os americanos dizem que, com agente vestido assim, fica fácil capturar em caso de fuga.

Percebendo no olhar de Mohammad a luminescência dos suicidas, Abi se esforçava para manter a conversa animada e interessante:

- Já reparou na inscrição? Aí na lapela do macacão. Guantánamo. Dizem que é uma ilha cheia de mulheres peladas, e que se nos comportarmos, passaremos algumas semanas lá. Mas quer saber? Eu não ligo. Penso que é mentira. Não se pode confiar nesses invasores. Vai um chiclete?

Mohammad pela primeira vez iluminou a face ensaiando um leve sorriso. Levantou o braço esquálido para pegar no ar o chiclete arremessado pelo novo amigo. Levou a borracha de açúcar à boca, mantendo-a inerte debaixo da língua, sonhando, permitindo que a saliva farta açoitasse o pedaço de felicidade, sorvendo cada gota derretida de açúcar e hortelã. Convencido que conquistara um amigo, Abi continuou com seu diálogo quase solitário.

- Temos aqui quatro alas. Escute bem o meu conselho. Não se misture com os garotos dos outros pavilhões. Termina sempre em confusão, castigo e solitária. Venha. Vou te levar a um lugar que vai gostar ... creio.

Então Abi conduziu o amigo a uma pequena sala, com escassos livros, surrados e aveludados de pós, apelidada “biblioteca”. A maioria dos exemplares era em inglês, mas se divertiam olhando e tocando as figuras impressas. Ali passaram toda a tarde, desenhando e pintando guache em papel de embrulho acinzentado. Depois seguiram para a sala de TV, onde se fartaram de vídeo-clips produzidos pela CBN e Al Jazeera. Enquanto se deslocavam para o refeitório, Mohammad percebeu que as paredes e os muros recém pintados ainda exalavam o cheiro de tinta fresca. No caminho, Abi se sentiu a vontade para falar de si:

- Fui preso em Mossul, fica no norte, conhece? Tentava roubar uma garrafa de água. Havia meses que só tomava água barrenta de poça. Huuuugh... só de lembrar em embrulha o estômago. Então vi um caminhão cheio de garrafas de água. Imaginei que fosse fácil. Peguei sete anos. Meus pais não aparecem, moram muito longe. E você, o que fez?

Entre aéreo e distante, Mohammad respondeu baixo, num volume quase inaudível:

- Não sei – e repetiu três vezes, como para certificar de que tinha sido plenamente compreendido.

Abi, à medida que ia aprofundando a convivência com o novato, foi percebendo que o pirralho encontrava-se milímetros do pior dos abismos. De ‘pior dos abismos’ apelidava a irreversível e derradeira demência, antessala do ‘apagão’, o suicídio. Então se contorcia à procura de assuntos capazes de entreter e divertir o calouro, feito amigo. Não compreendia por que se envolvia daquele modo, por que se interessava pelo moleque franzino que acabara de conhecer. Talvez a resposta estivesse na memória, ainda em carne viva: se parecia com o irmão mais novo, caído com uma bala de Sharpshooter perdida.

- Vê aquele ali? É Assad. Sua mãe e seu pai estão em Abu Graib. Venha. Vamos ali – chamou Abi, e seguiu ligeiro na frente, saltitando, como obrigava a perna privada do pé decepada ao pisar numa mina terrestre.

- Vou te contar um segredo - cochichou Abi, para logo prosseguir. – Não conte para ninguém. É segredo de verdade.

Num canto em que se sentiu seguro, Abi abriu um livreto de estórias árabes infantis e passou a ler, baixinho, pausadamente, quase soletrando.

Permaneceram horas, hipnotizados pela estória da fada árabe que libertava um exército de crianças escravizadas. Quando sentiu o olhar trepidar cansado da leitura, Abi voltou a esconder o livro num saco de linho surrado.

- Se eles pegam agente com esse tipo de livro, é solitária na certa.

- Por quê? – perguntou Mohammad.

- Talvez porque não desejem nos ver sonhando – encerrou a conversa Abi, com a voz tensa e grave.

A sirene soou o alarme inconfundível e foram-se, abraçados, em direção ao pavilhão onde os aguardavam as camas de cimento nu.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A dor que nem os espíritos suportam

-Você terá algumas semanas de vida, não mais que isso – falou com a voz tensa o Dr. Raul, os olhos fixos, severos, avançando em direção dos meus.

A primeira reação foi imaginar que a cena em que involuntariamente atuava, quadro de um teatrinho de quinta categoria, não me destinava papel de protagonista. “Um pesadelo, sem dúvidas!”, imaginei, certo que ao findar da noite, a claridade do sol estaria me esbofeteando, afastando definitivamente para uma outra banda do mundo, o inferno que comprimia, garroteava todos meus poros e sentidos. Mas os minutos cadenciando os ponteiros do relógio branco fixado na parede alertaram de que nada ali me ancoravam ao tempo real. Os minutos gritavam que eu estava ali, bem ali naquele terrível consultório onde imperava autoritariamente a cor branca. Que raios de impelir até mesmo à decoração uma insossa ditadura que aprisionava as demais cores, um autoritarismo atroz – como de resto todos os demais - capaz de impedir a pluralidade, a diferença. Não havia como ignorar o fato de que estava mesmo no lugar errado, lamentavelmente com a pessoa errada, deploravelmente na pior das horas. Cruel destino, infame sina. Não, não era um sonho, não era um efêmero pesadelo. Por mais difícil e deplorável que fosse, melhor admitir, melhor dobrar e me submeter às evidências: Não era outro, senão eu, em viva alma, que ali estava recolhido à poltrona branca, eu mesmo em pessoa; em carne, osso e espírito; sentado à frente de um oncologista impiedoso, destemperado, desumano. Como era possível aquele sujeitinho se arvorar no direito de me dizer aquilo, daquela forma, com aquelas palavras?! Indubitavelmente um demônio vestido de branco a me provocar, a me tentar com um diagnóstico tão fatídico, anunciando o final dos tempos, os últimos dias, o apocalipse. Por que deveria permanecer ali, ouvindo a pior das previsões, tendo que suportar a indiferença dos ponteiros do relógio que seguiam em seu movimento circular como se nada de anormal estivesse ocorrendo.

Então, ante a impossibilidade de ignorar a realidade, recorri ao sentimento que emergiu, à raiva, ao ódio, ao rancor que nos trinta e seis anos de vida procurei evitar. Não nos momentos de incertezas e desespero. Mas despertei de algum lugar ignorado do cérebro toda a raiva que imaginei ter conseguido amainar. A raiva pelas brigas e disputas em que sempre levei a pior, desde a infância, a mais tenra idade... a raiva pela insegurança onipresente, pelo corpo magro e tisico... o ódio pela juventude deslocada – como um peixe fora d’água, sempre me imaginei diferente dos demais... o rancor pelos fracassos na vida amorosa, profissional... toda essa raiva, todo o sentimento pérfido fiz explodir, potencializando-o infinitas vezes, ao ponto de me tornar a energia de megatons.

Mas todo o colossal sentimento de rancor não fez esvair de minha frente o olhar severo e grave do Dr. Raul. Continuava mirando, focando, perfurando, seus dois olhos argutos e ferinos bombardeando mísseis, torpedos e rajadas em minha direção, ininterruptamente, como se desejasse implodir minha força interior, a vontade férrea e inamovível de não querer acreditar no que ouvia, no que os exames emprestavam tanta evidência e veracidade.

Então recorri a tudo que sorvi da academia e da vida em estratégias de negociação e entendimento. Por toda a vida fui um exímio negociador, um hábil e eficaz catalisador das soluções não conflitivas, de desfechos amistosos. Por que não?, já não havia conseguido contornar as situações mais delicadas, dar solução aos problemas mais complexos? Consegui, durante tantas vezes, conciliar interesses, mitigar divergências, convergir antagonismos, por que razão então não haveria de encontrar solução para meu próprio dilema? Então pensei lembrar um santo forte, um santo poderoso, um santo generoso, dado aos grandes milagres, às causas impossíveis, para que negociasse alguma coisa, algum termo, alguma proposta, uma promessa qualquer, fosse qual fosse, que trouxesse alguma vantagem. Por mais que concentrasse, não consegui lembrar o nome de nenhum santo forte o suficiente para fazer frente à situação em que me encontrava. Desde a adolescência, quando perdi minha mãe, deixei de comparecer às missas dominicais, abandonei até mesmo as orações, rezas e súplicas que vovó desde sempre, com solicitude e parcimônia se esmerou em ensinar. Então busquei na memória os santos que mamãe venerava e que ficavam expostos sobre a cômoda do quarto de dormir. Lá estavam, moldadas em gesso fino, as figuras imponentes de Santo Expedito, São Jorge, Santo Antônio, São João, Nossa Senhora de Aparecida, o menino Jesus e São Sebastião. Escolhi, para entabular negociações, Nossa Senhora de Aparecida. Imaginei mais inteligente escolher a mãe de Jesus menino, que por certo teria acesso mais facilitado ao Pai divino. Que mãe não gozaria dessa privilegiada posição, inerente à própria condição feminina? Escolhida a portadora, restava desvendar com o quê me comprometeria, o quê de importante poderia oferecer para iniciar negociação tão traumática, capaz de me garantir a vida ou selar a morte como destino? Por mais que procurasse alternativas, era incapaz de imaginar algo que pudesse – numa negociação – despertar o interesse da Santa, da virgem Maria. Uma viagem à terra santa de Jerusalém, quem sabe uma caminhada à Santiago de Compostela, ou talvez uma peregrinação ao Santuário de Aparecida... nada, nada, nada parecia ter valor, nada parecia ser de interesse, meus pensamentos gravitavam num traçado incerto e duvidoso.

Então, tomado pelo ceticismo, desisti da negociação e caí em desespero. Fui tomado por uma angústia sem limites, que tensionava meu peito, embotava os pensamentos, prostrava minhas vontades, tempos atrás despertas e ousadas. Meu corpo se fizera trapo, retalhos, um mísero saco de lixo, o próprio lixo. Vontade já não restava para o que fosse, tão pouco poder de reação. Diagnóstico correto?, que fosse, então! A morte como derradeira consorte?, que fosse então! A senhora da foice à espreita para o bote final?, que fosse! Paciência!, fazer o quê?, certamente não seria a morte um estágio tão ruim da existência.

Um pássaro amarelo e solitário pousou no fio de telefone bem rente à janela. Cantou sereno, assoviando uma melodia suave que me libertou da teia intrincada dos pensamentos. Olhei pela janela e quando nossos olhares entrecruzaram, o canário saltou no espaço, num voo magistral, como se desejasse confessar algum mistério, talvez - como poderia eu saber? – desejasse confidenciar ser o condutor de minha alma na grande travessia. Novamente o incubo de branco assaltou meus pensamentos.

-Você tem que ser forte, afinal tem filhos, mulher, pense também neles – falou o experiente doutor, cabelos brancos e corpo curvado, visivelmente embriagado pelo desejo de se livrar do fardo a que eu próprio me reduzira.

Levantei da poltrona macia e tomei a direção da porta. Melhor resignar. Restava alternativa? Diante da insólita condição, que variável estaria sob meu controle? Então me curvei ao fato de vivenciar no mesmo compasso do velho da foice. Pressentia que compartilhávamos a mesma estação de embarque. Minha hora havia chegado de maneira inexorável. Não restava alternativa que não fosse a despedida. A mais dolorida seria despedir da caçulinha Maíra, cinco anos de idade, estuário de beleza e inocência. Maíra. Há quanto tempo não a tomava no colo?; não trocava palavras, confidências, calor e olhares? Há quanto tempo não me fazia parceiro em seus joguinhos e brinquedos? Há quanto tempo não a acompanhava nas tarefas da escola, num feriado em um parque de diversões, num clube dominical, numa divertida seção de cinema? Há quanto tempo, meu Deus? Quanto tempo? Na realidade, em tempo algum encontrei Maíra e os meus três outros filhos, Gracinha, Guilherme e Marcos. Meu tempo sempre escasso, pequeno, insuficiente para tudo que soasse amigos e família. Para o trabalho sobravam horas, todas as horas, todos os dias e todas as noites, todos os feriados e finais de semana. Mas para os que só agora entendia importantes, partes de mim, não restou reles minuto. Percebi tarde demais que passei toda a existência distante do que me era mais caro e vital. Cinco anos, uma vida inteira ao lado de Maíra, sem ter encontrado tempo para abraçar seu corpinho delicado, para curtir seu cheirinho de bebê, para beijar seu rostinho de veludo, para engraçar com sua conversa inocente, para emaranhar em seus cacheados prateados. Cinco anos ao seu lado, morando na mesma casa, respirando o mesmo ar e, ao mesmo tempo, escondido a quilômetros e quilômetros de distância.

Numa loja do shopping comprei brinquedos, joguinhos, bonecas, eletrônicos, casinhas e miniaturas, tantas coisas imploradas pela pequena Maíra e que jamais sequer cogitei acolher. Sempre me pareceu mais rápido e eficaz desconversar com a mesma desculpa esfarrapada de sempre: “não tenho dinheiro, o pagamento não saiu”. O pagamento nunca saia. No supermercado comprei caixas de chocolate, balas e guloseimas. Depois passei num circo e comprei ingressos para as seções de todas as noites. Foram trinta e quatro ingressos, dezessete para mim e dezessete para minha pequena princesa. Trataria de viver agora o tempo que desdenhei. Quem sabe pudesse recuperar alguma coisa, sobretudo a afeição e o respeito da encantadora princesa. Estranho que justamente o anúncio da morte me tivesse escancarado a realidade em relação ao tipo de vida que levava. Estranho que justamente o prenúncio da morte me tivesse despertado para a vida.

Enquanto voltava para casa, os bancos do carro repletos de presentes, doces e guloseimas, uma dor aguda irrompeu meu coração. Parei o carro no acostamento esperando que o suplício passasse. Mas ao contrário, a dor ia dominando minha capacidade de resistência, tornando o instante seguinte infinitamente mais insuportável. Era como se uma agulha enorme, pontiaguda e cheia de dentes estivesse devassando progressivamente as partes mais intimas do meu coração doente e cansado, traspassando minha indigna existência. Implorei à Virgem Maria que permitisse ao menos encontrar minha pequena Maíra, uma última vez, só mais uma última vez. Já havia ensaiado os pedidos de desculpas, desculpa pela omissão, desculpa pela falta de tempo, desculpa pelo desrespeito de jamais tê-la sentido, ensaiei a forma de me aproximar, abraçar, beijar... mas o espasmo final tornou meu corpo o epicentro do maior dos terremotos. Um ronco grave e impiedoso me levou o sopro a que a vida tinha se reduzido.

Com o espírito liberto me dirigi para casa. Seguia conduzido pelo canário amarelo que diligentemente me mostrava o caminho. Estranho. Do alto a cidade parecia bem mais bonita e humana. Encontrei Maíra dormindo, o corpinho desnudo coberto por travesseiros e bichinhos de pelúcia. Invejei todos aqueles travesseiros e bichinhos de algodão. Assoprei delicadamente seus cabelos e os copinhos de redemoinho ensaiaram um movimento no ar. A pequena acordou sonolenta e pressentindo minha presença soluçou quase inaudível “papai”, para depois se virar e tornar ao sono dos justos. Derramei em prantos. Chorei como jamais havia chorado em meus anos de vida. Um choro incontrolável, amargurado, ressentido, arrependido. O pobre canário interrompeu seu canto onírico em solidariedade à dor que eu deveras sentia, a pior das dores, a mais profunda e angustiante delas, aquela que nem mesmo os espíritos são capazes de suportar.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O mensageiro do diabo*




O quarto mantido na mais absoluta escuridão impedia que John Idemas enxergasse um palmo à frente do nariz. Por isto agachou-se e ali ficou, quieto, sem mover pestana, aguardando o desfecho do julgamento que pressentia, o conduziria à morte certa.

A escuridão lúgubre do cômodo ao menos facilitava desbravar os mares revoltos de seu passado errante. Mergulhava nas memórias mais distantes e remotas. Afundado nas trevas mais densas e espessas, rememorava os anos vividos, as andanças pelo mundo, pelos continentes.

Na infância foi buscar as recordações dos pais, as brincadeiras de mocinho e bandido, os jogos preferidos de desafios, batalhas e guerras intercontinentais. Depois, na adolescência, o interesse pela história da KKK e das seitas ultra-direitistas do sul do país. Entreabriu um leve sorriso quando se lembrou de, já na universidade, atender ao chamado dos fuzileiros navais se alistando na marinha. O envolvimento com o serviço de inteligência, depois o serviço secreto, os cursos no FBI, na CIA, o memorável estágio na shabak.

Com mais demora deixou-se divagar sobre o crime que o levara a fugir para a Europa. Na academia se apaixonara pela bela Janeth Stone que insistia em ignorá-lo, desdenhá-lo, tratá-lo com insolente desprezo. Numa noite escura, exercitando uma operação de resgate no deserto, aproveitou-se do isolamento e estuprou a colega de turma. Temendo a denuncia, assassinou-a a coronhadas. Depois, com frieza e indiferença, decepou a cabeça e os dedos da formosa Stone, diluindo-os numa mistura improvisada com diferentes tipos de ácido, eliminando as possibilidades de identificação pelas digitais e arcada dentária.

Utilizando as técnicas de disfarce, evasão e camuflagem aprendidas nos cursos de espionagem, escapou ileso e cinco dias depois do crime estava no outro continente, apresentando-se na Legião francesa.

A Legião Estrangeira abrigava todos que a procuravam, sem as inconveniências de perguntas sobre a identidade e o passado dos aspirantes. A organização do governo francês empreendia o serviço sujo e ilegal que o exército regular estava impedido de realizar. Treinava seus integrantes nas técnicas de guerra, assalto e guerrilha, aplicando exercícios de táticas e estratégias militares só suportáveis pelos mais fortes e brutos, encaminhando comandos para realização de arriscadas operações em toda a parte do mundo, para fazer o que fosse, sem permitir sequer a possibilidade de questionamento ou reflexão de caráter ético, legal ou moral. Em contrapartida, os que sobreviviam aos cinco anos de serviço militar em missões quase impossíveis, obtinham uma nova identidade e a cidadania francesa. Era o perdão por tudo o que de pior tivessem cometido no passado.

Neste período, Idemas foi deslocado para missões no oriente médio, na África e na América Latina. Foi quando percebeu um filão para enriquecer, um nicho poucas vezes explorado. Os conflitos nacionalistas locais e regionais, de fundo político ou religioso, ocorrendo simultaneamente nos diversos continentes, exigia exércitos privados, de combatentes mercenários e justiceiros profissionais. A terceirização acabava de se estabelecer nas guerras entre os povos e as nações.

Ao dar baixa na Legião, decidiu ganhar a vida como combatente das liberdades. Não saberia bem identificar o que significava aquela expressão, “combatente das liberdades”, mas gostou da sonoridade da frase enveludando os ouvidos. Convenceu trezentos e cinquenta colegas que integravam a Legião Estrangeira e outros companheiros renegados da CIA e do Mossad para, juntos, formarem um exército privado.

Lembrou-se quando, em 1979 inaugurou os novos negócios vendendo seus serviços ao Pentágono. Foi lutar ao lado dos guerrilheiros islâmicos mujahidin no Afeganistão. Desde essa época sua fama de cruel e sanguinário ganhou o mundo. Após aprisionar os soldados russos, torturava-os com tamanha violência e furor que os jovens recrutas logo suicidavam, muitos se enforcando com as próprias mãos.

É deste período que conheceu a jihad, a guerra santa de Osama bin Laden e Ayman al Zawahiri. Tornou-se homem de confiança do Taleban e um dos inspiradores da Al Qaeda. Quando expulsaram os russos fazendo do Afeganistão um país fundamentalista, conduziu seu exército privado à missões na Eritréia, Somália e Egito, sempre a soldo da organização ou governo que melhor remunerasse. Contratado pelo governo do Sudão, estruturou as milícias janjaweed e fez de Darfur sinônimo de inferno e genocídio. Os assassinatos, estupros e a política de “terra arrasada” levaram 1,5 milhões de pessoas a deixar suas casas; 50 mil foram mortas e 200 mil obrigadas a fugir para o Chade.

Rememorou as horas aflitas se desculpando com al Zawahiri por não ter jogado seus homens no 11 de setembro. Participou do planejamento disponibilizando informações e contatos, elaborando mapas e roteiros, mas sentia-se impossibilitado de guerrear contra seu próprio país e implorou como uma criança até conseguir ser dispensado de atuar no teatro de operações de uma forma mais direta.

-Vocês americanos jamais serão fundamentalistas como nós, ainda que assumam a jihad e se convertam ao islamismo – disse bin Laden, reprovando o que considerava, no mínimo, uma incoerência do amigo norte-americano.

Aborrecido com as discussões e as advertências da direção da Al Qaeda, concordou em atender ao pedido de um antigo aliado, Donald Rumsfeld.

-Preciso que vá para a Cisjordânia eliminar os dirigentes das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa – pediu Rumsfeld.

-Vai custar muito dinheiro – cobrou sem rodeios John Idemas.

-Dinheiro nunca foi problema – finalizou a conversa Rumsfeld, dando as costas para o vingador.

Edemas escolheu, a dedo, cinco de seus melhores homens e partiu para Nablus. Lá, com o suporte logístico do Mossad e da shabak foi eliminando, um a um, os integrantes do alto comando das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa. Quando conseguiu dar cabo da missão, ligou para o amigo ilustre.

-Estou partindo, companheiro; a casa repousa em ordem - falou Idemas.

-Vá na paz de Deus – agradeceu Sharon, repetindo que mantinha no bolso a cidadania israelense para quando quisesse descansar.

-Não sou homem de pendurar as chuteiras, Ariel – respondeu o vingador que, prestes a desligar o celular complementou. –Vou partir, não sem antes deixar um brinde, um presente para o amigo.

Na manhã do dia seguinte, enquanto discursava no parlamento, Ariel Sharon foi interrompido pelo assessor de segurança interna, que conduzindo-no a um canto do plenário, confidenciou-lhe ao ouvido.

-Idemas seqüestrou 24 crianças palestinas. Foram sete meninas de sete anos, oito de oito anos, e nove garotinhas de nove anos. Estuprou-as com seus homens e, após, executou todas elas com tiros na cabeça.

Ariel se limitou a respirar fundo antes de retornar à tribuna para dar continuidade ao discurso sobre o road map, com sua empáfia costumeira, como se reinasse no ambiente absoluta normalidade.

Enquanto se deslocava para a ilha de Bali, John Idemas atendeu ao telefonema de amigos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Mantinha um rentável contrato com as FARC, a quem emprestava assistência técnica e consultoria. Chegou a estar pessoalmente, por três vezes, na base de San Felipe, de onde retornava com malas e baús repletos de narco-dólares.

-Fique a postos, talvez precisemos de vocês, - falou o colombiano.

-O que é? – perguntou interessado Idemas.

-Se perdermos o plebiscito na Venezuela, daremos um golpe, ao lado do comandante Chávez.

-E o Brasil?

-Já está tudo combinado lá por cima. Fique atento. No país do futebol temos uma beque central na Casa Civil, no coração do poder. Relaxe, é ali que se estabelece a articulação entre o ETA e as FARCs...

Na Ásia, ainda nos tempos de Reagan, coube à organização de Idemas institucionalizar a rede de extremistas islâmicos Jemmaah Islamiyah. De modo que quando chegou à Ilha de Bali já o aguardavam antigos camaradas, agora no comando da Jemmaah. Orientou então o planejamento detalhado do atentado e se retirou rapidamente da ilha, antes da explosão transformar em pó e cinzas 202 vítimas indefesas da ação terrorista.

Enquanto aguardava o julgamento, as lembranças iam ficando cada vez mais vivas na memória. À medida que as cenas do passado se sucediam, percebia que não havia nada, absolutamente nada, nenhuma só ação que pudesse levá-lo ao arrependimento. “Não terei que aborrecer Deus com pedidos de clemência e perdão”, dava asas aos pensamentos. Apenas se lamentava não ter se deslocado a tempo de compartilhar a glória do amigo tchetcheno Basayev em Beslan, na Ossétia do Norte.

Um único fracasso assombrava suas memórias, levando-o ao descontrole e desespero. Essas lembranças impulsionaram-no a esmurrar as paredes do quarto, ainda que estivesse com todos os dedos das mãos quebrados. Por mais que tenha se esforçado, não conseguiu impedir que os iraquianos enfurecidos emboscassem, enforcassem e incinerassem quatro compatriotas seus, retalhando-os para, a seguir, pendurar as partes numa ponte em ruínas. Para se vingar, tomou cinco mulheres iraquianas, as primeiras que encontrou, e decapitou-as sem piedade. Os corpos das senhoras idosas foram encontrados com as cabeças amarradas às costas, nas proximidades de Dujail.

Repentinamente a porta do quarto escuro se abriu e cinco soldados escoltaram Idemas para o tribunal.

Diante do magistrado, em completo desespero de causa, de forma ridícula e estapafúrdia, Idemas protagonizou uma conversão à fé islâmica, passando aos brados a recitar os versos corânicos, jurando fidelidade ao Alcorão.

Percebendo que os jurados se irritavam com o dramalhão, Idemas mudou de estratégia e passou a discorrer sobre suas históricas relações com Ronald Reagan, e agora com Bush e principalmente Donald Rumsfeld. Gritando, relatou os casos amorosos mantidos com Margareth Tatcher e Golda Meir. E as conversações frequentes que mantinha com Mario Borghezio, Ariel Sharon, Augusto Pinochet, Muammar Ghadafi, Fidel Castro, Hugo Chávez e Hu Jintao, Lula e Mahmoud Ahmadinejad .

Mas repentinamente, como se tomado por uma força sobrenatural, interrompeu o discurso, a argumentação, a defesa desconexa. Silenciou e não mais disse palavra. Num repente se convencera que a sentença já estava lançada e tudo o que dissesse ou fizesse cairia no rol das irrelevâncias. Nem mesmo seu presidente confidente Hamid Karzai ou seu amigo-irmão Rumsfeld poderiam socorrê-lo. Tinha diante de si o próprio epílogo. Encontrava-se frente a frente com os derradeiros momentos de sua vida. Transtornado, ainda conseguiu escutar o juiz afegão decretando a sentença.

“Morte por fuzilamento”, se limitou a repetir em pensamentos John Idemas, agora de cabeça vergada, baixa de vergonha. Deplorava o destino injusto que considerava estar recebendo.

Enquanto era conduzido ao pátio de execução, lembrou as altas autoridades com que, por todo o tempo, manteve frenéticos relacionamentos. Presidentes, ministros de Estado, parlamentares, mega-empresários, autoridades importantes e que agora, enquanto amargava a desgraça, alegavam desconhece-lo, chamando-o de louco e mentiroso.

Não escutou os tiros e nem sentiu as balas explodindo seu coração. Só então John Idemas percebeu que a morte já o havia buscado em algum momento distante da infância. Desde então se tornara um zumbi assombrando a vidas das pessoas simples e humildes. Alcançava-as em todos os lugares, em todos os países, em todos os continentes, apoiando a ideologia que fosse, a religião que melhor pagasse por seus serviços.

John Idemas atentou então que jamais morreria. Percebeu que a morte era um privilégio que jamais experimentaria. Um privilégio que não era dado aos mensageiros do diabo.

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* Este conto é uma peça de ficção. Qualquer semelhança com fatos, datas ou nomes de pessoas terá sido mera e fugaz coincidência.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O SANTUÁRIO DOS SKINHEADS



   Maria Patrícia e João Siló comprimiam-se debaixo de uma árvore devorando-se mutuamente. Eram duas horas da manhã, e na solidão de um quadrante discreto da Praça da Sé, sentiam a excitação da liberdade para amar e doarem-se um ao outro.
   Patrícia, 14 anos de plena juventude, dali a oito horas embarcaria no ônibus que a levaria de volta ao sertão do Piauí, de onde saiu com João Siló, um ano atrás, para fazer a vida em São Paulo. 

   Saíram do sertão fugidos. Não havia na pequena cidade do interior do Piauí quem cogitasse admitir o amor de Patrícia, a deusa adolescente, pelo experimentado João Siló, 51 anos de idade. Fosse rico e tudo estaria acertado, que a vida é farta de generosidade para com os que amealham riqueza e poder. Mas João era um coitado, pobre de recursos e de instrução formal. Nem chegou a completar o primeiro ano do primeiro grau. Com meio século de existência, seu patrimônio pessoal se limitava a uma tapera que a custo empinava na vertical. Casou sete vezes. Das cinco primeiras esposas despediu-se com lágrimas, cuidando com zelo dos funerais, guardando luto clerical. A sexta, Dolores, caiu quando o tino entrou em ebulição, fervendo a ponto de exalar fumaça pelas orelhas, faíscas e pequenas labaredas pelo couro cabeludo. Dolores consumia o que restava da vida enclausurada em um manicômio público, com a cabeça mergulhada em uma bacia com água e barras de gelo, que era para manter a temperatura sob controle, evitando que a cabeça evaporasse. Por fim, a ultima esposa, Josefa, o fez amargar a dor da traição. Incrédulo, viu quando a mulher amada partiu, seduzida pelo motorista do caminhão pipa que ostentava no corpo um emaranhado de pulseiras e colares de latão batido que jurava ser ouro de puro quilate, extraído de serra pelada. Desde então, o coração enrijeceu e se fechou para o amor. Amargurado, João Siló vivia só, como um hermitão, se ocupando do que mais gostava, do que verdadeiramente lhe dava prazer naquela vida tão sofrida e arrastada, apresentar seu cassimiro coco, fazer seus bonecos endiabrados fartar o povo de alegria e prazer. 

   Noivados e casamentos; comícios e reuniões políticas; inaugurações, festejos cívicos e atos populares; aniversários; batizados; e nem mesmo o dia reservado aos finados e os rituais fúnebres passavam ao largo da animança de João Siló e seu teatro de bonecos salientes. 

   No funeral de Pedro Sarmento, o prefeito mais poderoso e popular do nordeste, foi contratado pela família para fazer o brinquedo no portão central do Cemitério. O povo acorreu em massa para prestar os últimos sentimentos ao morto e as condolências à numerosa família. Deitavam sobre o caixão as coroas de flores e as lágrimas de despedida para depois irem, depressa, se divertir com o fuzuê que João Siló aprontava com os bonecos malcriados. Eram criaturas inertes que adquiriam vida própria, sem papas na língua, criticando os coronéis da política local, sapecando couro nos poderosos, soltando cobras e lagartos na polícia que reprimia e nas autoridades que corrompiam. Nem mesmo ao difundo, ainda quente na cova oficial, dava tréguas.  

   Foi nessa apresentação que a vida de João Siló deu mais uma guinada radical, uma virada de cento e oitenta graus. Enquanto apresentava-se manipulando com maestria os bonecos de luva, viu pelo ponto translúcido da empanada, de onde acompanhava os movimentos da platéia, a mulher que de forma definitiva, arrebataria seu coração solitário e sofrido. Dentre os demais assistentes, ressaltava formosa, a bela Maria Patrícia, uma garota com traços angelicais que, compenetrada, divertia-se na primeira fila da platéia. Apesar de criança, o corpo já apresentava a sensualidade de mulher formada. Não menos de trezentas pessoas firmavam pé, se divertindo com as traquinagens dos bonecos. O titeriteiro servia-se da fresta, por onde monitorava a platéia, para colar os olhos na musa dos sonhos de todos os homens da região. E dedicando a ela, exclusivamente para a candura por quem abrasava seu amor, esmerou numa apresentação de duas horas de duração. Jamais se apresentara por tanto tempo e com tanto prazer e sucesso. A platéia aplaudiu em delírio minutos a fio. Todos imaginaram que a ousadia criativa do arrojado bonequeiro se devia à emoção da perda do perfeito, amigo companheiro de todos. Mas o coração de João Siló, e tão somente ele, compreendia as razões e os motivos para performance tão delicada e primorosa. 

   Sem entender as razões e o instante, Maria Patrícia também foi se apaixonando por aquele invisível condutor de bonecos; se encantando pelo rosto que desconhecia; pelo corpo que a empanada, em clara cumplicidade, escondia. Mas a voz que fluía dos bonecos buliçosos era suficiente para entender que estava diante da alma gêmea, a que atravessaria a existência em sua companhia. De modo que quando, ao final do espetáculo, o homem emergiu suado por detrás da empanada, Patrícia não se espantou com seus cabelos grisalhos e nem com aquele corpo forte e calejado pela labuta e desatinos. Ao contrário, teve a certeza de que seus sonhos e premonições continuavam confiáveis.  Por muitos minutos ficaram inertes, pupilas cruzadas, palavra ou reação alguma a se interpor entre os dois. Sabiam um do outro, e nada que dissessem ou fizessem seria mais forte que a comunicação única que ali se estabeleceu.  

   Foi necessário que dona Santica saísse aos impropérios, arrastando a filha de volta para casa. Mas foi o tempo de ajeitar na mala a barraca e os bonecos, e lá foi o apaixonado bater à porta da casa dos Raimundo Nonato, à porta do castelo de seu amor platônico. Quando falou ao pai de Maria Patrícia do amor que explodira em ambos, percebeu que teria pela frente uma parada dura. O velho Raimundo Nonato custou a acreditar no que ouvia. Imaginou ser mais uma lorota do filho mais velho, acossado pelo autismo que degenerava, e dando aos sobrolhos expressão de gravidade - por dentro irrompia em gargalhadas - por educação, despachou a mulher para o quarto em busca da filha. 

   - Filhinha, o mestre do cassimiro coco afirma que se apaixonou por você  e você por ele - disse o pai com dificuldades para segurar o riso que irrompia pelos poros da pele. 

   Ávido por uma palavra da filha que reduzisse tudo às traquinagens do primogênito da cabeça perdida, o velho Raimundo Nonato percebeu a surpresa malévola no ar. Sem esperar que o atencioso pai terminasse a frase e a menina Maria já estava com as pernas cruzadas nas cadeiras do titeriteiro, irradiando felicidade, cobrindo-o de beijos e carícias. Comportavam-se como conhecidos de décadas atrás, assumindo na frente de todos uma intimidade só permitida a marido e esposa abençoados pela santa madre igreja e oficializados pelo cartório público. 

   Os pais, estarrecidos, não conseguiam esboçar reação. Falavam por códigos e sinais imperceptíveis aos demais presentes. Resmungando, se acusavam mutuamente pela demência da filha, tipificada pela loucura explícita de se apaixonar intempestivamente por um homem quase quarenta anos mais velho, com perfil para avô e não para marido. 

   Quando percebeu a situação longe de controle, Raimundo Nonato passou a tagarelar, destilar palavrões, os nervos rompendo em erupção a pele vermelha de cólera, e logo estava disparando rajadas de tiros de sua cartucheira de repetição. Não sobrou alternativa para o rei do cassimiro coco que não fosse bater em estratégica retirada.   

   Mas mal caiu a noite e já estava auxiliando Maria Patrícia a fugir pela janela do quarto. De bicicleta, correram para a cidade mais próxima de onde tomaram a jardineira em direção à São Paulo. Uma cidade com nome de santo deveria ser um torrão do paraíso, um lugar decente e generoso.  

   Na cidade grande, ganhavam a vida com o teatro de bonecos, apresentando-se em escolas, praças públicas, universidades e onde mais conseguissem reunir pessoas. O mundo real para Maria Patrícia e João Siló tinha a graça e a felicidade do mundo dos bonecos que manipulavam com destreza.  Todavia, um ano de casada, distante dos pais, da família e das amigas, fez abrir no coração criança de Maria Patrícia, um vergão, poço insuportável de saudades que virou angustia, desolação. Escrevia pelo menos uma carta por semana, e com a mãe falava ao telefone todo o ultimo dia do mês. As conversas e confabulações, travadas do desterro, aliado ao efeito que o tempo exerce sobre desavenças passadas, fez com que os ressentimentos se amenizassem, e todos se convenceram que o melhor seria o casal retornar e consertar – aos olhos da família – o crasso erro perpetrado. Deveriam se casar na igreja, recebendo as bênçãos do padre e a certidão do tabelião, tudo conforme o figurino e a ritualística cristã.  

   Então, no dia do embarque, se deixaram ficar na Praça da Sé, namorando, curtindo o amor sincero e inocente, se despedindo da cidade com nome de santo, a cidade que os acolheram quando se impuseram o exílio. 

   Enquanto a madrugada cavalgava a noite, acompanhavam, entre curiosos e indignados, as manobras do exército de abandonados que ocupava a praça, transformada agora em um trincheira onde convalesciam os feridos de morte, os que tiveram amputadas as almas. Os depauperados, à míngua, arrastavam-se de uma marquise para outra, buscando um abrigo seguro que jamais tiveram, que jamais teriam. Ali, Maria e João, cúmplices num silêncio mortal, perceberam que à volta só restavam os refugos de guerra, pobres desgraçados que a vida maltratou, templos sagrados que a vida profanou insidiosamente. Corações riscados na navalha cega da esmola, decepados no vidro onde corria a flanela nos intervalos dos sinais luminosos, estraçalhados pelos olhares sarcásticos que gritavam “vai trabalhar vagabundo”, moídos pelo desvelo de que o valor da vida se restringia ao centavo atirado com repulsa e escárnio, violentados pelo abandono da família e dos amigos, estuprados pelos políticos de olhar cândido e agulhão de escorpião, perseguidos pela sina da pior solidão, aquela em que se está envolto por multidões de multidões. Os que chamavam mendigos, sem teto, moradores de rua, arruaceiros, vagabundos, lumpesinato,  parias e escórias da sociedade, eram na realidade rebentos largados à própria sorte, desprovidos de um anjo da guarda, de um santo protetor, de uma divindade, de um deus qualquer ainda que de letra minúscula. Ninguém para zelar, para curar uma ferida, para uma carícia, afago ou palavra de conforto, ninguém para rezar, para oferecer a mão, cantar o bom dia. Largados na praça, jaziam vivos crianças, jovens, adolescentes, idosos, homens e mulheres, anjos transviados vagando numa procissão de zumbis. As faces envoltas em sacos plásticos derretiam-se na cola de sapateiro. Cachimbos de crack tragavam o ultimo naco de sonhos e esperanças. Homens e mulheres tornados escravos do álcool, do aguardente barato curtido na soda cáustica. João e Maria dialogavam em pensamentos: “... um pouco só de amor e carinho e tudo seria diferente ...”. 

   Enquanto os dois amantes sofriam o cenário de guerra, de terra arrasada, dois opalas encostaram junto ao canteiro central da praça. Dos automóveis desceram três policiais e seis homens fortes, todos carecas. Rápida e silenciosamente correram em direção a um grande grupo que adormecera sob a maior das marquises. Um policial e um skinhead, ambos com tacos de basebol, se adiantaram sobre os demais. E violentamente foram golpeando as cabeças que jornais, sacos de linho e retalhos de cobertores procuravam proteger da luz de néon e do frio. As pancadas de precisão cirúrgica explodiam no ponto em que tocavam, reproduzindo a cada golpe um aspersor que irrigava com sangue a calçada imunda, imitando o da praça, a irrigar com água as flores ressequidas do jardim esquecido. Exímios jogadores de basebol. Uma única pancada para cada bola viva. Precisa, certeira, exata, rigorosa, científica, infalível, definitiva, matematicamente eficaz. Para cada batida na bola viva, uma vítima, um morto. Jogadores obtusos, covardes, hediondos, desprezíveis. E tão rapidamente como chegaram, partiram sem deixar vestígio. 

   Horrorizados e sem saber como proceder, João Siló e Maria Patrícia correram em direção às vítimas do napalm. Tentavam prestar qualquer auxílio que fosse. Mas que ajuda emprestar diante de tão brutal chacina? Aquilo parecia uma grotesca chantagem contra a humanidade. Desesperados, conformaram que, naquelas circunstâncias, o melhor seria chamar a patrulha. Ligaram cinco vezes do orelhão mais próximo e de tanto insistirem, duas horas depois aproximou-se uma viatura policial que saíra da delegacia situada a um quarteirão da praça, situada a um reles quarteirão do campo de guerra, do cenário onde transcorreu na menor fração do tempo a mais abominável, vil e covarde das batalhas, onde petardos de dinamite foram entregues a crianças como se brinquedos presenteados na noite de natal. 

   No chão vermelho de sangue, João Siló recolheu um panfleto dos verdugos defendendo o holocausto e a eliminação sumária dos nordestinos, negros e homossexuais.   

   Foi quando decidiram. A cidade, com nome de santo, havia perdido a áurea e o encantamento das divindades. Tornara-se santuário dos skinheads. Após o casamento não mais retornariam à Santo Paulo. Naquela metrópole, o amor sobrevivia confinado em sobre-planos frágeis e voláteis, ocupando pequenas frestas, restritas ranhuras, pontos minúsculos circunscritos ao espaço infinitesimal. O amor tornara-se fleumático para os homens e por isso travava um embate desigual contra o ódio, a intolerância e a violência explícita. Deixariam ficar no sertão do Piauí onde havia ainda espaço para cassimiro coco e sua trupe de bonecos brincalhões.

Rodoux Faugh