segunda-feira, 20 de outubro de 2014

MAZOMBO

Maria Luiza sentiu um calafrio singrar a espinha até ancorar na parte posterior da cabeça. Preocupava-se quando o fenômeno se repetia reiteradamente, como durante toda a semana. Desde a noite anterior esperava aflita Joaquim, o homem de sua vida, forte, alto, inteligente e generoso o suficiente para tirá-la da vida fácil, tornando-a ainda menina, mulher completa e feliz.

Palpitações, calafrios e sobressaltos sempre foram, em sua vida, sinais de maus prenúncios. Ora anunciavam um aborrecimento iminente, ora um dente que latejaria dali a minutos, a maior parte das vezes, a tragédia da perda de alguém muito próximo e querido.

Nessas horas lembrava-se das agruras do amado. Recordou quando, tempos atrás, sobressaltos repetitivos se confirmaram como um perigoso e grave incidente. Joaquim indignado com a humilhação e o suplício que um dono impunha ao seu escravo, resolveu intervir. E por sair em defesa do negro, foi punido com a perda da tropa que lhe dava o sustento. Anos e anos de sacrifícios, mascateando entre o Rio de Janeiro e Minas, percorrendo toda aquela dispersa região, formando uma sólida rede de fregueses compradores para colocar tudo a perder por conta de sua bondade e senso de justiça.

De nada adiantava Maria Luiza chorar, bater perna, reclamar para aquele homem magro, ombros largos, longos e belos cabelos acastanhados. De nada adiantava implorar, suplicar para que se distanciasse das confusões. Joaquim era assim e pronto. Melhor resignar e conformar com a escolha daquele que considerava a justiça patrimônio inalienável da humanidade, valor extremo, acima de tudo, inclusive de sua própria vida. Por isto Maria Luíza revirou-se na cama por toda a noite sem conseguir pregar os olhos. Mal rompeu o dia e os calafrios já reverberavam suas preocupações premonitórias.

“O destino está inscrito nas estrelas e nos planetas” dava cordas ao pensamento a menina-mulher. Como se preparando para a notícia que tardava, mas que sabia, viria fatídica. Algo de muito ruim se anunciava para seu amor.

Um dos predicados que Luíza herdou da mãe foi a prestidigitação e a facilidade de - esquadrinhando os astros - ler o futuro das pessoas. Desenvolvera como ninguém a habilidade de fazer desaparecer objetos, a arte do ilusionismo. No estudo das leis da abóbada celeste especializou-se na ciência do tempo, na astrologia. Através da marcha do sol avaliava o tempo de vida que restava nos que a procuravam. E da posição das estrelas e constelações, extraia as possibilidades de materialização dos sonhos, desejos, aspirações que tocavam sussurrantes em seus ouvidos. Interpretava os sonhos e desnudava seus mistérios.

Mas como o assédio crescia incontrolavelmente, fingiu ter perdido os dons mediúnicos e espirituais, de modo que fez o tempo solitário, para dedicá-lo inteiro ao amado Joaquim, a pessoa mais importante de sua vida, razão do viver, cuja perda significaria para si dor e também morte.

Tentava se entreter com outras coisas, esquecer da aflição que a demora de Joaquim causava. Mas de sua memória só emergiam lembranças ruins, pesadelos que havia previsto, e que devido à pragmática incredulidade, o amado insistia em não observar. Por inúmeras vezes sibilou a Joaquim: “os astros orientam, não determinam. Não devemos nos manter indiferentes aos seus sinais, traz mau agouro”.

A concentração fugidia impeliu Maria Luíza à rede, atada a um gigantesco pé de ingá cuja sombra avançava sobre a cobertura da casa simples e aconchegante.

A sombra entrecortada pela brisa fresca fez avivar mais ainda a memória.

E lembrou da fama que corria daquelas paragens ao Rio de Janeiro, testemunhando Joaquim como o melhor cirurgião, boticário e tirador de dentes do mundo. Carregava sempre consigo a caixa de ferrinhos e o boticão, e os utilizava magicamente, como se manuseasse entre os dedos plumas e fios de algodão. Companhia inseparável a caixa com emplastros de ervas, águas milagrosas e drogas que preparava com ciência e esmero.

As lembranças galopavam no cérebro da doce menina-mulher, quando rompeu no horizonte Joaquim José.

Maria Luíza não soube como pulou da rede, venceu a considerável distância que os separavam e na fração do segundo, se viu sobre seu homem, com as pernas salientes enforquilhadas trançando a cintura viril.

Joaquim, como fazia sempre, cobriu-a de beijos e carícias, sussurrando ao ouvido doces palavras de saudade e paixão. E conduziu a mulher para a cama de capim macio enquanto vestia-a de carinho e afeição. Envoltos nos lençóis límpidos de aroma silvestre deixaram-se entregues ao mais avassalador e intenso prazer. A distância e o tempo mantiveram-nos afastados por dois meses. Dois intermináveis longos meses. Extasiado, Joaquim adormeceu com a cabeça sobre os abundantes seios nus da mulher que fizera sua. Independentemente das conveniências e pactos sociais, escolhera para confortar o coração Maria Luísa. Não sentia culpa ou remorso por coisa alguma. Não. Quando juntos, o tempo e todo o resto paravam em deferência ao amor que dali brotava. Na intimidade, seu coração jamais deixou um naco sequer de dúvida a respeito da mulher que o escravizara. Por isto curtia extrema fidelidade à amada, e a ninguém mais.

Maria Luísa era uma escultura extraída dos palácios gregos. De tão graciosa e formosa, parecia esculpida pelas mãos mágicas dos deuses helênicos. Boa estatura, pernas longas e torneadas, quadris insinuantemente provocantes, seios salientes, bicos empinados como perfurando o vestido de seda colante, sempre justo, uma segunda pele dando contornos elegantes e sedutores à verdadeira. O rosto perfeito, encontro harmonioso dos fortes traços do pai negro com a delicada fragilidade da mãe francesa. Lábios cheios esnobando carne e volúpia. Olhos castanhos, profundos, olhos de lince. Como brincava a mãe, era uma ninfa a quem os deuses do Olimpo permitiram, momentaneamente, incursionar pela existência temporã.

Não bastasse a beleza física, a esplendorosa perfeição recebeu como herança da mãe os ensinamentos da arte proibida do prazer sexual. Dona de casa de prostituição em Paris, a mãe Françoise faleceu vítima do empaludismo mal aportara em terras mineiras. Mas conseguiu, antes de partir, legar à filha o domínio do idioma francês, os mistérios da prestidigitação e da astrologia, e os segredos fascinantes da cópula perfeita, capaz de tornar o amor tórrido e pleno.

O que hipnotizava Joaquim não era apenas a beleza impetuosa de sua morena, tão pouco sua perspicácia, inteligência e cultura cosmopolita. Admirava, sobretudo, a capacidade de conduzi-lo a um tipo de orgasmo jamais experimentado. A diva aprimorou a técnica que aprendeu da mãe, de contrair e distender os músculos da parede vaginal. De modo que mal esperava Joaquim introduzir sem membro rijo por inteiro, e Luíza fazia as paredes da vulva trepidar sincopadamente, primeiro uma convulsão sutil, que acentuava com os movimentos, até tornar-se voluptuosamente frenética, como que asfixiando, enlouquecendo seu homem, que urrava ante o prazer mais intenso e avassalador. Ao jorrar o leite espesso no âmago da mulher amada, Joaquim era um lobo, e uivava transbordando felicidade e satisfação.

Com sua princesa sentia-se outro, feliz, encorajado para enfrentar os desafios, mesmo os mais difíceis. Foi com Maria Luíza que deu asas ao pensamento, e era ela quem auxiliava-o a traduzir, do francês, a coletânea de leis americanas. É bem verdade que a fada-mulher reprimia-o insistentemente, aborrecia afirmando estar bolinando o perigo mais temido, o que lidava com o confronto das idéias. Alertava-o sobre os riscos da prisão, da forca e do desterro. Mas fazia desobrigando-se de um encargo de consciência. Estava mais que convencida que o amado fazia o já tardava em ser feito.

Ao acordar leve e disposta, Luíza novamente saltou sobre Joaquim, fazendo-o come-la por inteira, febrilmente. Primeiro caiu de boca sobre seu cacete duro e grosso, chupando-o intermitentemente, liquidifiqueando com a língua a cabeça latejante. Depois colocou-se de quatro, empinando a bunda e permitindo que seu ânus sedoso abrigasse a deliciosa dor que remia. E quando o éden multicolorido se anunciava com trompetes e flautas doce, virou-se bruscamente, escancarou as pernas e entregou a buceta sequiosa, púrpura, encharcada de prazer e júbilo. Subiram e desceram um milhão de vezes o monte Everest. Depois se deixaram, fartos, na cama. Até altas horas da manhã. Ainda deitados, num rompante, se queixou à mulher:

- Não passarei de alferes.

Suspirou profundo antes de continuar.

- Cabo, furriel, sargento. Caso permaneça no regimento, morrerei alferes.

Deu mais uma longa pausa de onde extraiu forças para continuar o assunto que o atormentava.

- Já fui preterido quatro vezes na promoção. Vou pedir licença e mexer com mineração.

Voz grave, Luiza respondeu com costumeira sabedoria.

- Sempre te disse que eles jamais aceitariam mazombo. Você sabe, pra que iludir? Parece que gosta de sofrer! – respondeu Maria Luiza quase irritada, para completar: - Larga mão da mineração que não vai dar certo. E esqueça esse negócio de canalizar o Andaraí e o Maracanã.

Joaquim deu de ombros, incomodado com as premonições da mulher. “Como diachos foi saber de suas intenções com a engenharia sanitária?”pensou purgando inquietação.

Maria Luíza para reanimá-lo pegou o Recueil des loix constitutives des colonies angloises confederées sous la dénomination d`États Unis de l`Àmérique septentrionale, publicação francesa presenteada por Álvares Maciel, e passou a traduzi-lo.

Joaquim José, pura concentração, encantava-se com as leis americanas e com as idéias de Jefferson. Escutava a voz encantadora da mulher traduzindo os princípios libertários que sonhava vigorar nesta terra continental de opressão e tirania.

Continuaram então na cama por três horas ininterruptas, estudando e discutindo o livro francês, até que se cansaram, e novamente tornaram-se sexo.

Quando teve orgasmo múltiplo e se virava tirando seu corpo de sobre o de Joaquim, Maria Luíza teve uma visão terrífica. Mas nada falou apesar da insistência do amado. Só no dia seguinte, quando despedia o amado, se permitiu dizer:

- Não entendo. Recebo sinais que você deve manter distância de Joaquim.

- Manter distância de mim mesmo? – caçoou Joaquim José, procurando desconversar.

- É isto que não compreendo. O mal dos males ronda seu espírito, mas estou confusa. Vejo um espírito maligno à sua volta de nome Joaquim ... mas não é você ... é muito estranho, estou confusa..

- Já falei que você deve parar com essas bobagens. Te deixam louca. E a mim também.

- Não, escuta. Falo sério. Vejo um espírito ruim, vejo coisas ruins, vejo uma corda, uma forca, um corpo retalhado ... quatro partes. Um demônio que tem o seu nome, Joaquim....

Enquanto percorria em procissão as ruas estreitadas da cidade, Joaquim José lembrava das palavras da mulher amada, das premonições, todas verdadeiras e confirmadas com o compasso do sol, as enfermidades, os acontecimentos, a perda da tropa, o fiasco na mineração, as cirurgias, a tiração de dentes aliviando a dor de tantos, o desdém do vice-rei esnobando seus projetos de canalizar os rios e melhorar o abastecimento de água da cidade, a mãe que perdeu aos 9 anos e o pai aos 15, o padrinho Leitão que o fizera mestre na lida com o boticão, a derrama ...

Quando chegou ao Campo da Lampadosa e subiu ao cadafalso, Joaquim José já havia passado toda a vida e só tinha pensamentos para Maria Luíza.

Por isto Frei Raimundo de Penaforte não entendeu o sorriso sutil que Joaquim permitiu esvair dos lábios finos, quando a corda de aço cingiu o pescoço, libertando-o dos três anos de suplício.

“Tinha o coração bem formado” conseguiu concluir em pensamentos o frei antes de dar por concluída a extrema-unção.

O nevoeiro denso e cerrado fazia indevassável a boca da noite. Com muita dificuldade, chorando em bicas, Maria Luíza retirou a cabeça de Joaquim José exposta na ponta mais alta do poste iluminado. Cobriu-a delicadamente com o lenço de ceda branca e foi enterrá-la à sombra do velho ingá, a árvore frondosa que abrigara sua aventura revolucionária e amorosa.

A pequena cova envolta por terra revolvida, abrigava agora a semente que tornaria a vida, dali a instantes, diferente, repleta de cravos vermelhos, rosas e margaridas amarelas radiantes de sol e luz.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Nossa Senhora e seu dia de cão

Leonardo da Vinci - Madonna Litta - 1490-91

Nossa Senhora e seu dia de cão

Quando o pastor, novo administrador do Serviço Municipal de Saúde, adentrou o hospital público mantido pela prefeitura e se deparou com a enorme imagem de Nossa Senhora Aparecida, exposta num pedestal de mármore branco, não conseguiu conter a ira e avançou violentamente sobre a santa, numa fúria demente, aplicando uma saraivada de murros, tapas e cotoveladas, fazendo-a minúscula, como que encolhida sequiosa por algum tipo de defesa ou proteção. Ao tempo em que espancava, o gestor protestante gritava aleives, palavras impronunciáveis, hediondas heresias e a Senhora Mãe de Deus restava prostrada no chão, feita em fragmentos.

O gestor estrilava obrigando o sangue rajar convulsivamente, ameaçando romper as paredes da jugular. Bramia sobre o ato pecaminoso de cultuar imagens, vociferando os ensinamentos bíblicos que proíbem tais disparates. Atordoava os ouvidos denunciando a frontal desobediência às leis de Deus, tão detalhadamente expressas no livro dos livros, no compêndio divino. Apontava o fogo do inferno como destino dos infiéis que adoravam imagens, enquanto pulverizava o ar com os minúsculos pedaços a que reduziu a santa, como que certificando que o contencioso não passava de barro amassado e cozido a fogo brando, preenchido por vento ordinário.

A cada rompante destilava ira e ódio. E asseverava a inconstitucionalidade dado que, sendo o estado brasileiro laico, a promiscuidade verificada entre religião e coisa pública estava vedada.

Mas se à oportunidade, providencialmente, propagava o caráter laico do estado nacional, convenientemente permitiu-se esquecer que, na semana anterior, orientou a bancada de vereadores evangélica a aprovar projeto de lei, obrigando fosse a bíblia disposta sobre todas as mesas das repartições públicas e das escolas mantidas pela municipalidade.

Tanta bulha fez o administrador evangélico que médicos, enfermeiros e pacientes, pasmos com a sandice em curso, correram com o que restou da imaculada santa.

Pastor Nazareno Gustavo inspirava medo. No ano anterior, após ter catequizado os servidores lotados na Delegacia de Polícia e na Guarda Municipal, organizou sua milícia particular. Mantinha sob férreo comando um disciplinado e bem treinado efetivo de dois mil e quinhentos homens, mobilizados para o combate militar.

Não se sabe as razões, mas fixou na mente a ressurreição das Cruzadas, guerra em que se degladiaram cristãos e muçulmanos e que se estendeu de 1.095 a 1.270. Traçou então a meta obstinada e extemporânea: reiniciada a guerra, iria à desforra invertendo o resultando da contenda, conduzindo finalmente os cristãos à vitória.

Durante boa parte da vida, estudou as expedições armadas medievais.

Decorou o discurso do Papa Urbano II, quando no Conselho de Clermont pregou a necessidade de libertar a Terra Santa dos turcos seljúcidas.

Como quisesse tornar o passado presente, reproduziu a vestimenta dos guerreiros cristãos medievais, distribuindo aos seus cruzados uma indumentária que ostentava no peito enorme cruz, além de armadura completa, espada, lança, escudo, bandeiras e estandartes, complementada por uma parafernália de adereços que ornamentavam os cavalos.

A primeira ação guerreira que encetou foi a invasão do Terreiro de Umbanda Pai Salomão. Planejou-a em minúcias para que nada escapasse ao controle. Uma guerra contra os negros seria bom teste para verificar o nível de treinamento das colunas, pois a guerra verdadeira para a qual se preparava seria contra os muçulmanos, que julgava mais perigosos em função do fundamentalismo e da devoção sem limites a Maomé.

O Terreiro de Umbanda Pai Salomão era um patrimônio cultural da humanidade, reconhecido pela ONU numa solenidade em que estiveram presentes autoridades de todo o mundo. A comunidade que abrigava o centro espírita remontava ao período da escravidão. Originou-se de um antigo quilombo implacavelmente perseguido pelos capitães de mato, mas que heroicamente resistiu graças aos zumbidos que a capoeira de Angola emprestava ao mover das pernas negras, longas e rijas dos kalungas.

Aplicar uma humilhante derrota àqueles remanescentes de escravos seria um ato de repercussão mundial, que daria publicidade à causa de arregimentar cristãos para, numa cruzada revitalizada, dar solução final ao problema dos negros, mulheres, homossexuais, minorias, defensores da ética na política e, sobretudo, fundamentalistas islâmicos.

Insistia com suas ovelhas da necessidade da nova investida ser blindada, de sorte a não ocorrer imprevistos. Relembrou o retumbante fracasso da ultima incursão cruzada, quanto investiram sobre o Parque Vaca Brava de Goiânia, tentando impedir a exposição Orixás da Bahia, mostra de belíssimas esculturas de Tatti Moreno.

Escolheu então o dia 15 de julho para invadir o terreiro. Propositalmente o mesmo dia e mês que, em 1.099, a cruzada comandada por Godofredo de Bouillon, após sitiar Jerusalém, conseguiu adentrar a cidade portal de todos os credos. Passou a prestar uma obsequiosa veneração a Bouillon após ler nos documentos históricos sua recusa em ser coroado rei de Jerusalém para “não por à cabeça uma coroa de ouro no mesmo lugar em que Jesus Cristo, Rei dos Reis, fora coroado de espinhos”.

Convenientemente, não se recordara o pastor da parte da história medieval registrando que - apesar do desenvolvimento verificado nas áreas comercial, cultural e militar - as cruzadas foram um fracasso, pois não atingiram o objetivo principal que era libertar Jerusalém.

O pastor e seu exército de milicianos aguardaram com impaciência a chegada do dia escolhido para perpetrar o mal.

O terreiro estava repleto de pessoas quando se viu devassado por um exército de encapuzados trajando armaduras metálicas, montando ostensivos manga larga marchadores, portando nas mãos espada, lanças, estandartes e tochas incandescentes.

Os gritos de guerra logo identificaram os milicianos como cruzados comandados pelo Pastor Nazareno Gustavo. Intermediava gritos de guerra e palavras de ordem com frenéticas orações apocalípticas. Enquanto varriam o terreiro com chamas incandescentes rugiam jargões racistas: que os negros se constituíam raça impura, descuido de Deus; que seriam exterminados; que a solução final intentada por Hitler contra os judeus, seria agora alcançada com as Novas Cruzadas; e que a hora do acerto de contas com os infiéis corruptores do mundo havia chegado.

Com destemperado fervor, excomungava as nacionalidades árabes, afirmando que se tornaram apêndices da Al Qaeda, pólos irradiadores do terrorismo internacional, fonte originária do império do mal. E que o demônio descera à terra se incorporando nas pessoas de Osama bin Laden e seu braço direito Khalid Shaikh Mohamed, que sonhavam dizimar a civilização cristã ocidental.

Para instruir seus cruzados na arte da guerra, estudou todos os movimentos terroristas, de direita e de esquerda. Começou pelas técnicas de assalto da Ku-klux-klan, organização aristocrática norte-americana, escravocrata, fundada em 1867. Admirava-se com a trajetória da organização racista que rompia os séculos queimando negros, refugos do demônio. Mas se encantou de forma especial revisitando a Europa de Mussoline, Hitler, Salazar e Franco. No Brasil cultuou Plínio Salgado.

Mas se deixou impressionar pela inteligência de Golberi do Couto e Silva, general capaz de engendrar um partido popular de intelectuais e trabalhadores que escantearia, em definitivo, os comunistas da vida nacional. O militar de estratégia fina e apurada fomentou a criação, com décadas de antecedência, do partido político de esquerda que, no poder, beatificaria o FMI e entregaria o Banco Central ao presidente do maior banco privado internacional, lançando à lata de lixo os valores e princípios que até o instante da posse, impetuosamente defendeu.

O pastor chegava ao delírio com a política externa brasileira. Em busca de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, o governo vendia a alma ao cão sanguinolento: enquanto na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas liderava a derrubada de uma resolução condenando a China pelos hediondos crimes contra os direitos humanos, no plano mundial fingia desconhecer a rede planetária de tortura criada pelos EEUU, ancorada em Guantânamo, Abu Ghraib e em porta-aviões estacionados em águas internacionais.

Na semana seguinte, esquecendo-se das lições que proferia sobre o estado laico distante das influências religiosas, demitiu sem pagar qualquer indenização, os servidores não evangélicos lotados na instituição de saúde municipal.

Dois dias depois, passado o impacto das demissões sem justa causa, transferiu para hospitais de municípios distantes, todos os enfermos que professavam outras religiões, disponibilizando senhas e vagas para internações apenas para os que professassem abertamente a fé originada por Martinho Lutero.

Outro passo que julgou importante dar: desmantelar a UTI e a enfermaria do Hospital. A Unidade de Terapia Intensiva era a única existente na região mais pobre do estado. Abrigava, sobretudo, pobres, que acorriam de todos os lugares, mesmo de estados longínquos como Maranhão e Pará.

Construiu no espaço desmobilizado o salão de orações Templo Evangélico Deus é Poder.

Em prosseguimento enumerou as doenças proibidas, aquelas que os médicos do Hospital Público Municipal Nossa Senhora de Aparecida - agora denominado Hospital Público Municipal Evangélico Martinho Lutero - estavam proibidos de lidar, dentre elas, DST e AID`s. Apregoava serem, não manifestações de doenças e enfermidades, e sim estigmas de Lúcifer, o príncipe das trevas.

No dia em que planejou desmobilizar todo o hospital para consolidar o Templo Evangélico, dia em que investiriam definitivamente sobre os pretos macumbeiros do terreiro espírita, reiniciando a guerra santa contra negros e fundamentalistas islâmicos, Pastor Nazareno Gustavo caiu em sono profundo. Adormeceu sedado pela mãe, a bondosa e justa Maria Evangelista.

A velha senhora dobrava ao peso da idade. E sofria com o desequilíbrio do filho. Desde que dera a luz o filho único, chorava escondida pelos cantos da casa. Na primeira vez que amamentou, mirou fundo nos olhos do recém-nascido, e viu a face esquálida da solidão, da angústia, do terror, do maligno. Desde a infância foi acompanhando, resignada, a demência progressiva do filho. Aos três anos o garoto já sacrificava cães, gatos e pequenos animais, estourando-lhes o tórax simplesmente para ver o coração pulsar, quando mergulhava em frenesi só interrompido ante o suspiro final dos agonizantes bichinhos. Cinco anos incompletos, hipnotizava cobras e serpentes. Aos quinze, foi impedido pela mãe de sacrificar sete crianças órfãs.

E assim foi, maldade após maldade, até que Maria Evangelista atinou que deveria consertar o estrago que causara ao mundo quando deu luz ao filho Nazareno.

Primeiro misturou à água do filho uma dose cavalar de barbitúrico. Depois afiou demoradamente a faca pontiaguda que utilizava para escalpelar porco.

Quando se viu pronta, tomou com passos firmes a direção do quarto onde seu menino dormia desmaiado. Apalpou varias vezes o pescoço do filho – como que acariciando - até que encontrou saliente, a veia jugular. Com o lado da faca bateu cinco vezes sobre a artéria. Exatas cinco vezes. Repetia o gesto dominical da morte do frango, preparado invariavelmente ao molho pardo, como gostava de saborear Nazareno.

Quando a veia agigantada se ofereceu, correu a faca num gesto mecânico, repetido por décadas, coligindo o sangue que jorrava do pescoço do filho num velho garrafão de vinho barato.

Então nada mais fez, senão abrir um sorriso largo, de paz, como jamais fizera em toda a vida de dor e sofrimento. Tivera que esperar a velhice para, enfim, encontrar o mel da felicidade.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Aprender e ensinar


Botticelli, Sandro - Adoration of the Magi - 1475

Em meu coração repousa um desejo
Imantado por lutas, suor, sangue, sacrifícios mil
Em meu coração lateja explosivo desejo
Temperado com sonhos idílicos, líricos, pastoris
Em meu coração pulsa e insinua passos de bucólica dança viril desejo
Tecido com todas as esperanças adultas, infantis, juvenis
Guarda pobre e efêmera rima, não nego, pois que abraça redenção
Distante – insisto – do que possa assemelhar sebastianismo, messianismo, salvadorismo...
Meu desejo secreto brinca, versa, entoa, cantarola
Observa, avalia, critica, recicla, processa, reprocessa, aprende e ensina
E destila todos encantos quando o trato é educação
Rodoux Faugh

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

As mãos que tecem o tecido são as mesmas que tecem o amanhã






Ainda que pareça tarde
Ainda que insistam ser tarde
Ainda que o tempo se apresente como tarde
Jamais esqueça que as mãos que tecem o tecido

São as mesmas que tecem o amanhã  

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A lei e a república




A impunidade é a mãe da delinquência, da mais desprezível pandilha

Impossível a criação de cidadãos caldeados no clientelismo

Como o aço - é no empreender, na independência e no fogo purificador do saber que são estruturalmente forjados os homens de bem

Não prevarique e não licencie

Se abstenha de torcer a justiça

Desdenhe o favoritismo e manifeste aos brados plena guarida à lei

Faça-a respeitável e a respeite com reverência

A lei

A mesma lei

A mesma lei para todos

denunciando os que tornam alguns mais iguais que outros

os que professam fé e emprestam ares de princípio ao aleive Aos amigos tudo, menos a lei; aos inimigos, nada, nem a lei”.

As oportunidades, universalize!

A coisa pública, democratize!

A res pública, consolide!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Mandela, o doce guerreiro que tece poemas à verdade




O Senhor partiu

Seguiu em direção ao azul mais límpido e cintilante

E seguiu com a simplicidade e os trejeitos singelos e humildes dos virtuosos

Seguiu da forma que sempre fizera na terra dos ímpios: resoluto, confiante, altivo...

Destemido, foi elevando o frágil corpo

passo a passo, vencendo a misteriosa neblina que emoldura o paraíso

O que mais poderia, o Senhor, temer?

Já não enfrentara, em terras africanas, as trevas e as barbáries dos homens-hienas?

Já não houvera sangrado a dor da injúria, a humilhação do açoite?

Já não conseguira desnudar a cantilena e a falácia dos messianistas que tomam gente por manada para conduzi-la a desertos inóspitos

Já não conseguira desmascarar demagogos-revolucionários que tomam gente como boiada para trancafiá-la na ignorância, na servidão?

O que mais poderia, o Senhor, temer?

Bradou pela liberdade e democracia,

Cantou pela independência e justiça

Dançou por oportunidades iguais

Nada de emular o confronto, nada de estimular a desgraça, nada de enaltecer a vingança, nada de rezar racialismo

Não... o Senhor abraçou o ideário do pacifismo

Acalentou o perdão e a convergência

Ignorou o miasma nauseabundo que exala do passado

E fixou os olhos de lince no quadrante futuro, no amanhã que purga os erros e liberta... liberta

Sim, o Senhor se apresenta ao Senhor... e não se envergonha...

Divertem-se,

Os céus celebram em festa

Os Senhores cantarolam as canções dos justos,

Entoam os compassos dos valentes,

Desenham a escrita dos que tecem poemas à verdade




segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sobre o olhar angelical




O pai de Santo Cleomar Patrício, indignado com o sofrimento e a dor da gente simples do lugar, resolveu radicalizar. Já não conseguia confortar milhares de pessoas que acorriam de todos os rincões da terra, em busca de cura para os males do corpo e da alma. Era uma gente simples, mas angustiada, carente de paz, carinho, conforto e abrigo.

Cleomar Patrício, o médium espírita mais famoso das redondezas, resolveu que doravante não mais se permitiria incorporar caboclos, caciques e garotinhos peraltas, espíritos que erravam por seu terreiro de umbanda. Estava inconformado com o que considerava certa sonolência dessas potestades que aconselhavam e orientavam os fiéis apenas sobre trivialidades, mas sobre a vida dura e injusta que levavam, sarcasticamente contemporizavam. Os freqüentadores, pacientemente, não arredavam pé do Centro Espírita. Multiplicavam as preces e variavam infinitamente as oferendas, e ainda assim não conseguiam romper o círculo de miséria, injustiça e sofrimento que as consumiam.

Por isto, o médium querido de todos era um poço de revolta. Indignava-se com o tratamento fleumático que as entidades dispensavam à sua gente. Iniciou queixando-se a elas na intimidade das orações. Como permanecessem impassíveis aos seus clamores, passou a discutir asperamente, em público, lançando-lhes palavras ácidas, impropérios, insultos, tratamento incompatível com seu temperamento, sempre afetuoso e fraterno. Foi quando resolveu se impor de forma categórica. Nas sessões espíritas, só permitiria em seu corpo incorporar entidades com compromissos sociais, que ostentassem um passado de lutas revolucionárias, que a vida tivesse sacrificado em virtude de causas nobres e populares. Preferencialmente, que as pelejas travadas as tivessem projetado para além mar. Daria as costas mesmo à sondagens de personalidades cuja importância não fosse peremptória na historia revolucionária.

Esperava assim corresponder, com maior apreço, às expectativas daquela gente abandonada, cujos sonhos fragmentaram-se no dia a dia entrecortado por aflições e agonia.

Para enfrentar o novo desafio, mergulhou com profundidade nas pesquisas e investigações científicas, esquadrinhado a vida das personalidades que disponibilizaram suas vidas à defesa dos fracos e oprimidos. Conheceu a história dos povos, a formação das nacionalidades, o perfil dos justiceiros leais ao ideário libertário. Investigou todos os movimentos brasileiros se detendo com especial interesse na Guerra de Antônio Conselheiro e na de Zumbi dos Palmares. Adentrou as revoluções francesa e mexicana, reviveu, de 1917, a esperança soviética, cerrou fileiras com Solano Lopes nas suas incursões pela América Latina. Padeceu com árabes e indianos o domínio colonialista inglês e sorveu o cálice da amargura com os judeus, ciganos, negros e comunistas, vítimas preferenciais da sinistra repressão nazista. Aliou-se com bravura aos vietnamitas e iraquianos, vítimas da insanidade norte-americana. Desnudou os meandros das ciências políticas e pode compreender os ardis, a teia de armadilhas que as elites invariavelmente lançam mão para manter o povo, por todo o sempre, na escravidão medonha da ignorância, sem acesso ao conhecimento, ao largo do saber.

O Pai de Santo Cleomar Patrício transformou-se, mudou completamente. Emergiu dos livros e das investigações como um homem renovado, renascido das cinzas, estuário de tudo o que a humanidade conseguira reproduzir de mais nobre e justo na face da terra.

No ponto que julgou estar preparado para a nova missão, fez correr na cidade e região a notícia de que o Centro Espírita Raio de Sol, passaria a denominar-se Irradiação Revolucionária Espírita Cristã Raio do Sol. E que seu terreiro seria, a partir de então, morada de todos os heróis e mártires que dedicaram suas existências à defesa de um mundo melhor e mais justo para todos.

Escolheu o dia de Nossa Senhora de Aparecida para reinaugurar o Centro Espírita e surpreendeu-se com as cem mil pessoas que apareceram, se comprimindo na gigantesca área que se fez diminuta, tamanha a quantidade de homens e mulheres de todas as idades: crianças, moçoilas, idosos, pessoas que acorreram de todos os rincões da terra. Lá estavam seus fiéis seguidores, abnegados sofredores, desiludidos do amor, donas de casa e desempregados, todo o que portava um mal qualquer, na alma ou no corpo tísico.

Dado o volume e a quantidade de pessoas presentes, fez instalar quatro telões e uma imponente aparelhagem de som, assegurando a todos que participassem sem grau sequer de dispersão.

Com o microfone e do alto do palco especialmente construído para a ocasião, Cleomar Patrício resolveu submeter à escolha dos fiéis, a entidade que deveria, naquele importante dia, abrigar, incorporar. Como desejasse fazer uma singela homenagem à gente brasileira, ofereceu como opções o nome de Joaquim Silvério da Silva Xavier, o Tiradentes, bem como o do valente negro Zumbi, do quilombo que se denominou Palmares.

Mal colocou a questão em votação, a gente compactada em uníssono já clamava por Ernesto Che Guevara. Não que conhecessem amiúde a obra do revolucionário latino-americano, ou que – ainda que tangencialmente – se encantassem com seus ensinamentos sobre soberania popular. Escolheram Che simplesmente porque enxergavam no argentino que se fez cubano um olhar predestinado, profundo, que irradiava, com igual intensidade, esperança, dor e inconformismo. Nas gravuras apresentava-se com o mesmo olhar cândido, angelical e imaculado do menino Jesus.

De nada valeu Cleomar recolocar a questão em votação, enfatizar que só figuravam no páreo Tiradentes e Zumbi dos Palmares, os únicos imortais disponíveis para aquela solene sessão espírita, aliás, já devidamente preparados para a materialização no pai de santo. Argumentou que Guevara, como não cogitara de ser evocado, estava indisponível, em lugar ermo, inalcançável por sua imantação imaterial e que exorcismo algum poderia desobstruir seu corpo para receber o espírito do comandante de Sierra Maestra. Porém, a cada argumentação do aflito médium, mais e mais a platéia de devotos se esmerava em ovacionar o nome de Che.

Circunspectos, os médiuns auxiliares ficaram ressabiados, amuados, desolados. Sabiam que a incorporação de Guevara - pelo pai de santo - seria de todo possível, mas as conseqüências, não restavam dúvidas, seriam catastróficas. Ocorrera em algumas sessões secretas realizadas no mês anterior. Quando experimentavam as novas técnicas de atração de mártires e heróis populares, Che baixou no terreiro brandindo seu fuzil. Trêmulo, vociferava contra Fidel Castro, acusando-o de ter cristianizado sua imagem de guerreiro valente e intrépido, estampando seu rosto com ares angelicais em camisetas, botons, chaveiros e bugigangas venais. Não era esta a imagem que Che gostaria de ter deixado. De tão possesso, chegou a cuspir fogo e exalar fumaça pelas narinas. E concluiu antes de se recolher ao espaço etéreo onde habitam os espíritos: “...fôda-se Fidel filho da puta!, eu sou guerrilheiro, matador e não souvenir”.

E isto, os médiuns ali presentes temiam se repetir.

Não houve como afrontar a manifesta vontade popular que clamava em uníssono. Se a voz do povo é a voz de Deus, então que se fizesse a vontade divina, que fosse evocado Ernesto Rafael Guevara de la Serna, o Che.

Sem mais alternativa, Cleomar Patrício se acercou dos auxiliares, vestiu-se com a indumentária e adereços propícios à liturgia e exigiu concentração, absoluto silêncio.

Quando tambores e atabaques soaram a toada africana, as baianas iniciaram as danças ritualísticas e as cânticos de origem africana. Já sem o domínio de si, o santo médium emitindo sons guturais mistos de grave e agudo, desenhou, no espaço, majestoso salto que João do Pulo imaginaria impossível executar. Ao pousar do vôo sideral, o preto velho se estatelou no chão de terra batida, levantando a poeira de cem mil megatons. Mas caiu altivo, mantendo os gestos nobres, plásticos e esculturais. Caiu e bradou com a voz inconfundível dos revolucionários, com carregado sotaque castelhano: “só a força do povo é capaz de conduzir nossa história a um leito de justiça e progressistas realizações”.

A plenária de fiéis exultou de plena satisfação. As palavras – poucas, abusando da parcimônia - caíram na exata medida para comprovar que a cidade galgara a posição de único estuário do universo capaz de resgatar os gloriosos libertários da humanidade, os homens deuses que distenderam o mundo e o fizeram mais nobre e generoso.

Mal reproduziu a frase de Che, o preto velho desmaiou. E a multidão, satisfeita, recolheu-se ao seu muquifo, sem mais nada pedir, sem mais uma prece rogar, com o coração repleto da mais intensa e soberba energia cívica e democrática.

A notícia correu o mundo. No dia seguinte, repórteres de todas as agências de notícias lá estavam, repercutindo o fato mais importante e pitoresco do século.

A classe empresarial - se locupletando com o incremento nos lucros advindos do negócio natural da cidade, o turismo religioso - logo homenageou o preto benzedor com a inauguração, no Paço Municipal, de um monumental busto de bronze polido incrustado de pedras preciosas. O prefeito, sem ter onde aplicar as receitas municipais, eneplicadas no estalar dos dedos, passou a distribuir dinheiro em espécie para os remediados, porque pobre já não existia naquelas paragens.

Tudo na cidade corria maravilhosamente bem, como se num conto de fadas. Até os evangélicos, originalmente indignados com o novo perfil da cidade, agora exalavam incontida satisfação com os lucros estratosféricos decorrentes da comercialização de pó de terra e poções de água que, diziam, recolhidos na longínqua terra santa de Jerusalém, mas que iam extrair – apenas os pastores sabiam - nos loteamentos baldios da vizinhança.

Contudo, para Cleomar Patrício e seu grupo de médiuns auxiliares, a preocupação importunava, apoquentava. Só eles conseguiam vislumbrar no céu uma nuvem densa e escura a encobrir todo o terreno onde se situava a Irradiação Revolucionária, como a denunciar a grande tragédia que se anunciava.

Fidel Castro foi informado, com riqueza de detalhes, das aparições nos rincões ermos do cerrado brasileiro. E bem sabia, por tudo que compartilhou com o antigo camarada de guerrilha, que não só as aparições como os desaforos que Guevara lhe dirigia, eram mais que verdadeiros. Sabia que a jornada de Che pelas artérias da América Latina, logo após a vitória revolucionária em Cuba, era na realidade uma fuga desesperada para escamotear as inconciliáveis diferenças que crescera entre ambos. Já nos tempos da guerrilha quase tudo os separavam. A forma como conduzir a revolução, a conexão com os soviéticos, as relações de comando e hierarquia... apenas quanto aos pelotões de fuzilamento, às execuções sumárias e à repressão política onipresente – aprimoradas dos métodos da KGB - concordavam plenamente.

Não tinha dúvida, o ditador cubano, que uma nova aparição de Guevara, uma nova incorporação na pele do Pai de Santo brasileiro, e sua ilha explodiria em chamas e revoltas, com o povo dando fim a décadas de fome, repressão e totalitarismo desenfreado.

O velho comandante de barba e cabelos grisalhos encetou seu plano terrifico. Convocou todos os pais de santo radicados na ilha – especialmente os dados aos mistérios do vudu - orientando-os a promover, no além, uma conferência de todas as polícias políticas, com o intuito de fazer o teimoso Guevara, mais uma vez, correr para onde não pudesse jamais ser alcançado, mesmo em espírito e pensamento. Seria a solução final.

E a conferência aconteceu na mais profunda região do inferno. Lá estavam a polícia política de Plínio Salgado, Judas, Silvério dos Reis, os agentes do DOI-CODI, da GESTAPO, da CIA, da DINA, do CIEX, do CENIMAR, do SNI, e todos os demais agentes, traidores, quinta colunas e instituições criadas para corromper a liberdade e a democracia.

Forças do mal, os espíritos nauseabundos receberam com júbilo, êxtase e satisfação a missão de apagar Che Guevara. E urdiram na escuridão das trevas, dentre labaredas e ensandecidos gritos de guerra, o plano macabro.

Quando a multidão eufórica ainda clamava pela incorporação do lendário guerrilheiro argentino, o médium santo abraçou e beijou – como se despedindo – cada um de seus solícitos auxiliares. Sabia que a tragédia tinha local, dia e hora para acontecer e que seu momento havia chegado.

Ao soar os atabaques dando origem ao ritual espiritualista, o pai de santo se liquefazia em suor. Falava baixo, sereno, consciente de si. Já em estado de para-normalidade viu quando Guevara se aproximou para tomar-lhe emprestado o corpo e a voz. Tentou avisá-lo para não se aproximar, manter-se distante, que a emboscada traiçoeira estava tramada. Não deu tempo. Capitaneados pelo Delegado Fleury, os demônios enlouquecidos vazaram-lhe a cabeça com um tiro certeiro de kalashinikov. Enquanto a bala fatal cumpria seu itinerário, o coral sinistro entoava a marcha fúnebre. O corpo e a cabeça do libertário guerrilheiro fragmentou-se em milhares e milhares de pequeninas partículas, cada uma dando origem a um souvenir... e de infinitas espécies, cores e dimensões... canetas, chaveiros, isqueiros e, sobretudo bonés e camisetas...

E por mais uma vez, Fidel imaginou ter fuzilado Che Guevara.

Rodoux Faugh

domingo, 17 de agosto de 2014

Goya, Francisco - Blind Guitarist - 1778

Sempre é tempo quando o desafio é reconstruir o tempo para domá-lo, dominá-lo, como o mágico
que domina a moeda, fazendo com que caminhe e desapareça dentre os dedos da mão.
Rodoux Faugh

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Seus sonhos estão nas alturas?

Leonardo da Vinci - The Dreyfus Madonna (The Madonna with a Pomegranate) - 1469

Seus sonhos estão nas alturas? Ótimo. É junto aos deuses que se abrigam. Sua jornada consiste em construir escadas e caminhos capazes de conduzi-lo até eles.
Rodoux Faugh

domingo, 3 de agosto de 2014

amar é


amar é se reconstruir a cada dia, é tornar a energia destruidora de mil tornados na brisa amena de
uma tarde de verão ...
Rodoux Faug

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A força motriz da vida

The Three Sisters (1783)de Benjamin West

A força motriz da vida não pode ser o problema, deve ser seu sonho.
O problema pode atuar como um furação invertido que o arremessa sempre e invariavelmente para baixo, em direção ao Hades. Já o sonho detém o condão de aproximá-lo dos céus, do Olimpo, dos deuses. 
Rodoux Faugh

terça-feira, 22 de julho de 2014

“Michelle” ou "A bomba F”


 Sempre me chamaram dengosa, manhosa, mas naquele dia me sentia de fato com um saco de preguiça pendurado nas costas. Na realidade era puro arroubo e êxtase, não cabia de fascínio, gozo e contentamento. É que jamais, em tempo algum, havia estado em um veículo presidencial. Não que eu fosse uma cadela qualquer, uma reles vira-latas, dessas que se encontram aos mil nos becos, esquinas, grotas, invasões e favelas. Nunca fui pouca coisa. Já havia experimentado todos os tipos de automóveis, do pau de arara, dos mais simples modelos de carro popular aos luxuosos blindados contra pobreza e bandidagem. Já curti soneca em automóveis particulares, sindicais, partidários e até – quer saber? - nos de uso exclusivo, restrito da Câmara Federal. Mas andar em carro presidencial, objeto de desejo de tantos, jamais poderia imaginar esse prazer me amaciando.

E não é que o destino achou por bem sorrir pros meus lados oferecendo um tipo de privilégio reservado a poucos iluminados?

Até pouco tempo atrás cheguei a imaginar que papai estivesse acometido de algum tipo estranho de insanidade, algo que beirasse a aleivosia, a demência ensandecida, pois que acalentava o sonho, de a qualquer custo, fazer morada no Palácio do Planalto. Tantas idas e vindas, figas e mandingas, tantas pequenas vitórias e monumentais reveses, três derrotas sucessivas, promessas para todos os gostos e fregueses, que cheguei a qualificar sua obstinação como algo tangente ao profano, ao obsceno, impudico, ou ao jucundo e desvairado.

Mas naquele dia, enquanto saltava para o banco do carro presidencial, ia percebendo a grata satisfação do engano. Feliz e grato equívoco embalado por uma realidade que entoava singelos cânticos angelicais, como se num sonho povoado por fadas madrinhas e querubins. E a prova ia me certificando eu própria, presencialmente, desfrutando o privilégio de trafegar num veículo intangível até mesmo para as mais altas autoridades da república; o que falar então para os pobres e medíocres mortais - fosse gente, fosse cadela - como eu?

Em minha estreia como passageira do seletíssimo clube, não desfrutava do esplendor do Lincoln conversível e nem da elegância imponente e aristocrática do Rolls Royce presente da rainha mãe. Ainda não era a hora. Mas pressentia, era uma questão de tempo. Apenas uma questão de tempo e nada mais. Logo estaria senhora de tudo e de todos. Por enquanto era simplesmente uma Kombi, um utilitário bosta-rala que fazia às vezes de carruagem presidencial. Um utilitário por demais comum, insípido e inodoro para compor aquele cenário mágico de filme norte-americano. Mas o que de fato importava era que o veículo – independente de marca, modelo e ano – integrava a frota da Presidência da República, com brasão, inscrições oficiais e tudo o mais que a exclusividade assegurava. Sangue puro. Nenhuma relevância, portanto, o fato de estar sendo conduzida num furgão dos mais baratos dentre os disponíveis no mercado. O fundamentalmente importante e de destaque era que eu estava ali, de carne e osso, com todos os pelos escovados, estrelinha de fita vermelha no pescoço, sendo conduzida pela carruagem presidencial. Achei por bem me submeter a uma bateria de beliscões e pequenos tabefes, provando a mim mesma que a realidade estava à prumo e que de forma alguma a deixaria escapar. Sim, tinha pleno domínio de minhas faculdades mentais, gozava de minha normalidade canina, meu juízo não me havia abandonado. Vivia uma realidade de sultão, não um sonho efêmero, passageiro. Sorvia uma realidade só permitida aos deuses e seus mensageiros, reis, xeiques, imperadores, presidentes, proprietários de megacorporações transnacionais.

Enquanto o veículo deslizava pelo tapete negro da Esplanada dos Ministérios, pela janela entreaberta, me deslumbrava com a paisagem onírica, os edifícios perfilados como num cortejo militar, tudo ali soando pompa e circunstância, amplos espaços ajardinados, o horizonte a perder de vista, um latifúndio de gramíneas verdes, um paraíso capaz de causar inveja ao Olimpo, um Éden restrito aos cães de luxo, aos que, como eu, haviam galgado os píncaros da glória, os mais elevados extratos da pirâmide social. Tudo era grandeza. Nada que lembrasse a frugalidade da velha e popularesca São Bernardo.

Entendi então o deslumbramento de papai e mamãe, que não perdiam oportunidade de falar do Brasil do amanhã, do Brasil grande, do Brasil gigante, do Brasil que dominaria o cone sul, e depois o continente americano e depois o mundo civilizado, numa vitoriosa cruzada contra a fome e a miséria, contra a injustiça e a globalização. Agora compreendia papai quando, de manhãzinha, enquanto se barbeava frente ao espelho, conversava animadamente com Dom Sebastião.

E neste ponto, apenas neste ponto eu me permitia discordar de meus amos queridos. O país já era um gigante. Sim, já era. Estava testemunhando no meu dia a dia, inclusive naquele passeio matinal. A capital em tudo já se assemelhava à Ilha da Fantasia, o seriado que reunia toda a família na frente do aparelho de TV. Se tudo já era desenvolvimento, fartura e riqueza, então porque teimava o patrão em se meter em assuntos tão banais e triviais como a fome e a miséria? Se para nós, os Silvas, já constituía enfadonha normalidade a mesa farta, repleta das mais raras, saborosas e delicadas especiarias, compartilhadas com os mais caros pratos escandinavos, com os destilados e vinhos mais finos e reservados, então porque diabos se meter em assunto tão piegas, fútil e vulgar? Como pessoas como eles que comiam em louças de porcelana da era Ming, utilizando talheres esculpidos para a realeza sueca se deixavam rebaixar para lidar com assuntos tão mesquinhos e ordinários?

Jamais poderia compreender o que sempre considerei uma contradição injustificável em papai. Enquanto eu saltitava nas festanças e rega-bofes palacianos movidos a whisky 106 anos, escutava ora aqui ora ali, de forma dispersa e desconexa, frases soltas mas inteligíveis, em que os assessores afirmavam que o discurso da fome se tratava de peça publicitária, estratégia para ganhar a simpatia internacional. Tanto que – nisso agucei a escuta prestando bastante atenção – papai sempre que lá fora criticava os países ricos, de volta ao país, dava sempre um jeitinho de fazer mimos e agrados, aumentando a dinheirama para o FMI, cujos diretores chama carinhosamente de companheiros. Mas isto sempre foi assunto sério demais, coisa que aborrece, gera discussões intermináveis, assuntos reservados aos superiores humanos, não aos cães e cadelas, ainda que de raça apurada e pedigree certificado como o meu. Se isso confortava papai e seus amigos, que continuassem então com aqueles assuntos tolos e insossos, aquele economês que nem russo era capaz de entender, desde que naturalmente não esquecessem de assegurar minha provisão de caviar, lagosta, salmão defumado, e do legítimo bacalhau norueguês. Para mim, o que importa, o que interessa mesmo, é curtir a vida nesse cenário paradisíaco, neste país onde tudo é tal e qual Estocolmo. O que haveria melhor do que frequentar as festanças no Itamaraty, nas mansões cinematográficas do Paranoá, cerimônias tão sofisticadas quanto abastadas? O que poderia haver de melhor que compartilhar o convívio de uma sociedade maiúscula, tão soberba e majestosa, gente rica, famílias poderosas e bem resolvidas, talhadas na fina etiqueta, saudáveis, charmosas, belas e elegantes, estrelas egressas de uma grande produção de Hollywood.

A Kombi circulava o Congresso Nacional e eu ia me deslumbrando com as suaves linhas arquitetônicas do conjunto de edifícios, pura arte, pura arrojo, pura criação, só possível aos brasileiros desta terra da promissão. O espelho d’água refletindo o azul celeste, compondo uma paisagem luxuriante, provocante, sedutora, curiosamente tentadora. Aquela peça de primor artístico bem ali, exposta, disponível, ao alcance de todos, era uma prova irrefutável de que já perfilávamos no rol dos primeiríssimos do mundo desenvolvido. É bem verdade que não pude deixar de perceber, na rampa do Congresso, o movimento compacto da massa disforme que protestava vigorosamente agitando cartazes, faixas e bandeiras. Pelas inscrições e palavras de ordem identifiquei aposentados que clamavam contra a taxação dos inativos, estudantes que denunciavam o Universidade para Todos como uma forma capciosa de transferir dinheiro público para as instituições privadas. Identifiquei também procuradores e funcionários públicos inconformados com a lei da mordaça, intelectuais e jornalistas indignados com o conselho que resgataria a malfadada censura, artistas coléricos contra o dirigismo cultural imposto pela lei do audiovisual, trabalhadores enfurecidos contra os sucessivos aumentos do superávit primário com a exclusiva finalidade de entregar nossas divisas ao FMI, cientistas envergonhados com a proibição de enveredar pela pesquisa genética, mães exigindo que o governo cumprisse o dispositivo legal determinando que os filhos permanecessem na escola para acessar a ajuda de custo, esquálidos esfomeados perguntando - passado tanto tempo do lançamento - quando seriam beneficiados pelo programa Fome Zero, empresários esbravejando contra os juros estratosféricos, trabalhadores rurais incrédulos com a corrupção no programa de reforma agrária. Sim, bastou uma mirada para me convencer que ali estavam somente os invejosos e descontentes, uma escória formada por despeitados, meliantes sequiosos para ver o país fracassar. Eu estava convicta. Ali protestavam os incorrigíveis defensores do “quanto pior melhor”, os pregadores da desgraça alheia, os adeptos do “há governo sou contra”. Como às gargalhadas, costumava repetir o primeiro auxiliar de papai, “eram discípulos da gestapo”, venais traidores da pátria. Não, não, eu não estou exagerando. Estou absolutamente convencida de que os que atacam e criticam um homem tão correto e justo como papai, estão na realidade querendo levar o país à bancarrota.

Depois da suntuosidade das torres do Congresso, envoltas em pratos esplendorosamente arranjados, minha visão foi atraída pelo equilíbrio e harmonia do Ministério das Relações Exteriores. Um instante depois e já estava embasbacada pelas curvas de concreto que abraçavam a Catedral, para lá em cima, bem pertinho do céu, se abrir como mãos ansiosas pelas graças divinas.

Num relance meus olhos escureceram, chamuscados pelos flashes de dezenas de máquinas fotográficas. Inquietei por uns breves segundos. Balancei o rabo com certo nervosismo. Minhas memórias foram tomadas de assalto pelas lembranças de um passado não tão distante, quando do grotesco incidente que vitimou minha priminha. Minha priminha filha do Antônio Rogério Magri, o do Trabalho. A coitada foi flagrada enquanto era conduzida num carro oficial à clínica veterinária. Teve a foto estampada nas primeiras páginas dos grandes jornais. Até mesmo papai e os membros de seu partido fizeram um escarcéu sem tamanho, dando a entender que o mundo iria desabar, atingido por uma hecatombe nuclear. Jamais pude entender as razões de tamanho alvoroço. Como meu patrãozinho foi capaz de destilar veneno num ato tão corriqueiro como a condução da priminha ao veterinário? Afinal não dizem que somos como eles, como gente, como pessoas? Não podemos por acaso adoecer, precisar de atendimento médico? Não temos o direito de frequentar o cabeleireiro para a tosa, de frequentar a manicure, a nutricionista, a academia de ginástica, o hotel-fazenda? Que raio de hipocrisia é essa? Desta vez, ao engrossar o coro dos críticos ao ato do Magri, papaizinho também se mostrou pequeno e provinciano, subalterno e sub do sub. Esta é uma pequena mágoa que guardo no coração contra meu donozinho. Mas logo reduzi a tensão dos nervos quando me dei conta que os flashes eram de turistas e não de repórteres fotográficos. Ademais, ainda que fossem jornalistas, papai já os havia chamado de covardes, além de criticar as perguntas frouxas e requentadas que sempre fazem. “Dá próxima vez espero que sejam mais duros comigo!” ralhou papai tão logo terminou a coletiva aos repórteres das emissoras de rádio.

-Algum problema, cachorrinha Michele? Perguntou o chofer preocupado com minha súbita quietude. Dei dois latidos para afugentar os pensamentos mundanos e me fixei na admiração ao Brasil poderoso, ao Brasil potência, ao Brasil destemido e orgulhoso de sua cultura, ao Brasil da cabeça do patrãozinho.

Repentinamente, num solavanco, senti a Kombi adentrar um território inóspito, adverso, pantanoso.

-Aqui é a Rodoviária da capital – se apressou a dizer meu chofer engravatado. Reagi de sem pulo, com meu rosnar característico dos momentos de pavor e aflição. Rodoviária? Rodoviária? Como Rodoviária? Aquilo ali era um outro país. Claro! Como não?! Naquele rincão nada lembrava a Suécia de patrãozinho. Ao contrário. A Kombi com certeza rompeu a relação espaço-tempo, como numa ficção científica, e trafegava agora por um país desconhecido, atrasado, de miseráveis, de pessoas feias, horríveis, sujas, despenteadas, franzinas, esmolando, suplicando, vendendo bugigangas. Ali estavam mendigos, crianças raquíticas que se apossavam das ruas, prostitutas desdentadas, malandros maltrapilhos, trabalhadores assalariados, todos com os olhos sem brilho, o corpo vergado de cansaço e vergonha, as faces embrutecidas pela desesperança e desilusão.

Que diabos estava acontecendo? No quintal do palácio, nas barbas magistralmente aparadas de papai se instalou um exército de invasores, um exército de inimigos, vindos com certeza de alguma republiqueta africana. Bem que rosnei, lati, insistindo que papai não incursionasse pela África. Aí estava o resultado da teimosia, da persistente teimosia herdada nas hostes sindicais. Os africanos refugiados, famintos e aidéticos, cometeram a ousadia de invadir o Brasil. E já estavam acampados à porta do palácio, na certa preparando o cerco final. Teria que correr, me apressar, avisar papai, alertar o alto comando militar antes que fosse tarde demais. Comecei a latir e rosnar em desespero até que o condutor, mergulhado em observação introspectiva, desconfiou e tomou o caminho de volta ao Planalto. Entrei correndo, saltando degraus e o mobiliário, latindo esbaforidamente, utilizando todos os quadrantes dos pulmões, mas quanto mais latia mais papai e mamãe sorriam, se divertiam, imaginando que se tratava de mais uma de minhas brincadeiras. Tentava fazer com que meus latidos soassem: “os africanos estão invadindo o Brasil, já estão bem ali na rodoviária”, mas qual?! Quanto mais tentava, quanto mais me esforçava, quanto mais me contorcia, mais se divertiam. Mamãe chegou a pegar a filmadora para me filmar. Foi uma cena ridícula, digna de um bang-bang chinês.

Quando me senti sem forças para latir, alguém que não lembro me tomou no colo. Fez na minha cabeça um cafuné gostoso que caí em sono profundo. Besteira!, resignei. Se eles estavam tão tranquilos era porque tudo estava bem. Melhor dormir e amanhã retomar a vidinha palaciana de sempre. Que se danasse o exército inimigo. Seria aniquilado, reduzido a pó sem que papai precisasse disparar um único tiro, sem que sequer precisasse sujar as mãos. Papai despacharia para eliminá-lo sua arma mais terrível, a bomba F, a mesma que estava dizimando a gente brasileira, a bomba que destilava ignorância e indigência intelectual. Pois não é isso que se faz com os exércitos inimigos? Melhor dormir o sono das cadelas imperatrizes.

Rodux Faugh

terça-feira, 15 de julho de 2014

As camas de cimento nu

Os nove anos de idade do pequeno Mohammad não permitiram que ele pudesse entender o que estava por ali ocorrendo. Foi com o tio rezar na mesquita principal quando, abruptamente, explosões ensurdecedoras irromperam por todos os lados, o silvar das balas e das bombas estourando os ouvidos, os vitrais espedaçando em diminutos cacos, a poeira se tornando densa como a rocha, obliterando a visão, corpos desfigurados, triturados com a ferragem das vigas e dos pilares, as rijas paredes reduzidas a um amontoado de entulho e lixo. Se existisse o inferno, ali estava ele, ao vivo e a cores.

O frágil pirralho já havia perdido o pai Ibrahim no presídio de Abu Graib, acometido por hemorragia interna após ser estuprado e seviciado com garrafa de água e cano de metralhadora. Logo depois, uma patrulha do exército inglês invadiu sua casa e, confundindo o guarda chuva da mãe com uma bazuca, reduziram os rostos da mãe e da irmã a uma peneira crivada de balas.

Para não vagar a esmo pelas ruas violentas da cidade, o tio foi buscá-lo em casa, sequioso por oferecer ao sobrinho uma oportunidade qualquer, alguma que fosse menos pior do que todas que emergiam, se bem que, àquela altura dos acontecimentos, desconfiava impossível existir.

Agora, apenas uma semana após ter perdido os pais, tinha no colo o corpo liquidificado do tio, da cintura para baixo volatilizado por um míssil lançado por um helicóptero AH-64 Cobra.

E foi dessa forma que os soldados o encontraram, cabeça baixa, desmanchando em prantos sobre a metade intacta do corpo do tio, sussurrando o nome da irmã e dos pais, pressionando junto ao peito um caminhãozinho de plástico reciclado sem as rodas.

O comandante John Dowoud quis enxergar no mirrado garoto um menino-bomba, um bebê-terrorista de alta periculosidade, um demo travestido de anjo treinado nos campos de Bin Laden, mas a fragilidade inocente de Mohammad pulverizava as suposições delirantes do coronel norte-americano. Infelizmente, teve que se dobrar à realidade. Estava mesmo diante de uma criança, uma simples criança, uma frágil criança. O tamanho, o soluço inconfundível, o choro contido, o carrinho de plástico carente de rodas. “Raios, não recebi treinamento para isso”, rosnou o coronel antes de, se valendo do auxílio de três de seus homens, tomar o menino à força e enfiá-lo num saco improvisado. Sem mais delongas, decidido, partiu com seu comboio para internar o maltrapilho moleque no Centro Correcional Wali al-Khafaji.

Ao adentrar o Centro Correcional, Mohammad foi conduzido a um salão onde teve a cabeça raspada e o corpo banhado por uma mistura de pó branco. Minuciosamente vasculharam o interior de sua boca, narinas, ouvidos, ânus e até o canal de sua uretra, para depois escorre-lo por dentro de um enorme macacão alaranjado, em cuja lapela encontrava-se inscrito em diminutas letras a palavra Guantánamo.

Em Al-Khafaji estavam encarceradas 70 outras crianças, além de homens e mulheres, de todas as idades e condições sociais, empilhados uns sobre os outros, muitas vezes mantidos nus, tratados como ratos e peçonhas de esgoto.

No primeiro dia de prisioneiro fichado, enquanto se encontrava no solar, viu aproximar o perneta Ahmad, trazendo nas mãos duas bolinhas de gude. Sem se apresentar, o estranho foi direto ao assunto:

- Vamos jogar bolinha de gude?

Mohammad pegou uma das pelotas e iniciaram o jogo em que um perseguia o outro, tendo na bolinha adversária o alvo a ser atingido. A bolota de Mohammad foi batizada de Míssil Teleguiado com Sensor Infravermelho Tomahawk , e Ahmad deu à sua arma de brinquedo o nome de Caça F18 Super Hornet.

Quando seu supersônico F18 foi atingido pelo Tomahawk, Ahmad irrompeu numa de crise de choro e saiu em disparada para se esconder em sua sela, debaixo do beliche.

- Não se preocupe, Ahmad é sempre assim – falou Abi, um outro garoto que observava à distância.

Percebendo a aflição de Mohammad, Abi deu prosseguimento à conversa.

- Ahmad, o pai e a irmã foram perseguidos durante três dias e três noites por soldados de um pelotão italiano. Só ele se salvou. Sempre que joga bolinhas de gude recorda do fuzilamento e cai em desespero.

Como o interlocutor permanecesse compenetrado na narrativa, Abi sentiu-se estimulado a prosseguir:

- O pior de tudo é que não consegue largar as pelotas de vidro, não quer saber de brincar de outra coisa.

- É muito triste tudo isso – se limitou a responder Mohammad.

- Muito horrível esse macacão – atravessou Abi, preocupado em não dar fim ao diálogo.

- Esquisito, respondeu circunspecto o novato.

Dando à entonação uma gravidade superior, de quem se sente experimentado e senhor da situação, Abi prosseguiu.

- Os americanos dizem que, com agente vestido assim, fica fácil capturar em caso de fuga.

Percebendo no olhar de Mohammad a luminescência dos suicidas, Abi se esforçava para manter a conversa animada e interessante:

- Já reparou na inscrição? Aí na lapela do macacão. Guantánamo. Dizem que é uma ilha cheia de mulheres peladas, e que se nos comportarmos, passaremos algumas semanas lá. Mas quer saber? Eu não ligo. Penso que é mentira. Não se pode confiar nesses invasores. Vai um chiclete?

Mohammad pela primeira vez iluminou a face ensaiando um leve sorriso. Levantou o braço esquálido para pegar no ar o chiclete arremessado pelo novo amigo. Levou a borracha de açúcar à boca, mantendo-a inerte debaixo da língua, sonhando, permitindo que a saliva farta açoitasse o pedaço de felicidade, sorvendo cada gota derretida de açúcar e hortelã. Convencido que conquistara um amigo, Abi continuou com seu diálogo quase solitário.

- Temos aqui quatro alas. Escute bem o meu conselho. Não se misture com os garotos dos outros pavilhões. Termina sempre em confusão, castigo e solitária. Venha. Vou te levar a um lugar que vai gostar ... creio.

Então Abi conduziu o amigo a uma pequena sala, com escassos livros, surrados e aveludados de pós, apelidada “biblioteca”. A maioria dos exemplares era em inglês, mas se divertiam olhando e tocando as figuras impressas. Ali passaram toda a tarde, desenhando e pintando guache em papel de embrulho acinzentado. Depois seguiram para a sala de TV, onde se fartaram de vídeo-clips produzidos pela CBN e Al Jazeera. Enquanto se deslocavam para o refeitório, Mohammad percebeu que as paredes e os muros recém pintados ainda exalavam o cheiro de tinta fresca. No caminho, Abi se sentiu a vontade para falar de si:

- Fui preso em Mossul, fica no norte, conhece? Tentava roubar uma garrafa de água. Havia meses que só tomava água barrenta de poça. Huuuugh... só de lembrar em embrulha o estômago. Então vi um caminhão cheio de garrafas de água. Imaginei que fosse fácil. Peguei sete anos. Meus pais não aparecem, moram muito longe. E você, o que fez?

Entre aéreo e distante, Mohammad respondeu baixo, num volume quase inaudível:

- Não sei – e repetiu três vezes, como para certificar de que tinha sido plenamente compreendido.

Abi, à medida que ia aprofundando a convivência com o novato, foi percebendo que o pirralho encontrava-se milímetros do pior dos abismos. De ‘pior dos abismos’ apelidava a irreversível e derradeira demência, antessala do ‘apagão’, o suicídio. Então se contorcia à procura de assuntos capazes de entreter e divertir o calouro, feito amigo. Não compreendia por que se envolvia daquele modo, por que se interessava pelo moleque franzino que acabara de conhecer. Talvez a resposta estivesse na memória, ainda em carne viva: se parecia com o irmão mais novo, caído com uma bala de Sharpshooter perdida.

- Vê aquele ali? É Assad. Sua mãe e seu pai estão em Abu Graib. Venha. Vamos ali – chamou Abi, e seguiu ligeiro na frente, saltitando, como obrigava a perna privada do pé decepada ao pisar numa mina terrestre.

- Vou te contar um segredo - cochichou Abi, para logo prosseguir. – Não conte para ninguém. É segredo de verdade.

Num canto em que se sentiu seguro, Abi abriu um livreto de estórias árabes infantis e passou a ler, baixinho, pausadamente, quase soletrando.

Permaneceram horas, hipnotizados pela estória da fada árabe que libertava um exército de crianças escravizadas. Quando sentiu o olhar trepidar cansado da leitura, Abi voltou a esconder o livro num saco de linho surrado.

- Se eles pegam agente com esse tipo de livro, é solitária na certa.

- Por quê? – perguntou Mohammad.

- Talvez porque não desejem nos ver sonhando – encerrou a conversa Abi, com a voz tensa e grave.

A sirene soou o alarme inconfundível e foram-se, abraçados, em direção ao pavilhão onde os aguardavam as camas de cimento nu.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A dor que nem os espíritos suportam

-Você terá algumas semanas de vida, não mais que isso – falou com a voz tensa o Dr. Raul, os olhos fixos, severos, avançando em direção dos meus.

A primeira reação foi imaginar que a cena em que involuntariamente atuava, quadro de um teatrinho de quinta categoria, não me destinava papel de protagonista. “Um pesadelo, sem dúvidas!”, imaginei, certo que ao findar da noite, a claridade do sol estaria me esbofeteando, afastando definitivamente para uma outra banda do mundo, o inferno que comprimia, garroteava todos meus poros e sentidos. Mas os minutos cadenciando os ponteiros do relógio branco fixado na parede alertaram de que nada ali me ancoravam ao tempo real. Os minutos gritavam que eu estava ali, bem ali naquele terrível consultório onde imperava autoritariamente a cor branca. Que raios de impelir até mesmo à decoração uma insossa ditadura que aprisionava as demais cores, um autoritarismo atroz – como de resto todos os demais - capaz de impedir a pluralidade, a diferença. Não havia como ignorar o fato de que estava mesmo no lugar errado, lamentavelmente com a pessoa errada, deploravelmente na pior das horas. Cruel destino, infame sina. Não, não era um sonho, não era um efêmero pesadelo. Por mais difícil e deplorável que fosse, melhor admitir, melhor dobrar e me submeter às evidências: Não era outro, senão eu, em viva alma, que ali estava recolhido à poltrona branca, eu mesmo em pessoa; em carne, osso e espírito; sentado à frente de um oncologista impiedoso, destemperado, desumano. Como era possível aquele sujeitinho se arvorar no direito de me dizer aquilo, daquela forma, com aquelas palavras?! Indubitavelmente um demônio vestido de branco a me provocar, a me tentar com um diagnóstico tão fatídico, anunciando o final dos tempos, os últimos dias, o apocalipse. Por que deveria permanecer ali, ouvindo a pior das previsões, tendo que suportar a indiferença dos ponteiros do relógio que seguiam em seu movimento circular como se nada de anormal estivesse ocorrendo.

Então, ante a impossibilidade de ignorar a realidade, recorri ao sentimento que emergiu, à raiva, ao ódio, ao rancor que nos trinta e seis anos de vida procurei evitar. Não nos momentos de incertezas e desespero. Mas despertei de algum lugar ignorado do cérebro toda a raiva que imaginei ter conseguido amainar. A raiva pelas brigas e disputas em que sempre levei a pior, desde a infância, a mais tenra idade... a raiva pela insegurança onipresente, pelo corpo magro e tisico... o ódio pela juventude deslocada – como um peixe fora d’água, sempre me imaginei diferente dos demais... o rancor pelos fracassos na vida amorosa, profissional... toda essa raiva, todo o sentimento pérfido fiz explodir, potencializando-o infinitas vezes, ao ponto de me tornar a energia de megatons.

Mas todo o colossal sentimento de rancor não fez esvair de minha frente o olhar severo e grave do Dr. Raul. Continuava mirando, focando, perfurando, seus dois olhos argutos e ferinos bombardeando mísseis, torpedos e rajadas em minha direção, ininterruptamente, como se desejasse implodir minha força interior, a vontade férrea e inamovível de não querer acreditar no que ouvia, no que os exames emprestavam tanta evidência e veracidade.

Então recorri a tudo que sorvi da academia e da vida em estratégias de negociação e entendimento. Por toda a vida fui um exímio negociador, um hábil e eficaz catalisador das soluções não conflitivas, de desfechos amistosos. Por que não?, já não havia conseguido contornar as situações mais delicadas, dar solução aos problemas mais complexos? Consegui, durante tantas vezes, conciliar interesses, mitigar divergências, convergir antagonismos, por que razão então não haveria de encontrar solução para meu próprio dilema? Então pensei lembrar um santo forte, um santo poderoso, um santo generoso, dado aos grandes milagres, às causas impossíveis, para que negociasse alguma coisa, algum termo, alguma proposta, uma promessa qualquer, fosse qual fosse, que trouxesse alguma vantagem. Por mais que concentrasse, não consegui lembrar o nome de nenhum santo forte o suficiente para fazer frente à situação em que me encontrava. Desde a adolescência, quando perdi minha mãe, deixei de comparecer às missas dominicais, abandonei até mesmo as orações, rezas e súplicas que vovó desde sempre, com solicitude e parcimônia se esmerou em ensinar. Então busquei na memória os santos que mamãe venerava e que ficavam expostos sobre a cômoda do quarto de dormir. Lá estavam, moldadas em gesso fino, as figuras imponentes de Santo Expedito, São Jorge, Santo Antônio, São João, Nossa Senhora de Aparecida, o menino Jesus e São Sebastião. Escolhi, para entabular negociações, Nossa Senhora de Aparecida. Imaginei mais inteligente escolher a mãe de Jesus menino, que por certo teria acesso mais facilitado ao Pai divino. Que mãe não gozaria dessa privilegiada posição, inerente à própria condição feminina? Escolhida a portadora, restava desvendar com o quê me comprometeria, o quê de importante poderia oferecer para iniciar negociação tão traumática, capaz de me garantir a vida ou selar a morte como destino? Por mais que procurasse alternativas, era incapaz de imaginar algo que pudesse – numa negociação – despertar o interesse da Santa, da virgem Maria. Uma viagem à terra santa de Jerusalém, quem sabe uma caminhada à Santiago de Compostela, ou talvez uma peregrinação ao Santuário de Aparecida... nada, nada, nada parecia ter valor, nada parecia ser de interesse, meus pensamentos gravitavam num traçado incerto e duvidoso.

Então, tomado pelo ceticismo, desisti da negociação e caí em desespero. Fui tomado por uma angústia sem limites, que tensionava meu peito, embotava os pensamentos, prostrava minhas vontades, tempos atrás despertas e ousadas. Meu corpo se fizera trapo, retalhos, um mísero saco de lixo, o próprio lixo. Vontade já não restava para o que fosse, tão pouco poder de reação. Diagnóstico correto?, que fosse, então! A morte como derradeira consorte?, que fosse então! A senhora da foice à espreita para o bote final?, que fosse! Paciência!, fazer o quê?, certamente não seria a morte um estágio tão ruim da existência.

Um pássaro amarelo e solitário pousou no fio de telefone bem rente à janela. Cantou sereno, assoviando uma melodia suave que me libertou da teia intrincada dos pensamentos. Olhei pela janela e quando nossos olhares entrecruzaram, o canário saltou no espaço, num voo magistral, como se desejasse confessar algum mistério, talvez - como poderia eu saber? – desejasse confidenciar ser o condutor de minha alma na grande travessia. Novamente o incubo de branco assaltou meus pensamentos.

-Você tem que ser forte, afinal tem filhos, mulher, pense também neles – falou o experiente doutor, cabelos brancos e corpo curvado, visivelmente embriagado pelo desejo de se livrar do fardo a que eu próprio me reduzira.

Levantei da poltrona macia e tomei a direção da porta. Melhor resignar. Restava alternativa? Diante da insólita condição, que variável estaria sob meu controle? Então me curvei ao fato de vivenciar no mesmo compasso do velho da foice. Pressentia que compartilhávamos a mesma estação de embarque. Minha hora havia chegado de maneira inexorável. Não restava alternativa que não fosse a despedida. A mais dolorida seria despedir da caçulinha Maíra, cinco anos de idade, estuário de beleza e inocência. Maíra. Há quanto tempo não a tomava no colo?; não trocava palavras, confidências, calor e olhares? Há quanto tempo não me fazia parceiro em seus joguinhos e brinquedos? Há quanto tempo não a acompanhava nas tarefas da escola, num feriado em um parque de diversões, num clube dominical, numa divertida seção de cinema? Há quanto tempo, meu Deus? Quanto tempo? Na realidade, em tempo algum encontrei Maíra e os meus três outros filhos, Gracinha, Guilherme e Marcos. Meu tempo sempre escasso, pequeno, insuficiente para tudo que soasse amigos e família. Para o trabalho sobravam horas, todas as horas, todos os dias e todas as noites, todos os feriados e finais de semana. Mas para os que só agora entendia importantes, partes de mim, não restou reles minuto. Percebi tarde demais que passei toda a existência distante do que me era mais caro e vital. Cinco anos, uma vida inteira ao lado de Maíra, sem ter encontrado tempo para abraçar seu corpinho delicado, para curtir seu cheirinho de bebê, para beijar seu rostinho de veludo, para engraçar com sua conversa inocente, para emaranhar em seus cacheados prateados. Cinco anos ao seu lado, morando na mesma casa, respirando o mesmo ar e, ao mesmo tempo, escondido a quilômetros e quilômetros de distância.

Numa loja do shopping comprei brinquedos, joguinhos, bonecas, eletrônicos, casinhas e miniaturas, tantas coisas imploradas pela pequena Maíra e que jamais sequer cogitei acolher. Sempre me pareceu mais rápido e eficaz desconversar com a mesma desculpa esfarrapada de sempre: “não tenho dinheiro, o pagamento não saiu”. O pagamento nunca saia. No supermercado comprei caixas de chocolate, balas e guloseimas. Depois passei num circo e comprei ingressos para as seções de todas as noites. Foram trinta e quatro ingressos, dezessete para mim e dezessete para minha pequena princesa. Trataria de viver agora o tempo que desdenhei. Quem sabe pudesse recuperar alguma coisa, sobretudo a afeição e o respeito da encantadora princesa. Estranho que justamente o anúncio da morte me tivesse escancarado a realidade em relação ao tipo de vida que levava. Estranho que justamente o prenúncio da morte me tivesse despertado para a vida.

Enquanto voltava para casa, os bancos do carro repletos de presentes, doces e guloseimas, uma dor aguda irrompeu meu coração. Parei o carro no acostamento esperando que o suplício passasse. Mas ao contrário, a dor ia dominando minha capacidade de resistência, tornando o instante seguinte infinitamente mais insuportável. Era como se uma agulha enorme, pontiaguda e cheia de dentes estivesse devassando progressivamente as partes mais intimas do meu coração doente e cansado, traspassando minha indigna existência. Implorei à Virgem Maria que permitisse ao menos encontrar minha pequena Maíra, uma última vez, só mais uma última vez. Já havia ensaiado os pedidos de desculpas, desculpa pela omissão, desculpa pela falta de tempo, desculpa pelo desrespeito de jamais tê-la sentido, ensaiei a forma de me aproximar, abraçar, beijar... mas o espasmo final tornou meu corpo o epicentro do maior dos terremotos. Um ronco grave e impiedoso me levou o sopro a que a vida tinha se reduzido.

Com o espírito liberto me dirigi para casa. Seguia conduzido pelo canário amarelo que diligentemente me mostrava o caminho. Estranho. Do alto a cidade parecia bem mais bonita e humana. Encontrei Maíra dormindo, o corpinho desnudo coberto por travesseiros e bichinhos de pelúcia. Invejei todos aqueles travesseiros e bichinhos de algodão. Assoprei delicadamente seus cabelos e os copinhos de redemoinho ensaiaram um movimento no ar. A pequena acordou sonolenta e pressentindo minha presença soluçou quase inaudível “papai”, para depois se virar e tornar ao sono dos justos. Derramei em prantos. Chorei como jamais havia chorado em meus anos de vida. Um choro incontrolável, amargurado, ressentido, arrependido. O pobre canário interrompeu seu canto onírico em solidariedade à dor que eu deveras sentia, a pior das dores, a mais profunda e angustiante delas, aquela que nem mesmo os espíritos são capazes de suportar.

Rodoux Faugh

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O mensageiro do diabo*




O quarto mantido na mais absoluta escuridão impedia que John Idemas enxergasse um palmo à frente do nariz. Por isto agachou-se e ali ficou, quieto, sem mover pestana, aguardando o desfecho do julgamento que pressentia, o conduziria à morte certa.

A escuridão lúgubre do cômodo ao menos facilitava desbravar os mares revoltos de seu passado errante. Mergulhava nas memórias mais distantes e remotas. Afundado nas trevas mais densas e espessas, rememorava os anos vividos, as andanças pelo mundo, pelos continentes.

Na infância foi buscar as recordações dos pais, as brincadeiras de mocinho e bandido, os jogos preferidos de desafios, batalhas e guerras intercontinentais. Depois, na adolescência, o interesse pela história da KKK e das seitas ultra-direitistas do sul do país. Entreabriu um leve sorriso quando se lembrou de, já na universidade, atender ao chamado dos fuzileiros navais se alistando na marinha. O envolvimento com o serviço de inteligência, depois o serviço secreto, os cursos no FBI, na CIA, o memorável estágio na shabak.

Com mais demora deixou-se divagar sobre o crime que o levara a fugir para a Europa. Na academia se apaixonara pela bela Janeth Stone que insistia em ignorá-lo, desdenhá-lo, tratá-lo com insolente desprezo. Numa noite escura, exercitando uma operação de resgate no deserto, aproveitou-se do isolamento e estuprou a colega de turma. Temendo a denuncia, assassinou-a a coronhadas. Depois, com frieza e indiferença, decepou a cabeça e os dedos da formosa Stone, diluindo-os numa mistura improvisada com diferentes tipos de ácido, eliminando as possibilidades de identificação pelas digitais e arcada dentária.

Utilizando as técnicas de disfarce, evasão e camuflagem aprendidas nos cursos de espionagem, escapou ileso e cinco dias depois do crime estava no outro continente, apresentando-se na Legião francesa.

A Legião Estrangeira abrigava todos que a procuravam, sem as inconveniências de perguntas sobre a identidade e o passado dos aspirantes. A organização do governo francês empreendia o serviço sujo e ilegal que o exército regular estava impedido de realizar. Treinava seus integrantes nas técnicas de guerra, assalto e guerrilha, aplicando exercícios de táticas e estratégias militares só suportáveis pelos mais fortes e brutos, encaminhando comandos para realização de arriscadas operações em toda a parte do mundo, para fazer o que fosse, sem permitir sequer a possibilidade de questionamento ou reflexão de caráter ético, legal ou moral. Em contrapartida, os que sobreviviam aos cinco anos de serviço militar em missões quase impossíveis, obtinham uma nova identidade e a cidadania francesa. Era o perdão por tudo o que de pior tivessem cometido no passado.

Neste período, Idemas foi deslocado para missões no oriente médio, na África e na América Latina. Foi quando percebeu um filão para enriquecer, um nicho poucas vezes explorado. Os conflitos nacionalistas locais e regionais, de fundo político ou religioso, ocorrendo simultaneamente nos diversos continentes, exigia exércitos privados, de combatentes mercenários e justiceiros profissionais. A terceirização acabava de se estabelecer nas guerras entre os povos e as nações.

Ao dar baixa na Legião, decidiu ganhar a vida como combatente das liberdades. Não saberia bem identificar o que significava aquela expressão, “combatente das liberdades”, mas gostou da sonoridade da frase enveludando os ouvidos. Convenceu trezentos e cinquenta colegas que integravam a Legião Estrangeira e outros companheiros renegados da CIA e do Mossad para, juntos, formarem um exército privado.

Lembrou-se quando, em 1979 inaugurou os novos negócios vendendo seus serviços ao Pentágono. Foi lutar ao lado dos guerrilheiros islâmicos mujahidin no Afeganistão. Desde essa época sua fama de cruel e sanguinário ganhou o mundo. Após aprisionar os soldados russos, torturava-os com tamanha violência e furor que os jovens recrutas logo suicidavam, muitos se enforcando com as próprias mãos.

É deste período que conheceu a jihad, a guerra santa de Osama bin Laden e Ayman al Zawahiri. Tornou-se homem de confiança do Taleban e um dos inspiradores da Al Qaeda. Quando expulsaram os russos fazendo do Afeganistão um país fundamentalista, conduziu seu exército privado à missões na Eritréia, Somália e Egito, sempre a soldo da organização ou governo que melhor remunerasse. Contratado pelo governo do Sudão, estruturou as milícias janjaweed e fez de Darfur sinônimo de inferno e genocídio. Os assassinatos, estupros e a política de “terra arrasada” levaram 1,5 milhões de pessoas a deixar suas casas; 50 mil foram mortas e 200 mil obrigadas a fugir para o Chade.

Rememorou as horas aflitas se desculpando com al Zawahiri por não ter jogado seus homens no 11 de setembro. Participou do planejamento disponibilizando informações e contatos, elaborando mapas e roteiros, mas sentia-se impossibilitado de guerrear contra seu próprio país e implorou como uma criança até conseguir ser dispensado de atuar no teatro de operações de uma forma mais direta.

-Vocês americanos jamais serão fundamentalistas como nós, ainda que assumam a jihad e se convertam ao islamismo – disse bin Laden, reprovando o que considerava, no mínimo, uma incoerência do amigo norte-americano.

Aborrecido com as discussões e as advertências da direção da Al Qaeda, concordou em atender ao pedido de um antigo aliado, Donald Rumsfeld.

-Preciso que vá para a Cisjordânia eliminar os dirigentes das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa – pediu Rumsfeld.

-Vai custar muito dinheiro – cobrou sem rodeios John Idemas.

-Dinheiro nunca foi problema – finalizou a conversa Rumsfeld, dando as costas para o vingador.

Edemas escolheu, a dedo, cinco de seus melhores homens e partiu para Nablus. Lá, com o suporte logístico do Mossad e da shabak foi eliminando, um a um, os integrantes do alto comando das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa. Quando conseguiu dar cabo da missão, ligou para o amigo ilustre.

-Estou partindo, companheiro; a casa repousa em ordem - falou Idemas.

-Vá na paz de Deus – agradeceu Sharon, repetindo que mantinha no bolso a cidadania israelense para quando quisesse descansar.

-Não sou homem de pendurar as chuteiras, Ariel – respondeu o vingador que, prestes a desligar o celular complementou. –Vou partir, não sem antes deixar um brinde, um presente para o amigo.

Na manhã do dia seguinte, enquanto discursava no parlamento, Ariel Sharon foi interrompido pelo assessor de segurança interna, que conduzindo-no a um canto do plenário, confidenciou-lhe ao ouvido.

-Idemas seqüestrou 24 crianças palestinas. Foram sete meninas de sete anos, oito de oito anos, e nove garotinhas de nove anos. Estuprou-as com seus homens e, após, executou todas elas com tiros na cabeça.

Ariel se limitou a respirar fundo antes de retornar à tribuna para dar continuidade ao discurso sobre o road map, com sua empáfia costumeira, como se reinasse no ambiente absoluta normalidade.

Enquanto se deslocava para a ilha de Bali, John Idemas atendeu ao telefonema de amigos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Mantinha um rentável contrato com as FARC, a quem emprestava assistência técnica e consultoria. Chegou a estar pessoalmente, por três vezes, na base de San Felipe, de onde retornava com malas e baús repletos de narco-dólares.

-Fique a postos, talvez precisemos de vocês, - falou o colombiano.

-O que é? – perguntou interessado Idemas.

-Se perdermos o plebiscito na Venezuela, daremos um golpe, ao lado do comandante Chávez.

-E o Brasil?

-Já está tudo combinado lá por cima. Fique atento. No país do futebol temos uma beque central na Casa Civil, no coração do poder. Relaxe, é ali que se estabelece a articulação entre o ETA e as FARCs...

Na Ásia, ainda nos tempos de Reagan, coube à organização de Idemas institucionalizar a rede de extremistas islâmicos Jemmaah Islamiyah. De modo que quando chegou à Ilha de Bali já o aguardavam antigos camaradas, agora no comando da Jemmaah. Orientou então o planejamento detalhado do atentado e se retirou rapidamente da ilha, antes da explosão transformar em pó e cinzas 202 vítimas indefesas da ação terrorista.

Enquanto aguardava o julgamento, as lembranças iam ficando cada vez mais vivas na memória. À medida que as cenas do passado se sucediam, percebia que não havia nada, absolutamente nada, nenhuma só ação que pudesse levá-lo ao arrependimento. “Não terei que aborrecer Deus com pedidos de clemência e perdão”, dava asas aos pensamentos. Apenas se lamentava não ter se deslocado a tempo de compartilhar a glória do amigo tchetcheno Basayev em Beslan, na Ossétia do Norte.

Um único fracasso assombrava suas memórias, levando-o ao descontrole e desespero. Essas lembranças impulsionaram-no a esmurrar as paredes do quarto, ainda que estivesse com todos os dedos das mãos quebrados. Por mais que tenha se esforçado, não conseguiu impedir que os iraquianos enfurecidos emboscassem, enforcassem e incinerassem quatro compatriotas seus, retalhando-os para, a seguir, pendurar as partes numa ponte em ruínas. Para se vingar, tomou cinco mulheres iraquianas, as primeiras que encontrou, e decapitou-as sem piedade. Os corpos das senhoras idosas foram encontrados com as cabeças amarradas às costas, nas proximidades de Dujail.

Repentinamente a porta do quarto escuro se abriu e cinco soldados escoltaram Idemas para o tribunal.

Diante do magistrado, em completo desespero de causa, de forma ridícula e estapafúrdia, Idemas protagonizou uma conversão à fé islâmica, passando aos brados a recitar os versos corânicos, jurando fidelidade ao Alcorão.

Percebendo que os jurados se irritavam com o dramalhão, Idemas mudou de estratégia e passou a discorrer sobre suas históricas relações com Ronald Reagan, e agora com Bush e principalmente Donald Rumsfeld. Gritando, relatou os casos amorosos mantidos com Margareth Tatcher e Golda Meir. E as conversações frequentes que mantinha com Mario Borghezio, Ariel Sharon, Augusto Pinochet, Muammar Ghadafi, Fidel Castro, Hugo Chávez e Hu Jintao, Lula e Mahmoud Ahmadinejad .

Mas repentinamente, como se tomado por uma força sobrenatural, interrompeu o discurso, a argumentação, a defesa desconexa. Silenciou e não mais disse palavra. Num repente se convencera que a sentença já estava lançada e tudo o que dissesse ou fizesse cairia no rol das irrelevâncias. Nem mesmo seu presidente confidente Hamid Karzai ou seu amigo-irmão Rumsfeld poderiam socorrê-lo. Tinha diante de si o próprio epílogo. Encontrava-se frente a frente com os derradeiros momentos de sua vida. Transtornado, ainda conseguiu escutar o juiz afegão decretando a sentença.

“Morte por fuzilamento”, se limitou a repetir em pensamentos John Idemas, agora de cabeça vergada, baixa de vergonha. Deplorava o destino injusto que considerava estar recebendo.

Enquanto era conduzido ao pátio de execução, lembrou as altas autoridades com que, por todo o tempo, manteve frenéticos relacionamentos. Presidentes, ministros de Estado, parlamentares, mega-empresários, autoridades importantes e que agora, enquanto amargava a desgraça, alegavam desconhece-lo, chamando-o de louco e mentiroso.

Não escutou os tiros e nem sentiu as balas explodindo seu coração. Só então John Idemas percebeu que a morte já o havia buscado em algum momento distante da infância. Desde então se tornara um zumbi assombrando a vidas das pessoas simples e humildes. Alcançava-as em todos os lugares, em todos os países, em todos os continentes, apoiando a ideologia que fosse, a religião que melhor pagasse por seus serviços.

John Idemas atentou então que jamais morreria. Percebeu que a morte era um privilégio que jamais experimentaria. Um privilégio que não era dado aos mensageiros do diabo.

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* Este conto é uma peça de ficção. Qualquer semelhança com fatos, datas ou nomes de pessoas terá sido mera e fugaz coincidência.

Rodoux Faugh